Ouvi por aí, que notará
este verso pálido. Na pele
marca a minha cansada
oratória de descaso,
ando muito cansado e
tudo vive tão escasso,
que já não sei mais que silêncio desfaço.
Ouvirá um resto de culpa
na minha boca reprimida,
depois, irei murmurar haicais
feito um rato morto no
chão sujo de banheiro público.
E assim sigo sendo escravo do puro,
mas também do engano.
Ou pior. O puro ser
apenas a palavra
que ainda não conheço.
Que coisa triste é a palavra,
não me salvou de coisa alguma.
Disse o que pôde dizer
e, depois, calou-se para mim.
A palavra não fez nada
senão matar-me.
A memória não fez nada,
senão matar-me.
Não há nada em mim
que não seja pela metade.
Metade do que digo é verdadeiro,
e a outra metade morre em segredo.
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Meus olhos tristonhos
hoje cantam chorinhos
de desalento. Chovem uma
chuva à toa, miúda, miudinha,
chuviscos de canela
ao sol do meio-dia,
e este sol
lambe as ruas,
e seca, devagarinho,
as vielas de meu coração.
Meus olhos tristonhos
hão de molhar meus
sonhos. E glorificar
minhas fantasias. Bate tanto
o meu peito numa rua vazia,
tão rente à minha boca,
que só alguma paixão —
ou coisa mais profunda —
poderia preencher
aquele vão momento
naquele céu cinzento.
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Quisera ficar refém de teus ritos
embora, nalgum lugar, eu aprendesse
a navegar em outras marés
sem medir destinos.
Ainda mais do que a água de
concha breve em certas bocas.
E ainda que chamasses
pelo nome que
me espera, e parta.
Seria inútil. Há ritos que regressam
antes mesmo de findarem.
Mas,
nem mar,
nem vento,
brisa ou vendaval
poderia tornar meu pranto
um tanto quanto esperançoso.
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A cavidade do céu tornou-se minha alcova,
fina morada de areia prateada,
sou vago à memória, à zombaria viciosa,
reveste-se aos monte ferrosos
à esperança que constrói teu
rio montante. São as águas caminhantes,
dispersas na praia,
o vento levando tudo
tudo de culto ao meu
campo imenso de prazer.
Meu rosto era puro metal desleixado
deixado ao acaso e
preso em infinitos desamparos,
é pura lágrima salgada
largada no lábio enrugado.
E que este coração de palhaço enferrujado
alimente o teu gesto de saudade-fria
e modele tua voz no canto ecoante,
no verbo não dito.
E quando este metal enfim se desfizer
nas areias de um mundo sem memória,
quando eu for apenas pó de metal e maré,
ainda será a tua voz
que encontrarão em mim.
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Teus lábios eram mesmo água,
e eu, buscando tua fonte,
morrendo de sede e
fome — embebedei-me por completo —
afundando na corrente morna
de teus silêncios — enxuto de ti.
Então teu riso é como febre
roendo a superfície do sol,
embaraçando a bússola do peito,
ardendo lento
feito sombra sem sol,
feito água sem leito.
E embora te dissesse
o quão meu peito teu
sorriso incandesce. Faltam-me palavras para dizer
por que te clamo amor — quando és incêndio.
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Mil flores irão florir,
e aqui iremos ruir.
Depois, surgirão fungos
entre meus ossos e
lírios hão de reflorir
sob vossa cabeça.
Depois, a chuva vai cair,
ao fundo algo irá rugir,
despencar e me deixar,
me calar e purificar.
E quando a poça se romper
na passagem do tempo,
neste breve suspiro e
neste breu momento.
Serás ode, fulgor, de puro contentamento.
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Agora sou estes versos amargos
que, serão tristes, como se a
saudade-maldosa pudesse
tê-la preservado num canto
concebido à minha fúria.
E minha alma ferir tanto
tanto quanto a tristeza
de bruma fria
nalgum lago
onde perdido repousa
o meu lirismo vadio.
O poema
era desajeitado,
tão poente, e tão desalmado.
Que não convém
ser doloroso ao ato,
nem ao pranto, ser tão escasso.
Então leio, mas deixo ser
ao acaso. Fui do verso, logo-logo
serei um tanto perverso. Pois
tristes estarão os poetas,
tristes de não haver mais jeito.
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Esse calor em mim é tão mortal
ao engrossar do ar.
“Levanta-te!”, dizes — pois
a desesperança te rouba o amarelo,
e morrer é apenas descansar
longe do teu abraço febril.
E se há alguma virtude
em mim, não é ser paciente. Ou talvez
ser passional. É ser consciente de
não ter teu calor tão sazonal.
Dirás ao teu luar desatento,
— serei um tanto atento —
e eu lhe clamarei
“Ora, pois me tenhas.”
Se há alguma paciência
pairando no toque frio,
na palidez da pele,
no murmúrio que se ergue das ondas,
então — oras — tu me tens.
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Mesmo que ancore barco meu
no cais de teu peito, e, mariscos
mordam pequenos pés solutos
que nem a areia, aos surtos, roeu.
— E desfez-se em sono tanto
quanto ode — ao pomar de
tanta espuma, viveu perto
do rio, não prometendo coisa alguma.
Era frescor de lábio indeciso,
aroma de igarapé. Noite de águas
marítimas, trazendo odor de onda fria.
Eu, tantas vezes devoto à maré,
tantas vezes debruçado ao choro
e tantas vezes nutrido de águas turvas;
Hei de lhe perguntar: quando cessarei de ser margem e passarei, enfim, a ser destino?
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Nas ruas da vila sorriso
eu lhe amei. Pelos ladrilhos da
igrejinha, eu lhe beijei, e
naquela árvore perto da cantina
vossas iniciais eu gravei.
Até tocarem os sinos,
badalando meu peito
por timidez de querer
ser só seu.
E, quando surges,
tudo em mim se acende,
como lúmen que brota
a semente de um coração
em demasiada paixão.
E, quando me abraças,
declinando a cabeça ao
meu ombro, faz com que
me sinta casa. A inundar-me
de desejo, e carícias suaves,
para amar-te de longe, mas
nem tão longe ao ponto de
duvidares de minha presença,
nem tão perto, para questionares a minha ausência.
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