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Caio Adrian

@eucaiou · desde 2019

— Filho de uma casco de tartaruga cheio de formiga Instagram: eucaiou_

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A memória não faz nada

Ouvi por aí, que notará este verso pálido. Na pele marca a minha cansada oratória de descaso, ando muito cansado e tudo vive tão escasso, que já não sei mais que silêncio desfaço. Ouvirá um resto de culpa na minha boca reprimida, depois, irei murmurar haicais feito um rato morto no chão sujo de banheiro público. E assim sigo sendo escravo do puro, mas também do engano. Ou pior. O puro ser apenas a palavra que ainda não conheço. Que coisa triste é a palavra, não me salvou de coisa alguma. Disse o que pôde dizer e, depois, calou-se para mim. A palavra não fez nada senão matar-me. A memória não fez nada, senão matar-me. Não há nada em mim que não seja pela metade. Metade do que digo é verdadeiro, e a outra metade morre em segredo.

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Céu cinzento

Meus olhos tristonhos hoje cantam chorinhos de desalento. Chovem uma chuva à toa, miúda, miudinha, chuviscos de canela ao sol do meio-dia, e este sol lambe as ruas, e seca, devagarinho, as vielas de meu coração. Meus olhos tristonhos hão de molhar meus sonhos. E glorificar minhas fantasias. Bate tanto o meu peito numa rua vazia, tão rente à minha boca, que só alguma paixão — ou coisa mais profunda — poderia preencher aquele vão momento naquele céu cinzento.

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Um tanto quanto esperançoso

Quisera ficar refém de teus ritos embora, nalgum lugar, eu aprendesse a navegar em outras marés sem medir destinos. Ainda mais do que a água de concha breve em certas bocas. E ainda que chamasses pelo nome que me espera, e parta. Seria inútil. Há ritos que regressam antes mesmo de findarem. Mas, nem mar, nem vento, brisa ou vendaval poderia tornar meu pranto um tanto quanto esperançoso.

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Palhaço de metal

A cavidade do céu tornou-se minha alcova, fina morada de areia prateada, sou vago à memória, à zombaria viciosa, reveste-se aos monte ferrosos à esperança que constrói teu rio montante. São as águas caminhantes, dispersas na praia, o vento levando tudo tudo de culto ao meu campo imenso de prazer. Meu rosto era puro metal desleixado deixado ao acaso e preso em infinitos desamparos, é pura lágrima salgada largada no lábio enrugado. E que este coração de palhaço enferrujado alimente o teu gesto de saudade-fria e modele tua voz no canto ecoante, no verbo não dito. E quando este metal enfim se desfizer nas areias de um mundo sem memória, quando eu for apenas pó de metal e maré, ainda será a tua voz que encontrarão em mim.

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Incêndio

Teus lábios eram mesmo água, e eu, buscando tua fonte, morrendo de sede e fome — embebedei-me por completo — afundando na corrente morna de teus silêncios — enxuto de ti. Então teu riso é como febre roendo a superfície do sol, embaraçando a bússola do peito, ardendo lento feito sombra sem sol, feito água sem leito. E embora te dissesse o quão meu peito teu sorriso incandesce. Faltam-me palavras para dizer por que te clamo amor — quando és incêndio.

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Puro contentamento

Mil flores irão florir, e aqui iremos ruir. Depois, surgirão fungos entre meus ossos e lírios hão de reflorir sob vossa cabeça. Depois, a chuva vai cair, ao fundo algo irá rugir, despencar e me deixar, me calar e purificar. E quando a poça se romper na passagem do tempo, neste breve suspiro e neste breu momento.  Serás ode, fulgor, de puro contentamento.

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Triste de não haver mais jeito

Agora sou estes versos amargos que, serão tristes, como se a saudade-maldosa pudesse tê-la preservado num canto concebido à minha fúria. E minha alma ferir tanto tanto quanto a tristeza de bruma fria nalgum lago onde perdido repousa o meu lirismo vadio. O poema era desajeitado, tão poente, e tão desalmado. Que não convém ser doloroso ao ato, nem ao pranto, ser tão escasso. Então leio, mas deixo ser ao acaso. Fui do verso, logo-logo serei um tanto perverso. Pois tristes estarão os poetas, tristes de não haver mais jeito.

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Teu abraço febril

Esse calor em mim é tão mortal ao engrossar do ar. “Levanta-te!”, dizes — pois a desesperança te rouba o amarelo, e morrer é apenas descansar longe do teu abraço febril. E se há alguma virtude em mim, não é ser paciente. Ou talvez ser passional. É ser consciente de não ter teu calor tão sazonal. Dirás ao teu luar desatento, — serei um tanto atento — e eu lhe clamarei “Ora, pois me tenhas.” Se há alguma paciência pairando no toque frio, na palidez da pele, no murmúrio que se ergue das ondas, então — oras — tu me tens.

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Ancore barco meu

Mesmo que ancore barco meu no cais de teu peito, e, mariscos mordam pequenos pés solutos que nem a areia, aos surtos, roeu. — E desfez-se em sono tanto quanto ode — ao pomar de tanta espuma, viveu perto do rio, não prometendo coisa alguma. Era frescor de lábio indeciso, aroma de igarapé. Noite de águas marítimas, trazendo odor de onda fria. Eu, tantas vezes devoto à maré, tantas vezes debruçado ao choro e tantas vezes nutrido de águas turvas; Hei de lhe perguntar: quando cessarei de ser margem e passarei, enfim, a ser destino?

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Distante o suficiente para durar

Nas ruas da vila sorriso eu lhe amei. Pelos ladrilhos da igrejinha, eu lhe beijei, e naquela árvore perto da cantina vossas iniciais eu gravei. Até tocarem os sinos, badalando meu peito por timidez de querer ser só seu. E, quando surges, tudo em mim se acende, como lúmen que brota a semente de um coração em demasiada paixão. E, quando me abraças, declinando a cabeça ao meu ombro, faz com que me sinta casa. A inundar-me de desejo, e carícias suaves, para amar-te de longe, mas nem tão longe ao ponto de duvidares de minha presença, nem tão perto, para questionares a minha ausência.

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