Desintegrando através das preocupações,
dos princípios, dos minutos, dos segundos.
Enfastiei-me do novo, das dúvidas,
das perguntas, das sugestões.
Talvez não tanto do gosto da 88.
Me sentei à tarde no tapete, num canto,
em destroços, como imaginado,
sugada por um espírito
que sequer cumpriu sua parte do acordo.
Se faz tanto caso,
que se farte, então, da minha pele negra, maldito.
Recebi o abraço de uma colega caridosa,
mas o consolo dela não me alcança,
embora seja sincero.
É incômodo, indigesto, dispensável.
Sangrando no banheiro, até a última gota,
após duvidar se ainda restava algo em mim,
as vozes do acaso dizem: é destrutiva,
uma bomba-relógio cumprindo seu papel.
Saiba que, se um dia leres isto, meu cãozinho,
te digo: hoje você sangra como eu,
pois demorou muito decidindo
se iria ou não partir.
Partiu de mim — e sinto tanta inveja disso.
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Se a ti me apego, que o decesso te chame;
se não me fendes, serias meu íntimo amuleto torpe e vil.
E quando eu disser: “te adoro” ou “te desejo”,
teme o espectro que em mim desperta em beijo.
Capacho do meu sonho alucinado,
sem fundo de sanidade ou limites,
por fora um mimo, por dentro envenenado;
Igual a mim — tétrico e incongruente —,
em beijos quentes te dou minha agonia.
Perseguirei em passos hipócritas,
vigiarei, como Leather Apron;
Desejo por ti — egoísta e faminto —,
agradece o meu vício que te quer distinto.
Contente-se que eu te abra em carne viva e beba teu sangue em haustos vorazes,
pois assim forjo meus sonhos no teu padecer e marco em ti o meu domínio.
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Estive por muito tempo com alguém indesejado,
fiz do mais baixo nível o meu exemplar.
Graças a eles, tenho meu preconceito serrado.
Existe, sim, pluralidade de afeto,
mas vivo numa pluralidade em um buraco de merda;
então, este querer já não é mais o meu caso.
Tantas pessoas semelhantes, mesmo distintas,
algumas tão inteligentes, enigmáticas.
Uma sabe inglês, outra reside em Hamburgo,
um torce por um time alemão da Bundesliga,
um iniciando sua graduação em Sociologia,
outra, bruxa dos cabelos negros de São Paulo.
Criei um desencanto tão grande pelas condições desta existência,
que até o desejo pelas pessoas parece uma língua
que desaprendi sem perceber.
Todos que tentam entrar na minha vida já estão percorrendo pela saída.
Estou fadada a enjoar de todos que desejarem entrar na minha vida,
porque, em mim, o interesse chega sem fome.
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Atrairia amigos iguais a mim,
se não fosse, afinal,
criatura tão detestável.
Amarga e odienta — bem sei o que se passa nos recônditos de minha mente.
Não nutro afeição por bebês, tampouco por crianças.
Aborrecem-me os simplistas que de mim se agradam.
Dos homens, prefiro não relembrar meu ode especial
Inclino-me às mulheres inteligentes e castas,
ainda que, por vezes, se revelem insensíveis e enfermas.
Meu martírio não conhece termo, e com ele caminho em falsa amenidade.
Se me fosse dado eleger quem de mim gostasse,
escolheria aquele dos cabelos dourados.
Ocultaria suas vergonhas e dizeres torpes,
bem como sua maneira falha de nomear os outros.
Atrairia amigos iguais a mim,
se não fosse, afinal,
criatura tão detestável.
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Fico só, deveras em paz.
Nunca leve — contudo, em paz.
Parece-me, porém, que tal serenidade me atrapalha,
tolhendo-me o entendimento da urgência de agir
É algo quase depreciativo,
como uma casa erma no campo,
acesa por dentro sem motivo,
ou tão reativa quanto cães magros e melancólicos
à beira de um terreiro abandonado.
Que poderia muito bem sei, não ser.
Creio já não ser possível possuir paz nestes tempos;
estar tranquila é talvez o nome mais próximo
que ainda se pode dar ao sossego —
ao menos um modo significativamente otimista
de consolar a existência.
Sossego também critico, pois vejo-os na miséria.
Trago inúmeras abas abertas no espírito,
quais janelas de uma fazenda varrida pelo vento,
por onde entram e saem coisas sem nome.
