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João Victor Serenário

@graduallyerasing · desde 2023

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Azul e Vermelho

Você era azul. Tudo ao seu redor parecia encontrar um caminho até você. Pessoas, afetos, coisas boas que eu nunca soube manter. Você atraía. Eu era vermelho. Tudo que chegava perto era repelido. Amigos, amores, até as poucas coisas que eu deveria ter protegido. Você juntava. Eu separava. Você fazia do mundo um lugar onde as coisas podiam permanecer. Eu transformava distância em segurança. Talvez por isso eu tenha te amado de tão longe. Porque entre nós havia um infinito. Não aquele infinito bonito que os poetas usam para dizer que alguma coisa nunca acaba. Um infinito de verdade. Quanto mais eu tentava chegar, mais espaço aparecia. Eu estendia a mão e você continuava ali. Perto. Mas nunca te alcançava. E talvez o pior seja que você não precisasse fugir de mim. Eu fazia isso sozinho. Era minha própria força de repulsão. Você atraía tudo que eu desejava ser. Eu afastava tudo que desejava ter. E no fim, Azul e Vermelho não eram feitos para se misturar. Você continuou atraindo o mundo. Eu continuei repelindo tudo. E entre nós, o infinito. Sempre o infinito. Perto o bastante para eu te ver. Longe o bastante para nunca mais conseguir te tocar. — João Serenário

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Sem nome

não sou daqui mas sei fingir o sol saiu mas ainda faz frio abri a janela mas nada vi o mundo acordou mas continuei a dormir ouvi minha voz mas não reconheci chamei por mim mas não respondi talvez eu esteja aqui mas não sei onde talvez eu seja feliz quando esquecer meu nome - João Serenário

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Contradições

Gosto de ficar só, mas odeio o silêncio. Gosto de ouvir "fica", mas planejo partida. Gosto de ter abrigo, mas vivo à deriva. Gosto de você mais do que admito e de mim menos do que deveria. Gosto de portas abertas, mas nunca entro. Gosto de quem insiste, mas desisto primeiro. Gosto de esquecer, mas guardo muito e, mesmo assim, nunca estou inteiro. - João Serenário

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Cansaço

Trago na voz rouquidão ando fumando muito me afundando em excessos tenho que escrever alguma coisa mas só carrego peso a insônia dorme comigo e passa a noite cutucando erro velho comprimidos ao lado juntos ao som estereo rabisco frase torta nenhuma abre o peito toda ideia nasce cansada e morre cedo ando cansado do espelho dos cinzeiros lotados das luzes acesas na rua e eu apagando primeiro. - João Serenário

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Pra não dizer que eu não tentei falar de amor

Eu sinto o fim encostar na pele do começo como um presságio sussurrado antes mesmo do primeiro passo. Talvez sejamos só personagens cansados decorando falas que não escrevemos, errando do jeito certo para nos tornarmos alguém. Me abraça. Mas abraça de verdade, como quem tenta impedir o mundo de desabar pelos olhos. Porque eu também estou cansado, cansado desse teatro de coragem onde todo mundo treme por dentro. A gente finge não sentir, finge não precisar, finge não querer ficar. Mas no fundo é só medo de ser o último a ir embora. Amor é isso: um salto sem chão, um riso alto demais pra esconder o silêncio depois. Corpos se encontram antes das verdades, mãos se tocam antes dos nomes fazerem sentido. E ainda assim, eu corro. Corro pra você como quem foge de si mesmo, como quem sabe que não há mapa seguro. Quero viver grande mesmo que doa rápido, quero amar sem freio mesmo que falte ar depois. Porque no fim, tudo o que a gente realmente sabe é simples e brutal: ninguém quer desaparecer sem ter sido lembrado no peito de alguém. Eu não sei muito. Só sei que estou perdendo pedaços em cada tentativa, em cada quase, em cada você. Mas talvez seja isso viver: se desfazer aos poucos até encontrar alguém que junte os cacos sem pedir explicação. Então fica ou vai, mas não finge. Porque entre o começo e o fim existe esse instante frágil onde a gente decide se ama ou se apenas passa. - João Serenário

