Não era tristeza.
Demorei para entender.
Eu chorava
e procurava uma perda,
um nome,
um adeus,
qualquer explicação digna
para justificar a água nos olhos.
Mas não havia ninguém.
Era eu.
Eu diante de mim mesmo,
como quem finalmente encontra
um estranho conhecido
sentado no escuro.
E tive pena.
Pena do homem
que aprendeu a continuar
antes de aprender a descansar.
Do homem que ofereceu colo
quando também queria um.
Que chamou de força
o hábito de não pedir ajuda.
Tive pena das vezes
em que transformei ausência em espera,
espera em esperança,
esperança em culpa
e culpa em silêncio.
Pena das coisas que perdi
e, principalmente,
das coisas que quase tive.
Das versões de mim
que morreram sem funeral,
dos futuros que imaginei
e nunca chegaram a nascer.
Chorei por aquele homem
que amou como quem aposta tudo
mesmo sabendo
que poderia perder.
Chorei pelo homem
que confundiu pertencimento
com ser escolhido.
Que passou tanto tempo
querendo ser casa para alguém
sem perceber
que também morava em ruínas.
E talvez seja isso
que minhas lágrimas sabem
e eu ainda não sabia dizer:
não estou chorando porque minha vida acabou.
Estou chorando
porque finalmente percebi
o quanto de mim
eu abandonei
enquanto tentava não abandonar ninguém.
Por alguns minutos,
eu não fui forte.
Não fui racional.
Não fui o homem que resolve.
Não fui aquele que aconselha,
que protege,
que permanece.
Fui apenas eu.
E tive pena de mim.
Não como quem pede piedade,
mas como quem olha para um sobrevivente
e, pela primeira vez,
não pergunta:
“Por que você ainda não superou?”
Apenas se senta ao lado
e diz:
“Eu sei.
Você passou por muita coisa.”
Depois seca os olhos.
Levanta.
E continua.
Porque talvez
a verdadeira cura da autopiedade
não seja parar de ter pena de si.
Talvez seja chegar ao ponto
em que você consegue olhar para si mesmo
com algum... afeto o suficiente
para não precisar mais
sentir pena.
—Lukaian Delfino NS.
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O amor é um item de luxo
neste mundo maldito.
— e eu passei a vida oferecendo o meu de graça.
Há quem tenha dinheiro para comprá-lo,
há quem tenha sorte para encontrá-lo,
e há quem passe a vida inteira
aprendendo a viver sem ele.
Eu não queria muito.
Só alguém diante de quem
eu não precisasse ser forte.
Alguém que não tratasse meu afeto
como excesso,
minha presença como obrigação,
minha entrega como algo descartável.
Talvez eu tenha nascido
num tempo em que amar demais
é ser pobre de si mesmo.
E ainda assim,
continuo querendo.
Como quem entra numa loja vazia
sabendo que não pode pagar,
mas permanece olhando a vitrine
porque, por algum motivo,
ainda acredita
que um dia
o amor estará em promoção;
Ou se eu der sorte, de graça.
— Lukaian Delfino NS.
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Às vezes me tratam com tamanha indiferença
que começo a desconfiar do espelho.
Não da imagem.
De mim.
Pergunto, em silêncio,
se há alguma falha invisível
que todos enxergam
e só eu desconheço.
Porque ninguém duvida da própria bondade
quando é escolhido.
A dúvida nasce
quando o afeto passa ao lado
como quem não reconhece um rosto.
Então faço o que todo homem cansado faz:
transformo o silêncio dos outros
num julgamento contra mim.
Talvez eu não seja bom.
Talvez exista em mim
alguma insuficiência
que o amor percebe
antes mesmo de chegar.
E, no entanto,
há uma estranha injustiça nisso.
Passei a vida perguntando
o que havia de errado comigo,
enquanto o mundo
apenas seguia seu caminho.
Talvez a indiferença
nunca tenha sido um veredito.
Talvez tenha sido apenas
a forma como o destino
distribui as ausências.
Mas confesso:
há noites em que essa diferença
já não me convence.
E volto a perguntar,
não ao mundo,
mas a mim mesmo:
se eu fosse realmente uma boa pessoa...
teria sido tão fácil passar por mim?
— Lukaian Delfino NS.
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Você é dessas que não cabem
em uma só palavra.
Forte demais pra ser calma,
doce demais pra ser só tempestade.
Tem dias em que você é incêndio —
e eu quase me queimo tentando entender.
E outros…
você é cuidado,
desses que chegam sem aviso
e bagunçam tudo que eu pensei que sabia.
Você é de enlouquecer.
