Você era azul.
Tudo ao seu redor parecia encontrar um caminho até você.
Pessoas, afetos,
coisas boas que eu nunca soube manter.
Você atraía.
Eu era vermelho.
Tudo que chegava perto
era repelido.
Amigos, amores,
até as poucas coisas que eu deveria ter protegido.
Você juntava.
Eu separava.
Você fazia do mundo
um lugar onde as coisas podiam permanecer.
Eu transformava distância
em segurança.
Talvez por isso
eu tenha te amado de tão longe.
Porque entre nós havia um infinito.
Não aquele infinito bonito
que os poetas usam para dizer
que alguma coisa nunca acaba.
Um infinito de verdade.
Quanto mais eu tentava chegar,
mais espaço aparecia.
Eu estendia a mão
e você continuava ali.
Perto.
Mas nunca te alcançava.
E talvez o pior
seja que você não precisasse fugir de mim.
Eu fazia isso sozinho.
Era minha própria força de repulsão.
Você atraía tudo que eu desejava ser.
Eu afastava tudo que desejava ter.
E no fim,
Azul e Vermelho não eram feitos para se misturar.
Você continuou atraindo o mundo.
Eu continuei repelindo tudo.
E entre nós,
o infinito.
Sempre o infinito.
Perto o bastante para eu te ver.
Longe o bastante
para nunca mais conseguir te tocar.
— João Serenário
Continuar lendo
não sou daqui
mas sei fingir
o sol saiu
mas ainda faz frio
abri a janela
mas nada vi
o mundo acordou
mas continuei a dormir
ouvi minha voz
mas não reconheci
chamei por mim
mas não respondi
talvez eu esteja aqui
mas não sei onde
talvez eu seja feliz
quando esquecer meu nome
- João Serenário
Continuar lendo
Gosto de ficar só, mas odeio o silêncio.
Gosto de ouvir "fica", mas planejo partida.
Gosto de ter abrigo, mas vivo à deriva.
Gosto de você mais do que admito
e de mim menos do que deveria.
Gosto de portas abertas, mas nunca entro.
Gosto de quem insiste, mas desisto primeiro.
Gosto de esquecer, mas guardo muito
e, mesmo assim, nunca estou inteiro.
- João Serenário
Continuar lendo
Trago na voz rouquidão
ando fumando muito
me afundando em excessos
tenho que escrever alguma coisa
mas só carrego peso
a insônia dorme comigo
e passa a noite
cutucando erro velho
comprimidos ao lado
juntos ao som estereo
rabisco frase torta
nenhuma abre o peito
toda ideia nasce cansada
e morre cedo
ando cansado do espelho
dos cinzeiros lotados
das luzes acesas na rua
e eu
apagando primeiro.
- João Serenário
Continuar lendo
Eu sinto o fim encostar na pele do começo
como um presságio sussurrado
antes mesmo do primeiro passo.
Talvez sejamos só personagens cansados
decorando falas que não escrevemos,
errando do jeito certo
para nos tornarmos alguém.
Me abraça.
Mas abraça de verdade,
como quem tenta impedir o mundo de desabar
pelos olhos.
Porque eu também estou cansado,
cansado desse teatro de coragem
onde todo mundo treme por dentro.
A gente finge não sentir,
finge não precisar,
finge não querer ficar.
Mas no fundo
é só medo de ser o último a ir embora.
Amor é isso:
um salto sem chão,
um riso alto demais
pra esconder o silêncio depois.
Corpos se encontram
antes das verdades,
mãos se tocam
antes dos nomes fazerem sentido.
E ainda assim,
eu corro.
Corro pra você
como quem foge de si mesmo,
como quem sabe
que não há mapa seguro.
Quero viver grande
mesmo que doa rápido,
quero amar sem freio
mesmo que falte ar depois.
Porque no fim,
tudo o que a gente realmente sabe
é simples e brutal:
ninguém quer desaparecer
sem ter sido lembrado
no peito de alguém.
Eu não sei muito.
Só sei que estou perdendo pedaços
em cada tentativa,
em cada quase,
em cada você.
Mas talvez seja isso viver:
se desfazer aos poucos
até encontrar
alguém que junte os cacos
sem pedir explicação.
Então fica
ou vai,
mas não finge.