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Aceitei: as pessoas são entediantes.
Não por serem panfletos —
mas porque esperei que fossem literárias.
Hoje acordo só, vivo só,
num quarto fechado,
convivendo com a tortura da minha mente.
Sou tão estragada quanto um ovo pobre.
Convivo com o cheiro,
mas não sou gosto dessa surpresa.
Estudo o que gosto
e o que não gosto.
E, no que não gosto,
insisto
até aprender a gostar.
Disciplina é uma forma de esquecer a existência,
enquanto acredito que, no esforço,
construirei uma melhor.
Me arrependo
quando falo demais —
como se explicar
fosse sempre
um desperdício de odorizador.
Fede.
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Sou outra mulher ligada a arte,
amargurada poeta, finada desenhista — até crítica amadora.
Mas carrego paixões pelas ambições: Análises, Definições rigorosas, deduções lógicas, o inevitável da Matemática.
Conhecida como regime ditatorial;
Imersa da rotina, Unicamente hoje, senti-me desprotegida
Mas não detestei que isso de mim saiu.
Afastei-me de todos no final do ciclo democrático.
Relações saudáveis, às vezes fortes,
que duravam através do interesse mútuo.
Eu poderia iniciar um novo ciclo com elas,
mas significando alguém para mim — ou não.
Ainda assim, eu as obriguei a ir.
Desprezo atenção masculina; das femininas, eu temo.
Não entendo que intensidade de amor posso dar,
beirando a obsessão de interesses não correspondidos.
Tenho medo que me aceitem;
ando à sombra da rejeição que eu mesma planejei.
Tenho tanto desinteresse por todos,
mas hoje senti falta do ninguém que poderia ser
mais que alguém para mim.
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Tentando me manter como não estou,
não sei mais se o que se diz ainda é verdade.
A continuidade não habita lugar algum:
nem na preservação da vida,
nem no acolhimento da morte.
Perdi a criatividade da escrita.
Talvez o pejo tenha ultrapassado limites,
ou a indiferença que tenho por todos
tenha se aproveitado bem de mim.
Não aceito minha limitação intelectual,
mas encontro estranha graça
nesse rançoso “olhar de fora para dentro”.
Odeio-me porque faço parte
de tudo o que me rodeia:
do amálgama, reciclado, (...) e
defasado.
Tenho pensamentos tão maldosos
quanto a culpa de ser,
o que me trava.
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Seus olhos ardiam, sem ponto fixo.
Na verdade, estavam recaídos, angustiados,
como se já estivessem muito além dali.
Mas ousou dizer — como se previsse meus juízos —
que não possuía tamanha aptidão.
Nunca sentira o que agora sentia.
Acreditava restar-lhe apenas algumas gotas de vaidade
mas um atentado contra ela jamais fora cogitado.
Ao refletir sobre isso, repetiu que nada a retinha,
embora nada lhe bastasse —
mesmo que estivesse ali pela
"tosca diplomacia médica forjada na simpatia culposa."
Sentia que seria mais útil
reencarnando em sustento para os abrigados pela IFAW
do que sentar-se outra vez na poltrona
e sentir, vagarosamente,
as narinas se asfixiarem por dores antigas —
não pelas causas, mas pelas marcas.
Falava mostrando sua pele jovem, sem manchas.
Registro Clínico nº 24 – assinado às 17h42.
Mantém-se a integridade cognitiva,
mas há desconexão afetiva e perda de investimento na própria existência.
Lembrete: Mais tarde, servirão chá.
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A obscuridade sussurra meu nome,
e o mundo despeja sobre mim
um balde de merda fervente.
Por quê? Por quê? Por quê?
Brado com a boca maculada.
Silêncio era meu troco desejado,
mas meus tímpanos rebentam
em grunhidos e espasmos,
zumbidos finos como agulhas
que não consigo ouvir.
No horizonte ártico penso:
a felicidade seria ter
um urso polar dividindo-me ao meio.
Anseio tormento e, ainda assim,
um fim mais célere.
Raiva e piedade.
Que seja assim, um mingau de vísceras
para o labutar da barriga,
para que depois, no antro do quarto,
eu me contorça pedindo piedade
de um farsante deus.
Ter alguém ou não é irrelevante,
se nem ao menos desejo me ver.
A repugnância me trepa como carrapato,
desliza vagarosamente pela pele
e se aninha atrás das orelhas.
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