Tu escreves sem sofrer?
Como é possível?
Se escrever é sangrar a alma,
É arrancar uma parte de si,
Para dar ao outro,
Um ínfimo quinhão do teu viver.
Tu escreves sem lágrimas?
Como é possível?
Se as tuas lágrimas,
São a linguagem da alma,
E cada gota que tinge o papel,
É a emoção que conta ao outro,
Quão grande é a tua saudade.
Tu escreves sem sorrir?
Como é possível?
Se o teu humor ou a tua ironia
São o princípio do prazer,
É na leve rebeldia do teu ser.
Que a pena jocosa dança no papel.
Tu escreves sem contemplação?
Como é possível?
Se o teu olhar encanta e acalma.
Revela a quem ler,
A beleza do teu mundo interior.
O mistério que habita a tua alma.
Tu escreves sem sede do saber?
Como é possível?
Se a essência do desejo é decifrar.
Os mistérios do inesperado.
A origem da tua inquietação.
A sagacidade do extraordinário.
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Sentada na varanda da minha casa, ouvi duas crianças conversando:
— Não irrite o cachorro — disse o mais velho.
O menor não fez caso e continuou atiçando o cão, que ficou enfurecido, latindo e batendo no portão.
— Vamos, ele vai arrebentar o portão! — disse o menor.
Fiquei olhando as crianças correrem do pequinês da vizinha, que estava preso atrás de um portão de ferro. Como poderia aquele cachorro quebrar o portão?
Sorri ao ver os meninos correrem, e o que era diversão se transformou em reflexão: quantas vezes nós mesmos transformamos um “pequinês” que é um problema, uma falha ou um conflito, em feras valentes que podem arrebentar os portões e nos atacar?
Somos capazes de fazer de uma formiga um monstro. Usamos lentes de aumento diante de certas situações — não com a inocência daquelas crianças, mas por orgulho, por conveniência, por sentir pena de nós mesmos ou para chamar a atenção dos outros.
Seja como for, deveríamos repensar a nossa maneira de ver as nossas feras. Talvez descubramos que elas são apenas pequinês presos atrás de um portão de ferro — e, ao perceber isso, possamos melhorar a nossa qualidade de vida.
Querido leitor,
Viver é uma arte, e o artista é você.
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Parede de vidro
Vejo quem “passa”.
Até olham, não me vê.
A língua alheia me vê;
“Sabem” da minha hora;
Do meu “entardecer”.
Pena que fingir saber;
Não é conhecer…
Eles sempre por fora,
Constantemente atrasado.
Eu vejo o que não é dito.
Ninguém “vê” o que digo
Só criam o “velho” roteiro
Eles levantam a Barreira,
Quando quebrava a parede,
Outra “amanhecia” no seu lugar;
Agora é de vidro temperado.
A “paciência” chegou ao fim.
Para você, “amigo,” eu invisível
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Coração, se avexe não,
essa tal de palpitação
não é amor, nem paixão.
Me embrulha todo o estômago,
sem entrevista de emprego,
sem que eu possa explicar a razão.
É uma “vida” muito sensível,
causa um gigante desconforto.
O infortúnio embaça minha visão,
sinto que vou desmaiar,
sem estar a 40 graus o coração.
Minhas pernas cansaram,
a posição vertical é uma tortura.
Ainda mais se avexa o coração
sou escrava da malvada tontura.
Será que isso é vida?
Parece uma fraca imitação.
Coração, se avexe não
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Receio o futuro, a “velhice”.
Temo que minha bengala não tenha dó,
Que minha língua perca a compaixão,
Que meu olhar seja frio — ou reflita a ausência do amor.
Receio começar a ter parceria com a tolice,
Andar de mãos dadas com a apatia,
Ser amiga íntima da inexplicável irritação...
Morro de medo dessa implacável velhice.
Quando os cabelos brancos não são sinal de sabedoria,
Quando as marcas do tempo não são prova de maturidade
E a minha bagagem não é de conhecimento...
Que a coroa de honra não seja feita de virtude.
Receio vestir-me de luto, usar o manto da superioridade.
Não tolerar frustração; só querer ouvir sim, nunca um não.
Raramente demonstrar a valiosa gratidão.
Temo ocupar um lugar que não me pertence:
De aborrecente mimado. Pouco dá, mas muito deseja receber.
Assim... é penoso envelhecer.