Impulsiva como quem vive no agora,
mas cautelosa como quem teme o depois.
E eu, no meio disso,
sem saber se avanço
ou se aprendo a te perder antes de ter.
Para sempre…
e mais um pouco...
Que frase absurda.
Mas é assim que você ficou em mim —
exagero, intensidade,
um “mais” que não acaba.
Um pouco sinto sua falta.
Um pouco?
Mentira.
Sinto como quem tenta diminuir
o tamanho de algo
que já tomou tudo.
Então venha.
Venha, I…
Não como resposta,
não como promessa,
mas como presença.
Venha antes que esse momento
escorra pelos dedos
e vire só mais um “quase”
na minha história.— sua história; nossa história —.
Mas se não vier…
eu fico.
Fico aqui,
tentando aprender a existir
sem depender do teu retorno.
Me convencendo, aos poucos,
que nem todo amor
precisa ser vivido
para ser real.
Se anime, Lu.
Chore um pouco.
Ou chore tudo de uma vez.
— Lukaian Delfino NS.
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Meus dias sóbrios essa semama
já cabem nos dedos —
e às vezes sobram dedos.
O resto eu dissolvo
em qualquer coisa que queime
menos que o que sinto.
Não é sobre beber.
É sobre calar.
Porque quando fico sóbrio,
fico inteiro —
e inteiro, eu não aguento.
Estou cansado.
Mas não é um cansaço de corpo.
É de existir pensando.
Exausto de lembrar.
de imaginar,
de quase.
Não tê-la
me tirou do eixo
como se eu fosse feito
de uma coisa que só funciona em dois.
E agora eu ando torto,
incompleto,
meio fora de mim.
E ela…
segue.
Sai, ri, vive,
talvez nem lembre
da dimensão que ocupa em mim.
Está com outro.
E essa frase
tem um gosto metálico,
como se cada letra
cortasse um pouco.
Eu tento entender.
Chamo de carma,
de consequência,
de algum erro antigo
que voltou para cobrar.
Talvez eu mereça.
Talvez isso seja ajuste de contas
de um passado que eu nem sei mais nomear.
Ou talvez eu só esteja procurando sentido
pra uma dor
que não tem explicação.
E isso dói mais.
Porque se não tem causa,
não tem conserto.
E eu fico com essa sensação estranha
de ter perdido alguém
enquanto ainda tentava me reconstruir.
Como se eu estivesse me curando
e, no meio do processo,
alguém passasse por mim
e levasse embora
o pouco que ainda funcionava.
Mas o mais cruel…
o mais silencioso…
é saber que dessa vez
eu perdi algo que não era meu.
Eu perdi uma possibilidade.
E isso não se enterra.
Não se fecha.
Não se resolve.
Fica aberto —
como uma porta que nunca foi atravessada
mas que insiste em não se fechar.
E eu aqui,
contando dias sóbrios
como quem conta passos
pra sair de um lugar
que nem sabe mais
se quer sair.
— Lukaian Delfino NS.
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Não sei dizer se cansei
ou se finalmente senti.
Não sei se desisto
ou se só paro de me enganar.
Só sei que esperar virou
uma espécie de tortura silenciosa —
dessas que não gritam,
mas vão tirando pedaços.
Eu acordo e penso:
talvez hoje.
E durmo com o mesmo pensamento,
só que mais fraco,
mais cansado,
quase pedindo pra morrer.
Não é sobre você.
Ou talvez seja demais sobre você.
É sobre esse espaço entre nós
que nunca se preenche,
esse quase
que nunca termina de ser.
Eu fico.
Fico como quem aguarda uma sentença
que não chega,
como quem segura a respiração
esperando um sinal
que talvez nunca venha.
E no meio disso tudo
eu me perco.
Porque uma parte de mim ainda acredita —
idiota, teimosa, viva —
que você vai virar e dizer: fica.
E a outra já está indo embora,
em silêncio,
sem fazer barulho,
sem olhar pra trás,
porque sabe
que ninguém chamou.
E eu fico preso entre essas duas versões de mim,
uma que espera
e outra que desiste.
Nenhuma vence.
E o pior não é a dúvida.
É o tempo.
O tempo que passa
enquanto eu não sou escolhido.
O tempo que passa
enquanto eu ainda escolho você.
E talvez seja isso que mais dói:
Não é te perder.
É me ver ficando
num lugar
onde eu já não existo inteiro.
— Lukaian Delfino NS.
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Espero.
E na espera, sou menos do que fui
e mais do que gostaria de ser.
Há um espaço entre o envio e a resposta
onde a alma se alonga,
como se quisesse caber no pensamento do outro.
