Lukaian Delfino NS @LuhDelfino
Amor

Um brinde

Meus dias sóbrios essa semama já cabem nos dedos — e às vezes sobram dedos. O resto eu dissolvo em qualquer coisa que queime menos que o que sinto. Não é sobre beber. É sobre calar. Porque quando fico sóbrio, fico inteiro — e inteiro, eu não aguento. Estou cansado. Mas não é um cansaço de corpo. É de existir pensando. Exausto de lembrar. de imaginar, de quase. Não tê-la me tirou do eixo como se eu fosse feito de uma coisa que só funciona em dois. E agora eu ando torto, incompleto, meio fora de mim. E ela… segue. Sai, ri, vive, talvez nem lembre da dimensão que ocupa em mim. Está com outro. E essa frase tem um gosto metálico, como se cada letra cortasse um pouco. Eu tento entender. Chamo de carma, de consequência, de algum erro antigo que voltou para cobrar. Talvez eu mereça. Talvez isso seja ajuste de contas de um passado que eu nem sei mais nomear. Ou talvez eu só esteja procurando sentido pra uma dor que não tem explicação. E isso dói mais. Porque se não tem causa, não tem conserto. E eu fico com essa sensação estranha de ter perdido alguém enquanto ainda tentava me reconstruir. Como se eu estivesse me curando e, no meio do processo, alguém passasse por mim e levasse embora o pouco que ainda funcionava. Mas o mais cruel… o mais silencioso… é saber que dessa vez eu perdi algo que não era meu. Eu perdi uma possibilidade. E isso não se enterra. Não se fecha. Não se resolve. Fica aberto — como uma porta que nunca foi atravessada mas que insiste em não se fechar. E eu aqui, contando dias sóbrios como quem conta passos pra sair de um lugar que nem sabe mais se quer sair. — Lukaian Delfino NS.

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