Tenho medo de não entender a essência da vida.
Bater o pé, fazer pirraça feito criança,
Exigir juventude que a vida não tem para dar.
Tenho pavor da ideia de odiar a charmosa vida.
De ser o dragão dentro das muralhas do castelo,
De complicar o que deveria ser simples,
De "olhar por cima do ombro" ou viver olhando para trás,
De usar os velhos óculos da minha tataravó.
Que o desejo de aprender fuja, que eu tenha horror de ser ensinado.
Crer que tudo sei, quando nada aprendi de fato.
Tenho medo, muito medo, de pensar que muito mereço
Quando nada ofereço em momentos caóticos.
Não temo as rugas na face, o caminhar lento,
Os cabelos brancos, a catarata, a flacidez…
Não tenho medo da diabetes, das mãos trêmulas.
Meu medo é findar... tão inexperiente quanto comecei.
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Depois de um grande flagelo,
Uma voz ecoa: “Você, guerreiro!
Tenha orgulho por ter o castelo.”
Qual é o triunfo? Só trollagem.
Quem me dera tivesse tal foco:
Ser modelo de força e coragem.
O guerreiro tem objetivo claro,
Pronto para o conflito dramático.
Supera, levanta, não se quebra...
O guerreiro é um personagem.
Quem sobreviveu está exausto.
Caminha no piloto automático.
O espinho o faz sangrar.
Cala a dor no silêncio;
Sem opção para mudar.
Quem escapou por um triz,
Aprende a se reinventar...
Finge que é feliz.
Com resignação, tolera tudo:
O inaceitável, o impossível.
Acolhe, em resignação, seu luto.
Sobrevivente, não personagem.
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Quando “Como vai? Tudo bem?” Aparece vagando pelos salões sociais da vida, nada querem dizer. São apenas etiqueta, por educação.
A resposta deve ser: Tudo bem, obrigada. E você?
Aqueles que ousam dizer: hoje não estou bem, recebem um olhar estreito e a resposta: tenha fé, seja forte, ou isso vai passar e você vai sair mais forte.
Não estar bem em algum momento é corriqueiro. Onde entra a falta de fé em uma questão do cotidiano? Se hoje não é um bom dia, significa que não há força e coragem?
O sujeito, simples ou composto, não importa. Não sabe e nem se deu ao trabalho de saber porque o céu está tempestuoso, mas rapidamente responde: “isso passará”.
E se a situação alheia não tiver cura ou solução... como vai passar?
Quando saber se “como vai?” é só parte da etiqueta social, ou as boas maneiras do sujeito oculto?
E quando a pergunta é feita com amor e cuidado genuíno?
Pois um "tudo bem?" sincero é um convite para abrir o coração.
Num mundo que está conectado o tempo todo e ninguém ‘está longe’, cada dia o convite sincero para abrir o coração é coisa que ficou no passado. Junto com os orelhões, as fichas telefônicas, as fitas cassetes...
O mundo muda rapidamente, é até difícil de acompanhar. Com ele muda a maneira de se relacionar.
O que mais vai ficar obsoleto?
Em corações frios, de pedra, há um antídoto para o sofrimento?
No novo look que o mundo veste, há lugar para a velha camiseta com a frase: sinto muito que esteja passando por isso ou entendo que está difícil?
Acredito que não.
A dor só precisa que uma mão amiga pouse em seu ombro.
O sofrimento não precisa de fé ou de receitas mágicas, só precisa de empatia.
O sofredor não precisa que lhe digam para ter força e coragem; se ele lida com a dor com frequência, tais qualidades ele já tem.
Só precisa do velho e bom Amor.
Marya Ferreira
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Pela primeira vez pensei em você;
Pela primeira vez desejei ouvir sua voz;
Pela primeira vez desejei que pensassem em mim.
Depois de tanto tempo tentando não pensar;
Depois de tanto tempo tentando não querer;
Depois de tanto tempo acreditando que me esqueceu.
Desejei que não tivesse esquecido;
Desejei que seu coração sentisse as batidas fracas do meu;
Desejei que sentisse uma vontade louca de falar comigo.
Só hoje queria que fosse diferente;
Só hoje pensei que podia ter mais que migalhas;
Só hoje queria um conto de fada.
Por um momento ser a dama em perigo;
Por um momento ser salva do dragão;
Por um momento sair da torre, da prisão.
