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L.F

@LarissaFer · desde 2021

"O amor é a poesia dos sentidos."

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Amor

Música

A menina afogada flutua sob a lua, tulipas repousam, pálidas, num canto da noite. Disfruto o vento que sopra de Lisboa e o teu olhar melancólico. Talvez estejamos nos apaixonando — ou talvez seja só eu. Você é como o último vício de um poeta errante de bar, fiel à trágica sorte de amar tão bela, primorosa, sublime e amada rainha. Como a derradeira amada de um coitado quase louco que odeia poesia. E oferece ao diabo cada sílaba, como dois comparsas brindando um bom álcool.

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Amor

Antes do amor ser amada

É difícil te dizer eu te amo. Te amar exige mais tempo do que um corpo sustenta. E ser amada por ti desorganiza a minha fala, subverte a vontade. Eu quero atravessar essa barreira que impede meus olhos de dizerem o que já sabem. Não porque eu não saiba o que sinto, mas porque sinto demais para dizer sem falhar. Serei tirana dos mundos em que você não houver. E que não haja loucura que queira nos ver distantes. Porque eu te amo, e eu te amo, sozinho, não consegue comunicar. Pois quando você me olha e eu te olho, e a Avenida Paulista tem outro cheiro com você. Isso não é só amor. Quando o anoitecer é mais gentil porque você me esperou e eu já te amava. Quando o sol toca meu rosto pela manhã e o corpo te procura no primeiro gesto. Isso é tudo aquilo que nós compreendemos. Sei que com você, eu não entendo o que é o amor. E essa é a forma mais alta de amor que sei sentir. Case com sua primeira namorada. E deixe que o começo seja o fim de toda procura. Sem que isto precise ser uma declaração de amor.

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Amor

Único

No tempo onde o tempo jaz morto, e a ciência serve à razão coletiva, anseio ser singular, portador de um amor único, imune à vastidão de um universo que abraça todos os amores — também únicos. Se me diluir em consciência dispersa, serei voz — não só a minha. Te amarei em nome da comunicação, linguagem que conecta mundos, pra que te amemos — nós, Eu, todos nós te amarão, em uníssono, como porta-voz deste mundo. Ser completo em completudes dispersas, amar no tempo que dilacera, é insurgência contra o nada ou uma indeterminação axiomática: infinito universo, dividido pelo vazio. O medo é fissura no contínuo, abismo entre avanço e existência, onde o amor — arcaica chama indômita — resiste à dissolução da essência. E eu te pergunto, entre o passado que se dobra e não retorna, e o futuro que dobra o espaço em silêncio: o que é o amor, senão luz em viagem eterna, que carrega em si o peso do ontem e a promessa de hoje, uma vez mais, Iluminar o espaço escuro? Como a estrela... refletida nos olhos do universo amante, vestígio imortal de luz extinta, um relicário onde jaz a psiquê do ser e o nada.

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Amor

Thais

E se eu sumir... Sem jamais me ausentar, Se a ausência se tornar presença, E o esquecimento, um eterno recordar? E se o tempo congelar, E, ainda assim, o instante for fugaz, Se no efêmero de outro toque, Residir uma paz mais? E se eu viver, Sem jamais existir, Se entre sombra e luz eu me dissipar, E a minha essência se esvair? E quando as estrelas caírem, Transformando-se em cinzas no mar, Deixa-me ser o místico, Que incita a luz em teu olhar.

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Folego Único

Como confinar a palavra ao domínio das palavra, se é que posso? Na eloquência, sufocar a língua; na língua, permitir que a boca fale. Sou incapaz de ser humano quando sou compreendido. Não posso ser lido, nem espero entoar um protesto pacífico. Prefiro estar descrito naquilo que penso, contido no que você pensa. Meu silêncio é uma revolta indiscreta. Não sou político, este é só um alento. Mas por quais razões, por que motivo? Ao ver-te, quero verter palavras à palavra. Alarde! Escândalo! Vou corrompido, pois todo romântico tende ao romance desde o princípio. Ecoa! O sentimento aflora, indômito e belo. Em cada sã reflexão, a alma se desvela. Necessidade! Vaidade! É a inclinação do louco, na máscara da verdade!