E eu, que nada sei,
invento.
Invento um “sim” que me aquece
como sol de inverno —
fraco, mas suficiente para não morrer de frio.
E invento um “não”
que me prepara para o deserto,
onde já estive antes,
onde aprendi a caminhar sem sombra.
Mas o pior não é o sim nem o não.
É este intervalo indeciso
onde tudo pode ser
e, por isso mesmo, tudo dói.
Amo — ou penso amar —
aquilo que ainda não me pertence,
como quem se apaixona por uma casa
vista apenas da calçada.
Conheço as janelas,
imagino os cômodos,
decoro até o som dos passos
que nunca dei lá dentro.
E ainda assim digo: amo.
Que palavra imprudente
para algo que talvez nem exista.
Talvez eu ame o que projeto,
talvez eu ame o que falta,
talvez eu ame o espaço
que ela ocupa em mim
Para além de tudo que ela já representa.
E, no entanto, dói.
Dói como se fosse real,
como se o coração não soubesse
distinguir presença de hipótese.
Se for “sim”,
direi que sempre soube.
Se for “não”,
direi que já esperava.
Mas agora,
neste exato ponto entre os dois,
não sei nada —
e sinto tudo.
E é isso que me cansa:
ser inteiro
numa resposta
que ainda não veio, que não vem.
—Lukaian Delfino NS .
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Há dois dias
o mundo cabe dentro
de uma tela que não se acende.
Entre silêncios
e calafrios,
a sua voz
enlouquece minha mente.
Fico imaginando
se em algum lugar do seu dia
meu nome ainda atravessa
seu pensamento
como quem passa
por uma rua antiga.
Entre o que foi dito
e o que nunca chegou a ser,
entre a esperança discreta
que talvez você não queira entender,
é difícil imaginar
o que pode
ou não pode
acontecer.
Eu,
carente
e sonhador,
E você…
tão silenciosa
que até o mistério
parece dizer menos
que o seu silêncio.
E assim permaneço:
entre a espera
e o que talvez
nunca venha.
Em meio ao resguardo
do seu silêncio,
vou me reconstruindo…
Juntando pedaços de calma
onde antes havia pressa,
aprendendo a esperar
sem me perder.
E guardo, em silêncio,
uma esperança pequena
mas teimosa —
de que um dia
o caminho do seu coração
ainda encontre
o meu.
E entenda
que todo esse silêncio
era apenas
o tempo
aprendendo
a nos aproximar.
— Lukaian Delfino NS.
Coautoria —Robson Santana. .
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Ao dormir,
sinto o Tempo sentado na minha cama.
Uma mão na minha cabeça,
a outra no meu coração.
Não consigo acordar
para mandá-lo embora.
Ele me tortura
porque é o único momento
em que o Tempo volta;
Volta para ela.
E ela
não volta
para mim.
O tempo é a entidade que eu mais temo.
Ele fica como um fantasma me rodeando,
muitas vezes torturando.
Em vez de curar,
aumenta a dor
de uma ferida
que ele mesmo
deveria curar.
E ainda assim,
diante da única pessoa que eu nomeio,
o Tempo falha.
Ele não ensina,
não leva,
não consola,
não apaga.
Ele apenas
me devolve
ao exato instante
em que amar
virou espera.
Diante de quem eu nomeio,
o Tempo perde a voz
e a autoridade.
Não consegue avançar,
não consegue apagar,
não consegue cumprir
o que sempre prometeu.
O Tempo não se desculpa.
Ele continua.
Com todos os outros,
ele passa.
Com ela,
ele permanece —
errado,
suspenso,
me condenando
a viver
no mesmo segundo
repetido em que ela mesmo estando apaixonada por mim,
Me deixa, me deixa e me deixa.
— Lukaian Delfino NS.
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Achei que você ficaria
quando o tempo virasse hábito.
Às vezes penso
que talvez eu esteja errado.
Mas sigo acordando
com você espalhada
em todo o meu dia.
Já não sei se isso dói como saudade
ou como a dor estranha
de quem chegou tão perto
que perdeu o direito
de chamar de perda.
Você foi embora por bem?
Ou foi embora
porque não sabia ficar?
Você vai voltar?
Ou essa pergunta
é só o jeito que a esperança
aprendeu a doer?
Chorar
é a maneira que meu corpo encontra
de aliviar a dor
e perseverar
mais um dia.
E o tempo…
Bom…
tenho receio do tempo —
não por mim,
mas por você.
De ele apagar
tudo o que um dia eu fui
ou poderia ter sido
em você.
E isso
também passa sem pedir licença.
—Lukaian Delfino NS.
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