Precisei de você;
Precisei chorar no seu ombro;
Precisei por um momento ser feliz.
Para quê esperar por você?
Para quê alimentar o sonho juvenil?
Para quê fingir, se tudo se perdeu?
Nenhum bilhete furtivo;
Nenhum recado intermediado;
Nenhum recado lançado ao mar.
Não há vestígios de você;
Não há registro da nossa história;
Não há testemunha desse amor. nem mesmo a lua;
Talvez você nunca existiu;
Talvez seja um sonho lúcido;
Talvez viva nas páginas de um livro;
O seu amor existe na letra da canção;
O Seu rosto na fotografia amarelada pelo tempo;
O seu carinho nas cartas que não escreveu.
Uma quimera foi o que desejei;
Uma ilusão criada por mim;
Uma latente vontade de não chorar sozinho.
Então desejei lhe desejar;
Então te acolhi… mesmo sabendo que era mentira;
Então parei de olhar as marcas do tempo.
Deixei a tola idéia partir;
Deixei o frágil elo se romper;
Deixei de pensar em você,
Pela primeira vez você deixou de existir;
Dentro de mim.
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A noite vem tão veloz;
Com ela saudade.
Você talvez sinta falta…
Talvez esteja triste.
Leve meu coração se quiser;
Ele está nas suas mãos.
Só vou desaparecer;
Despertar um novo dia.
Viva! O drama acabou.
Cala a minha voz.
Não sei se vai voltar;
Para viver uma comédia triste.
Você, pássaro livre;
Faça tudo que puder;
Para brilhar no novo universo;
Não estarei no seu caminho.
Talvez sinta minha falta;
Meu amor escapou das suas mãos;
Talvez fique triste;
Você provavelmente pensa em mim.
Talvez deseje estar comigo;
Você provavelmente sente falta;
Vou desaparecer da sua vida;
É o fim da nossa comédia triste.
Você provavelmente vai lembrar de mim;
Para mim isso basta;
Leve meu coração se quiser;
Ele está nas suas mãos.
Vou esquecer de tudo agora;
Renascer das cinzas;
Despertar um novo dia;
O fim da nossa comédia triste.
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Nas trevas da rua deserta, mora o silêncio tão profundo que ao longe escuto seu eco.
A Melancolia tornou-se um gigante que vive nas sombras, à espreita, pronta para atacar os incautos.
Os que se aventuram no submundo da insanidade. Os dois lados de uma mesma moeda, bondoso e brutal.
A Generosidade cruel; baseada no orgulho e egoísmo de uma alma que se convence que o mal realizado beneficia o outro, sem benfazer. Seguindo padrões, costumes, hábitos e tradições bizarras.
Comprando obras de arte na esperança que a beleza ofusque o que de feio há no seu frio mundo.
Não é só amor que faz morada no coração, a dor também nele fez seu Lar. A dor que assombra, pode ser usada para ajudar a dor alheia, mas focado só na sua dor, não consegue ver a do outro. Ninguém tem dor maior ou mais bonita. Assim, com medo de perder sua companheira, se isola no castelo da brutalidade, escuro e sem espelho. Se esconde de si mesmo, ferindo, sendo ferido brutalmente, sem se preocupar em buscar a luz, segue nas trevas pegando carona nos erros dos outros para justificar os seus. Suga o que de pior há no outro, alimentando sua dor e imaginação catastrófica, com teorias da conspiração. Sempre injustiçado, sentindo pena de si mesmo, foge das mãos que desejam puxá-lo para fora do abismo.
Perdido num mundo de dor e sofrimento, desfigura sua alma, perverte sua mente, a doçura de antes dá lugar a um mar de amargura maldosa. Se foi ferido, pode ferir; se foi magoado, pode maltratar. Cria um mundo sem ordem, sem lei, onde sua vontade é um deus. Acredita ter o direito de exibir sua verdade como troféu, doa a quem doer. Sua verdade é baseada em tantas mentiras que não tem base para se erguer, desmorona, se espatifa ao seus pés. Então acha um culpado para o desastre da sua vida, todos tem culpa, ninguém entende, ninguém se importa. Não se dá conta que deixa todos de fora da sua fortaleza, mesmo quando a ousadia e a coragem invadem seu castelo, este ser tão contraditório se arma até os dentes para atacar seus amigos, que aos
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