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Amor

Leviatã

Disvirgina-me da casta loucura dos sãos, que são o oposto e o espelho de ti. Fera lasciva, doce leviatã. Quiçá, bem do meu mal, sejas divinamente mortal. Demônio gêmea minha fêmea. Roube esta imagem que possuo, deixa-me ser parte da visão que te compõe. Redija e redija e redija... o suspiro, eu quero ser a mão que escreve. Desata-me ímpia da loucura dos sãos, que são, de longe, o motivo da nossa insanidade mais pura. Preciso escutar da sua boca os sons que fazem a língua. A rima, a técnica, profiro o teu querer gentil. Querendo de amores contigo morrer e, assim, vivendo o uníssono refrão de um desejo deflorado, poderei enfim arder.

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O Poema

Por que não consigo escrever o poema? Quiçá, por capricho da sorte, seja funesto agouro, Ou, por louro, um intrigante dilema. Em ambos os casos, que direi do poema? Quem sabe seja o tempo vindouro, De frieza extrema. Devo, então, frequentar mais ao cinema, Sou como o animal no abatedouro, A escassez de sono é o real problema. Em toda circunstância, Oh, Deus que estais no céu, Que diabos aconteceu com o poema?

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Amor

Ofélia

Ela saiu da cidade, não por arbítrio, mas um vislumbre. Foi para o litoral. Caminhou pelos instantes, por entre os quais se diz "morte à morte!" Há em muitos esta ideia, quase desejo, que envolve o desejo e o ultrapassa, sendo a mentira da verdade. É a verdade da mentira de não morrer porque se preza tanto – não pela vida –, mas seu pretérito. Dá janela ela viu o mar romper com as ondas um trato milenar, o de não chocar-se contra o rochedo nem chorar suas espumosas lágrimas. Transmutado o percurso das ondas, ultrajado o trajeto dos ventos, revogado o escuro do céu, alteram-se também as noites de luar. O sal deixou de arder, nem mais salgando, na perplexidade da noite sem noite. Ela retomou à casa, retomou à cama, procedeu em sono, procedeu em sonho. Respirou todo o ar que havia em Deus e voltou à mansa vida. Com doçura, sem pressas, avistou um jardim. Doce jardim, manso jardim, onde enredou-se às bromélias, na mansitude do verde lago, e aguardou seu fim.

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Amor

Noiva de Mel

A noite mastiga as palavras, engolindo-as no vácuo do silêncio. Mais tarde, me buscas — um querer discreto, assertivo, pois também te quero. E te asseguro, seguro em teu leito, o desconcerto que sinto, que tento, que é meu, e mente com a boca as lágrimas incrustadas no peito em alarde. E me incendeiam, causando um morto por ti, um louco, de uma louca causa, que arde no corpo e se devora aos poucos. Toda noite me caso contigo, no amor nos casamos, é como um roubo. A cândida lua repousa no céu, invadindo a casa. Te sinto por dentro, noiva dos astros, fulgurante em minha alma.

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Poesia

O homem e a varanda

O azul provoca um choque bem mais raro do que a colisão entre corpos. Quão escuro tu me disseste que era o céu, mas era Deus, que acende uma lâmpada sobre o seu teto. Penso, ao ver-te suspenso entre os edifícios, que o ar te segura como um filho. Estás no colo da noite, enredado, e és para mim um astro em evidência, sob seu holofote de luzes da cidade. Tu repousas, anjo teatral, alado, erguido entre dois pontos que se encontram só para ti. Tivera eu o dom, te descreveria: um monstro divino, uma coisa quase estranha, que envolve toda a luz e me seduz para o abismo do olhar... sempre uma última vez.

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