Porque entre o começo e o fim
existe esse instante frágil
onde a gente decide
se ama
ou se apenas passa.
- João Serenário
Continuar lendo
A solidão me persegue
onde quer que eu vá.
Carrego chaves
de portas
que nunca abriram.
As ruas me conhecem
apenas de passagem.
Cidades passam por mim
como paisagens vistas
de dentro de um ônibus
com janelas enferrujadas.
Eu caminho.
De sala em sala.
De rua em rua.
De história em história.
Visitante constante
de lugares que parecem casa
por alguns instantes.
Atravesso a calçada
e desapareço
antes que alguém pergunte um nome.
Mesmo entre pessoas
o silêncio se acomoda ao meu lado
como um velho companheiro.
Um espaço vazio
onde deveria existir
pertencimento.
Carrego pouco.
Apenas alguns nomes
dobrados no bolso
como bilhetes de viagem
sem destino.
Cartas
com despedidas curtas.
E ainda assim,
eu continuo.
De lugar em lugar.
De dia em dia.
Sem um lugar
para onde voltar,
ou para chamar de lar.
- João Serenário
Continuar lendo
Estou de pé
na beira de algo.
Não sei dizer
se é um precipício
ou só mais uma versão
de mim mesmo
desmoronando.
O chão parece firme
até o momento
em que não parece mais.
Dei passos demais
na direção errada.
Agora essa agonia
me acompanha
como uma sombra
que aprendeu
meu nome.
Às vezes penso
que já caí
há muito tempo
e isso aqui
é só a queda
demorando
a terminar.
Ainda respiro.
Um fôlego curto
arranhando o peito.
Talvez seja o último
antes do impacto.
Ou talvez
seja o suficiente
pra me virar
e dar um passo
pra trás.
- João Serenário
Continuar lendo
O que escapa.
Não persigo.
Quando cai,
permanece no chão.
Importa o que fica.
Meu passo, o silêncio,
meu pulso.
Não existe mais
aquela sensação.
Só peças que
não se encaixam.
Ferrugem no ouvido
desgaste gratuito.
Se chove, eu costumo atravessar.
Não peço teto.
Não meço excesso.
Quando o sol castiga,
não importa o quanto queime.
Suporto.
Se desmorona,
aprecio a queda do que
não me compõe.
Nada disso me lança
para fora de mim.
Tudo se junta.
Se torna vento.
E mesmo quando está
forte
e violento.
Não me move.
- João Serenário
Continuar lendo
Se hoje fosse o último
não precisaria de sol.
Só um céu pesado
desabando devagar.
Eu não faria um lista.
Não ligaria pra ninguém.
O mundo, de certa forma —
sempre acabou
um pouco
dentro de mim.
Eu te procuraria —
não por amor.
Por urgência.
Tocaria teus lábios com os meus,
como um beija-flor
coleta o néctar da flora.
Sem promessas.
Sem futuro.
Só impacto.
Contato.
Se é o fim,
não quero redenção.
Quero saber
se ainda posso sentir.
Quero o excesso.
O erro.
O pulso descompassado.
Cru.
Eu nunca soube
viver devagar.
Sempre em fuga.
Sempre correndo de algo,
mas eu sempre estive por aqui.
Talvez o mundo não acabe.
Talvez seja só eu
de novo
em colapso.
Mas se for o último dia —
não me peça calma.
Passei tempo demais
fugindo
em silêncio.
- João Serenário
Continuar lendo
Falo de amor
e me vem culpa.
Ressentimento.
Nada tem cor.
Penso se,
mesmo com você perto,
eu respiraria
ou continuaria coberto de areia —
sozinho,
com sede,
no mesmo deserto.
Sigo no mesmo caminho.
Amor e ódio
nas mesmas linhas brancas
em cima da mesa.
E eu insistindo
em péssimas escolhas.
Procuro cura
como quem cava o próprio chão.
No espelho,
o homem que me deve.
Cobro agora
ou deixo que o tempo
o leve?
Enquanto ele fica,
eu te olho de longe.
Imagino que te ter
por um segundo
seria como abraçar
uma galáxia inteira.
Mas continuo imóvel.
Quase monge.
Sei que as preces
não serão atendidas.
E ainda assim,
quando teu nome ou tua imagem me vem —
não dói.
- João Serenário
Continuar lendo