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O estrangeiro

A solidão me persegue onde quer que eu vá. Carrego chaves de portas que nunca abriram. As ruas me conhecem apenas de passagem. Cidades passam por mim como paisagens vistas de dentro de um ônibus com janelas enferrujadas. Eu caminho. De sala em sala. De rua em rua. De história em história. Visitante constante de lugares que parecem casa por alguns instantes. Atravesso a calçada e desapareço antes que alguém pergunte um nome. Mesmo entre pessoas o silêncio se acomoda ao meu lado como um velho companheiro. Um espaço vazio onde deveria existir pertencimento. Carrego pouco. Apenas alguns nomes dobrados no bolso como bilhetes de viagem sem destino. Cartas com despedidas curtas. E ainda assim, eu continuo. De lugar em lugar. De dia em dia. Sem um lugar para onde voltar, ou para chamar de lar. - João Serenário

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À beira

Estou de pé na beira de algo. Não sei dizer se é um precipício ou só mais uma versão de mim mesmo desmoronando. O chão parece firme até o momento em que não parece mais. Dei passos demais na direção errada. Agora essa agonia me acompanha como uma sombra que aprendeu meu nome. Às vezes penso que já caí há muito tempo e isso aqui é só a queda demorando a terminar. Ainda respiro. Um fôlego curto arranhando o peito. Talvez seja o último antes do impacto. Ou talvez seja o suficiente pra me virar e dar um passo pra trás. - João Serenário

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A solidão do mais forte

O que escapa. Não persigo. Quando cai, permanece no chão. Importa o que fica. Meu passo, o silêncio, meu pulso. Não existe mais aquela sensação. Só peças que não se encaixam. Ferrugem no ouvido desgaste gratuito. Se chove, eu costumo atravessar. Não peço teto. Não meço excesso. Quando o sol castiga, não importa o quanto queime. Suporto. Se desmorona, aprecio a queda do que não me compõe. Nada disso me lança para fora de mim. Tudo se junta. Se torna vento. E mesmo quando está forte e violento. Não me move. - João Serenário

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Último dia

Se hoje fosse o último não precisaria de sol. Só um céu pesado desabando devagar. Eu não faria um lista. Não ligaria pra ninguém. O mundo, de certa forma — sempre acabou um pouco dentro de mim. Eu te procuraria — não por amor. Por urgência. Tocaria teus lábios com os meus, como um beija-flor coleta o néctar da flora. Sem promessas. Sem futuro. Só impacto. Contato. Se é o fim, não quero redenção. Quero saber se ainda posso sentir. Quero o excesso. O erro. O pulso descompassado. Cru. Eu nunca soube viver devagar. Sempre em fuga. Sempre correndo de algo, mas eu sempre estive por aqui. Talvez o mundo não acabe. Talvez seja só eu de novo em colapso. Mas se for o último dia — não me peça calma. Passei tempo demais fugindo em silêncio. - João Serenário

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Quase monge

Falo de amor e me vem culpa. Ressentimento. Nada tem cor. Penso se, mesmo com você perto, eu respiraria ou continuaria coberto de areia — sozinho, com sede, no mesmo deserto. Sigo no mesmo caminho. Amor e ódio nas mesmas linhas brancas em cima da mesa. E eu insistindo em péssimas escolhas. Procuro cura como quem cava o próprio chão. No espelho, o homem que me deve. Cobro agora ou deixo que o tempo o leve? Enquanto ele fica, eu te olho de longe. Imagino que te ter por um segundo seria como abraçar uma galáxia inteira. Mas continuo imóvel. Quase monge. Sei que as preces não serão atendidas. E ainda assim, quando teu nome ou tua imagem me vem — não dói. - João Serenário

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