Foto de Ulisses Araujo

Ulisses Araujo

@Ulisses_Araujo · desde 2020

"De pedaço em pedaço é que se faz ternura" - José de Vasconcelos

13 poemas 30 seguidores 28 seguindo

Seguir

Poema simples

Uns morrem na gerra; Uns morrem no amor; Uns morrem na fome; Uns até de gripe morrem; Pobre poema que sou, morri por morrer. Do jeito que vim, fui. Do nada nasci, por nada morri.

Porto Triste

Cai estrela pequena Tingi meu porto triste. Amena o porto taciturno Que só existe por existir. Ilumina o cais sem embarcações. Arde o fogo que nele já queimou Outrora morada de canções e paixões; Que com ação dos tempos enferrujou. Desfaz a merencória sombra; Que esconde as poças de minha memória Os gritos, a fumaça, os cigarros, as lombras, O apito, o suor dos tripulantes, olhares estrangeiros, abraços inzoneiros, os ferry- boates! Desfaz o ar penoso que já merço Tira do Porto sua solitude. Volte sua alegria de tempos atrás E que o agora, amanhã jaz, assim te peço.

Continuar lendo

Zé e Antonieta

Cena I ( Era um final de tardinha em uma pequena cidade no interior no Amazonas) Pedro Onde vais Zezinho? Zé Vou a sacada Apanhar uma goiaba. Pedro Leva contigo a lata; Enche com água. Cuidado lá encima Tua mãe me mata. (Zé sobe a sacada com a lata; pula por uma goiabeira, e desce ao chão.) Cena II (Antonieta está sentada em um tronco caído sobre a água; seus dedos dos pés tocam de leve na fria água corrente. Zé dá um susto em Antonieta.) Antonieta Nem te vi chegando! Veio nadando? Zé Nem pensar, Não posso me molhar; Mamãe me mataria. Antonieta Está exagerando Eles não te fariam nada Que mal faria a água? Zé Não é a água; Se eu ficar molhado Acabo resfriado... Antonieta Sei... E se te pegam agora? De noite, mata a fora... Zé Nem fale Disse que ia apanhar goiaba; Aquele velho caiu na minha bacaba. (Zé e Antonieta estão sentados no tronco.) Antonieta Olha como é gelada; Os peixes sentem frio? Zé Sentem, é claro. Olha o olho assustado; Tá congelado o coitado. Antonieta Seria bom agora nadar, Como tá quente... Nadar contra a gelada água corrente... Seria bom. (Zé tira a camisa e pula na água. Em meio a solitária noite, era possível ouvir gritos e risadas.) Cena III (Zé e Antonieta caminhavam de mãos dadas por uma trilha, até chegar a uma rua de areia.) Zé Estar entregue. Molhaste todo teu vestido, Mas foi bem divertido! Antonieta Foi mesmo; Vai dormi, já é hora; Te vejo amanhã na escola. (Zé foi para casa feliz de tê brincado com Antonieta - e preocupado pelas roupas molhadas. - A noite jazida de estrelas lhe dava muita alegria. Olhando para o céu, Zé admirava aquele lindo oceano estrelado. Ele estava feliz. A Sensação mais almejada pelo homem. A felicidade.)

Continuar lendo
Vida

Marinheiro

O pouco que tinha, já me foi tirado. Agora, me resta o que tem: a lembrança. Cintila na criança, que tu era; a mais bela. Já se foi; fragata posta ao vento; Vai, trava tuas guerras; Suspende tuas velas, degusta teu relento. Cria teu oceano, desfruta tua indolência; Reparta as águas - outrora dos teus olhos; E finja; não diga que chora. Perpétua tua voz no ermo azulado; Ata o teu estorvo a corda, e o jogue no mar; Pois o vento é Judas, não só te faz, como nas rochas, te põe a levar.

Continuar lendo
Vida

Nas cidades

No caminho de casa Vejo os fios da idade. A idade das casas; Das brasas, escondidas na cidade. No caminho de casa Vejo o céu taciturno; As pinturas nos muros; O som noturno dos grilos. No caminho de casa Vejo a pobreza; As moradias esquecidas; A calçada sem beleza; no sorriso, as iguarias. No caminho de casa Vejo o sol se recolhendo; No frio horizonte de quase nada; Vejo, e estou dizendo, relatando de minha sacada.

Continuar lendo

Ave

Olha como voa, Já desejei ser como ela; Voando assim atoa. Tem sua direção, Mas o vento é insensível; A joga a contra mão. Tão singela e delicada, Pobre ave, um pontinho no oceano; Em suas derivas vaga sem morada. Encosta no sol do meio dia, No fio, no jambeiro, na ponte... Se ajeita, enche o peito e entoa sua melodia. Melodia distante, que se sente; Nos deprimentes subúrbios, Consola a pobre gente. Óh Deus, só queria ser igual a ela; Mesmo pequena em relação a tudo, Encara a curta vida de maneira bela.

Continuar lendo

No rio

Lá vem canoa; Já vem na proa A índia moça. Já vem tardio; Com a mão no riu, A índia moça. A folhagem desvia; Um som assobia, A índia moça. Deixa só banzeiro; No calar arteiro, A índia moça. Já vai canoa, Dentre a lagoa, A índia moça.

Continuar lendo
Humanidade

Culpa dos sonhos

Somos os sonhos; Sonhos sem donos; Donos dos tombos; Tombos dos tangos. Tangos de anos; Anos humanos; Humanos sem planos; Os Planos erramos. Erramos os tantos; Tanto pecamos; Pecamos nos cantos; Nos cantos andamos. Andamos e andamos; Achando os pontos; Os Pontos achamos. Achamos os donos: Espera... Os donos não somos... Confuso ficamos.

Continuar lendo
Amor

Para tu, amada mãe

Que bondade a sua, Na minha mão vive segurando; E com essa beleza que é só tua, Vive me inspirando; Não qualquer inspiração, É inspiração de viver; Viver a vida a razão: De amar sem um porquê; Não precisa dizer nada, Seu olhos dizem mais; Suas lembranças rabiscadas, Me transformam e me dão paz; Se o vento te levar de verdade, Quero que saiba com confiança: Te amo agora e a eternidade, Sem você, sou só uma criança;

Continuar lendo
Ternura

Ternura

Sintas o bater da brisa, Nos ilude com capricho! De que resta prazer na vida, Em meio a tanto lixo. Mas assisto sua alusão; Compara as duas crianças; A primeira sem razão, A segunda a esperança. Ah, se tivesse esse dom, Do bem e da utopia; Daria a vida a mão, E o resto ignoraria; No final, porém, Acabo em minha amargura; De lado e sem mais quem, Pouco a pouco volto a minha ternura.

Continuar lendo