Um sonho ou um respiro seria
Morar tão tão distante
Onde nada me prenda, nem mesmo eu
Onde eu não tenha imagem, forma ou cor
E adjetivos não me consagram isso ou aquilo
Tão distante de mim quanto tudo que eu não conheça
Que não me lembre esse amargo do passado
e eu possa adoçar boas lembranças, livre
Talvez reinventado possa ser otimizado
Nada mais produtivo que começar do zero
Onde meus sacrifícios valham a pena
E eu me orgulhe de mim mesmo
Não hajam cobranças além das minhas
Não suporte responsabilidades além das minhas
E eu possa sentir o aconchegante frio do meu abraço
Tão, tão distante de tudo
Que não sobre nada além de um eu que pra mim é tudo
E que para os outros não seja nada.
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A fera vagueia dentre ruínas e cinzas,
sai à noite, caça sozinha.
Diga, quem detém tamanha força,
tamanho poder,
de plasmar sua terrível simetria?
Os momentos se encontram sozinhos,
e minhas mãos não os sentem tanto quanto eu gostaria.
Desprendem o antigo eu do novo eu,
que se encontram sozinhos,
e a sensação de vazio
é o vácuo entre meus seres.
Eu o sinto no ar à minha volta,
no cheiro, acredito, no íntimo, inexistente.
Sinto saudade,
cortante como a navalha do tempo,
suave como o correr dos dias,
o soprar do vento,
harmonia entre melodias.
Apenas aquilo
me sugere algo nostálgico:
uma lembrança recente que se parece com a memória de infância há muito esquecida,
ou algo esquecido que se refez recentemente.
Também a obra de minha vida,
meus olhares ao longínquo agora,
onde nem mesmo sei o que olhar;
meu vagar entre as estrelas de olhos alheios,
ou o whisky ardente do meu pensamento.
A voz latente, que suavemente vibra meus tímpanos,
se assemelha à minha mãe, chorando.
Tremo ao ouvir o pranto.
Também choro.
Também sou.
Breve, espero.
Salve-nos, pai, venha a nós.
Nos tire da miséria dos dias e da vida
em que nos abandonaste.
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Rosa, acredite...
Em você não há importância alguma,
Nem para mim, nem para você, nem para ninguém.
De forma geral você é literalmente mais uma;
Mais uma pessoa
Mais uma estudante
Mais uma mulher...
Mais uma entre bilhões,
Uma que nasceu dentre incontáveis que nascerão.
Alguém
Que
É
Ninguém
E assim como ninguém,
Não é muito mais que nada.
Então, Rosa, aproveite essa sua vida
Afinal, somos pó
E pó continuaremos.
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Presente de grego
~João Pedro~
Rasguei o peito em segredo,
Enquanto refletia hoje cedo.
Sem querer, me fiz indefeso,
Contando as notas nos dedos,
Querendo, quem sabe, margem
Para ser mais que o enredo,
Nem talvez protagonista,
Talvez mais que um simples Pedro.
— João, não negue nada a si mesmo,
Afinal, é seu caminho.
O destino é seu brinquedo.
Não se contagie com a sorte
Ou com o sonho alheio.
Tijolo por tijolo,
Pavimente o caminho todo
E faça do seu fim
O mais nobre e mais lindo enterro.
Em meio aos mares,
Bares sombrios me assombram;
Visões de pilares podres
Comprometendo a fundação.
Em meio à guerra da vida,
Gregas mandam um presente:
Um gesto de amor troiano,
Entregando-me um coração.
— João, seja mais do que eu sou.
Talvez valha a pena cultivar
O que restou.
Talvez o broto cresça,
Talvez apareça uma flor,
E talvez haja sentido
Em ainda existir amor.
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Validei tanto a madrugada em meus
Sonhos de mistério e desejo
Tornei tão mágica suas sombras
Seu silêncio e sua memória
Que me esqueci de olhar para fora
A magnificencia dos raios brancos
No topo do mundo me banham
Trazem vida espantando o frio da solidão
Alimentam os pastos e as matas
Coram a pele pálida da reclusão
Destroem os vampiros almaticos
que se alimentam da energia vital
Iluminam sem ser iluminados
Enquanto se sobrepõe a tudo
Guiando sua carruagem ardente
De leste a oeste, todos os dias
Fazendo todos os seres saírem
Girando esse carrossel errático
Guiando novas oportunidades
Enquanto traz mais um dia
E depois, outra madrugada
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Ela vinha vindo, caindo
Como um cometa de gelo e fogo
Seus cabelos longos, cintilantes
Dourados em meio às nuvens noturnas
Reforçava a disputa acirrada
Ou ela ou a lua
Todo o amor do mundo
Plasmado em sua figura
Me lavava, levava, e transformava
E ela caia ao céu, nua, pura
De repente, ao sangue entregue
Me olhava com uma serenidade angustiante
Enquanto eu cantava, e cantava
Ela no alto, me fitando, crucificada
Seu sangue ardia e brilhava
E eu cantava: Maria prometida
Ela sorria
Ela morria
Ela Maria
Em ciclos me matava
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E se eu me entregasse sem um porque
Ou só me integrasse a você.
