*Coletânea: O último adeus
farol
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bela
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desvalido
guardião
aquarela
livres
oitavo
Nota: última coletânea de poemas. Entro num hiato por tempo indefinido para focar em outros tipos de escrita.
Início: 05/01/2023
Fim: 15/01/2026
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A fraca luz de um farol distante,
Persevera resoluta no horizonte.
Atravessa guerras e conflitos.
Supera trevas, por oceanos esquecidos.
Ventos gélidos condenam pássaros,
Quatorze mitos fogem do belo retrato.
Abandonando ritos no vácuo,
Despedem-se da dama, dos seus belos astros.
Resta, enfim, a última dúvida.
Do que é feita a palavra soturna?
Fui feita de fé, amor e dúvidas.
Fui cor, mitos, amargura.
Fui inseto. Fui estrela.
Fui carta: o baralho da realeza.
Enfim, fui poesia.
Resta, enfim, a última dúvida.
Do que é feita a palavra soturna?
Fui feito de morte, descoberta.
Fui paisagem, brasa incerta.
Fui tempestade teatral.
Fui música: a poesia primordial.
Porém, poderia ter sido mais.
A jovem esperando a amante.
O idoso vendedor ambulante.
Uma artista, um cronista por doses.
Um cínico, morto pela tuberculose.
Uma canção, um filme brasileiro.
Um sorriso, um aviso, um conceito.
Resta, enfim, a última dúvida.
Do que é feita a palavra soturna?
Devo descartar a eloquência:
De que seria, senão minha essência?
Eu, que sou o poeta que inventou a escrita.
Eu, que sou a sedenta poetisa.
Eu, que com palavras torno-me tudo.
Exceto Deus, o Criador do mundo.
Delírio de Netuno, em seu exílio.
-Nora H.
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Eu tinha um passarinho,
Pequeno, azul e tímido.
Dava-lhe de comer, dava-lhe um ninho.
Dava-lhe de beber, dava-lhe carinho.
Eu amava meu amigo,
Mas meu amor não era recíproco.
Um dia, comprei um presente,
Um aparelho que dava comida;
Conforme a fome crescente.
Conforme o desconforto evidente.
Nunca mais meu querido pássaro,
Deu a mim um olhar, um chiado.
Desconsolado, abri sua porta.
E o passarinho voou.
Eu tive outro passarinho,
Falatório, aconchegante e lindo.
Coloquei joias e luas ao seu redor.
Coloquei outros, para não ficar só.
Nunca mais olhou para mim,
Então lhe permiti o mesmo fim.
E tive outro e outro e outro.
Tantos, tantos passarinhos.
Ó, solitário coração teimoso.
Por que insiste nesse aviário?
Não basta a presença dos pulmões;
Para lhe servir como telhado?
Continuará a se afastar do farol,
Coletando desprezo com seu anzol?
Saia debaixo desse granizo,
Proteja-se da surda ventania.
Não lute, coração aflito,
Não busque mais companhia.
Resta apenas gelo e trevas;
No local onde procuras penas e pétalas.
Portanto, a gaiola enferrujou,
Enfim, a janela se fechou.
Despedida de Urano, senhor dos céus.
-Nora H.
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Como a água no meio do Sertão,
Que existiu e logo se desfez .
Uma calorosa profundidade;
É escondida pela soturna timidez.
Muitos que param diante de ti,
Elogiam os traços do artista;
Intrínsecos nos anéis, nos seus dedos.
Aqueles que ouvem de ti,
Escutam um sussurro no vento,
Discutem a impressão do momento.
Dama de outros séculos,
Em sua eterna pose gentil.
Quem dera a noite fosse tão bela,
Quanto o vestido que te cobriu.
A boca desejou olhos,
O ouvido buscou sentir.
A Arte, de si senhora,
Ansiou por te servir.
Pintora de olhos âmbar,
Cujo outono a ti definiu.
Quem dera as sombras fossem sinceras,
Como a luz que de ti reluziu.
"Sol pintando Saturno", óleo sobre tela.
-Nora H.
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Lembro-me de quando era pequena:
Os nossos passeios,
Nossas brincadeiras,
De mim, protegendo-te da noite.
Lembro-me de quando me assistia:
Um olho na lente,
Da Mancha na frente,
Seu sorriso, meu olho de botão.
Lembro-me de quando tu sumistes:
Sua mente em donzelas,
Provas e tabelas.
A uma caixa sua mamãe me trouxe.
Lembro-me de sua felicidade:
Quando me encontrou,
Como até chorou,
Ao ver o quão pequeno me tornei,
Como desbotei,
Quando só fiquei,
Em linhas desfiz meu coração.
Memórias de Júpiter, outrora suprimido.
-Nora H.
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Até quando, ó Altíssimo?
Deixará os frutos de árvores más;
Elevarem seus troncos contra a terra,
Afogarem os filhos da água,
Misturando madeira, linha e pedra?
