Velhice
Receio o futuro, a “velhice”. Temo que minha bengala não tenha dó, Que minha língua perca a compaixão, Que meu olhar seja frio — ou reflita a ausência do amor. Receio começar a ter parceria com a tolice, Andar de mãos dadas com a apatia, Ser amiga íntima da inexplicável irritação... Morro de medo dessa implacável velhice. Quando os cabelos brancos não são sinal de sabedoria, Quando as marcas do tempo não são prova de maturidade E a minha bagagem não é de conhecimento... Que a coroa de honra não seja feita de virtude. Receio vestir-me de luto, usar o manto da superioridade. Não tolerar frustração; só querer ouvir sim, nunca um não. Raramente demonstrar a valiosa gratidão. Temo ocupar um lugar que não me pertence: De aborrecente mimado. Pouco dá, mas muito deseja receber. Assim... é penoso envelhecer. Tenho medo de não entender a essência da vida. Bater o pé, fazer pirraça feito criança, Exigir juventude que a vida não tem para dar. Tenho pavor da ideia de odiar a charmosa vida. De ser o dragão dentro das muralhas do castelo, De complicar o que deveria ser simples, De "olhar por cima do ombro" ou viver olhando para trás, De usar os velhos óculos da minha tataravó. Que o desejo de aprender fuja, que eu tenha horror de ser ensinado. Crer que tudo sei, quando nada aprendi de fato. Tenho medo, muito medo, de pensar que muito mereço Quando nada ofereço em momentos caóticos. Não temo as rugas na face, o caminhar lento, Os cabelos brancos, a catarata, a flacidez… Não tenho medo da diabetes, das mãos trêmulas. Meu medo é findar... tão inexperiente quanto comecei.
Comentários · 0
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.