Veredito
Às vezes me tratam com tamanha indiferença que começo a desconfiar do espelho. Não da imagem. De mim. Pergunto, em silêncio, se há alguma falha invisível que todos enxergam e só eu desconheço. Porque ninguém duvida da própria bondade quando é escolhido. A dúvida nasce quando o afeto passa ao lado como quem não reconhece um rosto. Então faço o que todo homem cansado faz: transformo o silêncio dos outros num julgamento contra mim. Talvez eu não seja bom. Talvez exista em mim alguma insuficiência que o amor percebe antes mesmo de chegar. E, no entanto, há uma estranha injustiça nisso. Passei a vida perguntando o que havia de errado comigo, enquanto o mundo apenas seguia seu caminho. Talvez a indiferença nunca tenha sido um veredito. Talvez tenha sido apenas a forma como o destino distribui as ausências. Mas confesso: há noites em que essa diferença já não me convence. E volto a perguntar, não ao mundo, mas a mim mesmo: se eu fosse realmente uma boa pessoa... teria sido tão fácil passar por mim? — Lukaian Delfino NS.
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