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Ana

@brazi · desde 2026

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Humanidade

Fome amiga, bolso vazio pai (Rato)

Ultimamente, notei diversos machucados ao longo do meu corpo. As pessoas têm me ferido com seus sorrisos debochados e, em seguida, com seus rostos de desdém. Soltam risadas quando me olham, desviando os olhos das minhas dores, mas observam minha barriga vazia, meu sangue impuro e meus órgãos sujos. Têm me olhado de cima a baixo, envenenando-me para que eu esteja cada vez mais longe de suas vidas caras. Tenho andado embriagada, doando todo o meu dinheiro na intenção de que, sem ele, eu ficaria limpa. Agora me encontro desapegada, abraçada à fome amiga e ao bolso vazio pai. Tenho visto todos os meus sonhos desistirem de mim, como se eu já não tivesse esperança, igual aos senhores que chegaram à idade de desistir. Tenho me encontrado na podridão, metamorfoseando-me em rato, como se essa fosse minha verdadeira face. E fico envergonhada de tudo, escondendo os olhos, inclusive disso; por isso, confesso às escondidas.

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Poesia

Como déjà vu

Ele se veste, colocando uma capa por cima da sua vergonha desavergonhada. Agindo como algo rotineiro, aparentando não ter moral. Fala tão confiante, salvando-nos, como se não fosse o perigo. Mas o cheiro... ah, isso não engana. Eu, hipócrita que o vejo como espelho, conheço tão bem os males que comete, como se fossem meus. O som de moedas encaixa, ao meio da madrugada, uma dor tenebrosa que me leva para o som das notas de um ano que recordo que acontecera amanhã. O amor, como se não houvesse lembranças, parece não existir; destrói. Diz, em tom de ameaça, que a morte é o cenário ideal pra mim.

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Amor

Bicho de leão

Oras, se fosse bicho, oras, se fosse leão. Terias medo de mim se eu fosse monstro? Como aquele que te assombrou em uma quinta-feira de agosto. Ou melhor: se eu fosse bicho, o mais horroroso? Como se eu fosse leoa, mas tímida no almoço. Se eu fosse ríspida e tivesse língua presa, poderias você ser a minha presa? E se houvesse em mim medo e dentes de morcego, permitirias que eu tivesse o teu beijo?

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Poesia

Pássaro

​A realidade dói, não tanto quanto a mente, por isso olhei para a janela. ​Não sei o que eu procurava, mas achei: um passarinho morto no chão da rua. Esmagado, provavelmente, mas ele ainda insistia... no que ele insistia? ​Aquela janela me prendia. Eu fui escolhida para vê-lo morrer? Então olhei. Ele falava comigo, claro, só entende quem nasceu para entender. ​Eu não sei o porquê eu fiz, mas me afastei. Um tempo depois voltei à janela e ele já tinha se misturado com o ar, o concreto e o espírito da vida. ​Havia outros passarinhos ao redor, como um funeral, e eu estava presente sem ser convidada. Eles falaram entre si, questionavam-se qual seria a causa de sua morte. ​Entre todos os seus iguais, parecia que somente a intrusa sentia o luto.

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Maturidade

Colônia

Na perdição, seu vocabulário grudou em mim. Desconstruiu onde nem sabia que havia casa E quebrou o gramaticalmente correto. ​Mesmo que o ponto final estivesse em mente, Menti. Escrevi reticências. Mesmo querendo exclamar, omiti. ​Falhei com a minha ética, com a minha linguística. Escrevi errado todas as vezes Que coloquei você como regra do meu idioma. ​Me vi sendo colônia, explorada, Implorando por independência.

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Morte

Decompor d'alma (Pragas)

​Foi na morte onde finalmente me senti pertencente, um encontro como almas gêmeas nunca teriam. ​Pela primeira vez meu corpo foi tocado. Todas as pragas despedaçavam cada parte do meu corpo — e em vez de dor, senti amor — não seria isso amar? ​O prazer, com a terra que me corroía, cada mordida era um suspiro da minha alma. ​Me misturei com a terra; nos tornamos um só. Não só a nutri, mas ela me nutriu, o que em vida sempre mostrou escassez.

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Drama

Ida (marca)

Vale muito mais a dor de te prender, do que deixar-te livre para conhecer a morte. ​Ao lavar as mãos após tocar o seu corpo, era como se eu estivesse dando passos para longe de ti, o primeiro passo para viver. ​Eu não conseguia ver nada; meus olhos estavam cheios d'água. Pegar seu corpo e colocá-lo em meus braços mexia com os meus pulmões, fazendo cada respiração parecer uma batalha enquanto eu chorava. ​Meu toque sentia sua consciência indo, seus órgãos aos poucos se desligando, mesmo que seus olhos entregassem a memória de si para mim e assinassem a minha alma de certa forma.

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