Permitirá aos soberbos polinizadores;
Renegarem o vento, as aves.
Desprezarem os insetos, os céus.
Para eles espalharem suas sementes como fel?
Até quando, ó Altíssimo?
O Sol será dominado por eles,
Estendido em seus pequenos ramos?
O mar será terra para seus pés,
Forçosamente da Lua separado, chorando?
O vento, que vem e vai,
Será preso por seus encantos?
Até a chuva, que apenas cai,
Tenta escapar de seus espinhos se elevando!
Até quando, ó Altíssimo?
Terei que ver os grandes animais;
Correrem, pularem e sucumbirem?
Terei que ver as terras sangrarem;
Sempre que muitos deles se unirem?
Terei que ver meus frutos serem roubados,
Afastados de mim como se fugissem?
Terei que ver os frutos da terra tirados,
Serem queimados, moldados e se fundirem?
Até quando, ó Altíssimo?
Eles ficarão satisfeitos;
De mais ídolos terem feito?
De pescar e caçar e plantar;
Até só eles restarem inteiros?
Ah, eu sei até quando, ó Altíssimo.
Será até o Medo e o Pânico tomarem conta,
Será até a Lua estar pronta,
Será até minha raiz cansar da afronta,
E a deles se tornar tonta.
Será até meus frutos explodirem;
Como vulcões sem superfície.
Será quando minhas folhas caírem,
Naqueles que a terra poluírem.
Pois o meu tronco irão cortar,
Estes que cortam e queimam e matam.
O meu solo irão profanar,
Aqueles que jamais sangram.
Então, o Altíssimo irá vingar;
A Criação, o mártir que difamam.
Túmulo de Marte, em sua eterna guerra.
-Nora H.
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Escutem meu chamado, pequeninos.
Ouçam, crianças de olhos brancos.
Vejam como estou cansada,
Observem, como não valho uma prata!
Há sujeira e barro em minhas janelas,
Há mofo preso em meus bancos.
Perdi a tinta de meu rosto,
Lamentei vossa falta de esforço!
Não as levarei mais por minhas terras,
Porquanto vós sois crescidas.
Vossos olhos já não brilham,
Nossas conversas perderam suas rimas.
Mas, ainda há esperança, ó crianças.
Minhas aves ainda voam.
Minhas águas ainda fluem.
Ouçam, pois meu olhar ainda não é negrume.
Petição de Terra, a mãe esquecida.
-Nora H.
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Ó, grades tão limpas da ferrugem;
Caiam da terra a qual não pertencem!
Ó, mentes que não se punem;
Tornem seus brilhantes em dementes!
Sabedoria que fluía de livros;
Como nuvens pelo céu.
O futuro, antigos amigos,
Refletia de um tom pastel.
Ah! Quem me permitiu adentrar;
Os portões de minha perdição?
Vejo meu sangue já a pingar;
Nas ruas que cantavam salvação!
E prédios, salas, um dia brilhantes ;
Borbulhavam de estudantes.
Tal era o ar, nunca escuro,
De carbono ele era puro.
Ó, línguas que falavam "Amada" ;
Percam seu entendimento!
Ó, olhos buscando uma Alvorada;
Sintam o calor de Vênus!
Lástima da estrela da manhã.
-Nora H.
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Mergulhada em suas palavras
Cumprimento a longa noite,
Rio da fragilidade do tempo.
Em angústia, envio cartas
Convoco os sábios do céu
Maldigo as vozes amargas
As que fazem meu trono de réu.
Aos poucos, os astros chegam
Às vezes, constelações inteiras;
Às vezes, os que não se perderam—
Acessas são as fogueiras.
E histórias são contadas,
E conselhos são entregues,
E assim, as vozes padecem
Enquanto as chamas são contempladas.
Então, em alívio saio.
Mas os astros permanecem,
Pois eles são diamantes
Que caem numa chuva de verão.
Mergulho em profundos sonhos
Cumprimento a vazia cama
Rio, lembrando do pequeno Mercúrio.
Humano, grotesco.
-Nora H.
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Sem perceber, você não está mais em casa
Ouvindo vozes de fora do teu quarto
Lembrando de um sono que foi perdido?
Onde pássaros cantavam;
No começo da calma manhã,
Nuvens serenas passavam;
Acima de reunidas famílias.
Às sombras do alto portão,
Há cômodos que são misturados.
Há latidos abafados;
Onde campos-ruas se juntarão.
Padece o velho lugar,
Mas se constrói o novo pantanal;
Onde o ar cheira a incenso,
Onde intenso café cheira meu paladar.
Se só o sangue segue sem se sustentar
Onde mais, ó ouvinte, obterás motivo?
Logo, alenta estarás tua limitada lápide!
Sozinho, o luzeiro apaga reis.
-Nora H.
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