Num gesto sólido,
Como um pedido;
Sem ter um motivo, ou só por querer.
Nem mesmo um pedido
Um desejo mútuo
Entretanto pareça perdido
Ao acaso, confuso
Me unir à sua sombra
Celebrar você.
Um instante, um momento
À passagem do tempo, um adendo:
O infinito que tange você.
Que rege o vazio de seus olhos
Os comunistas os diriam: "nossos"
E os ossos ressuscitariam pra ver.
As ondas de seus humores
Se quebrando na areia das dores
Dando forma a você
E no canto que atrai o homem
O transcendental olhar de fome
Que não se sacia, a não ser com você
Eu te roubaria, em plena luz do meio dia
Subiria aos altares da vida
Recitaria milhares de poesias
Unicamente pra ser presente
E fazer parte de você.
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Após o súbito ato rebelde
O que me sobra é o cansaço
E após a última injúria dita
Me resta as consequências desses atos
E, novamente, na base da montanha
Olho a pedra e a subida
E me imagino feliz, aqui em baixo,
Talvez lá em cima.
E aprendo que fazer é o único modo de ser
E ser é o único modo de viver
O João que faz finalmente nasceu
Mas nasceu cansado
Inquieto com esse mundo
Cheio de nós para desatar
Vazio de conversas que o regeneram
Fora da presença dos iguais
Se perguntando sobre pessoas
No deserto interno de seu ser
Onde há gente nesse mundo?
Gente que não tem medo de assumir o que é
Gente que não tem medo de abandonar o que é em razão de construir um ser melhor em si
Gente sem preconceito e aberto a ouvir
Gente que se dispõe a falar sobre mais que os temas corriqueiros
Que querem mais que drogas, sexo e dinheiro
Que procuram algo verdadeiramente verdadeiro mesmo sem saber o que
Me sinto só em meio as multidões Instagramicas
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Nunca busquei em mim o que queria
Sempre considerei tudo alheio a mim
Como um balde, vazio
Buscando se encher de algo
Buscando saber
Quem mais se orgulham de conter o que?
Quem faz faltar, no mais, verdade?
Quem carrega aquilo que julga bom
E onde está a certeza?
O balde, vazio, não era vazio
E não sabia;
Nenhum balde é vazio.
Cabe a ele observar-se
E relacionar seu conteúdo à realidade
Cabe a ele julgar que te faz cheio
o que te esvazia
E o que te seca
E o que te mata
Se até o balde é abstrato,
Que me diz seu conteúdo?
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Não escreverei mais poemas até que não sobre nada de quem sou, e fragmente minha alma e me torne tão somente um cão que somente é cão.
Dito isso:
observe atentamente o suicídio lento de um verme, que em meio a podridão, existe.
Tão real quanto essa existência, que nos cerca,
é sua indiferença, vadia, completamente alheia
A cada minuto, de cada dia, esse peso
essa pressão, tudo,
Tudo envenena, drena minha alma, me mata.
Recentemente, quase que como uma fraqueza,
Senti minha alma, em meu corpo, debilitada
Quebrada, uma parte perdida, depois mais rala,
Menos concentrada, menos eu.
Poucas experiências, como um velório de um pai,
Um dia inesperado, tem o poder necessário para partir uma alma, e a minha foi partida.
Dês de então, a cada dia a alma vaza,
Se torna menos, pereço.
E tornam-se inúteis os versos, os planos, a mente.
E o que me resta é crer em mim; coisa que jamais farei.
Já não acredito em mais nada, que tudo também sucumba.
Pois agora a natureza, que existe, será o tudo.
E que me queime o rosto, o sol
E sua chuva molhe meu peito.
Tão somente o vento remexerá meus cabelos,
E o que tiver de vir, que venha,
E o que não vier, que não venha,
E que a comédia divina da existência se foda
Eu renego seu paraíso,
Abdico seu maldito inferno.
Queimarei vossa casa,
Construirei meu castelo das cinzas e assim morrerei.
Por cima de seu mundo, fundarei meu mundo,
Encima de suas regras, gravarei minhas regras,
Acima de seus planos, definirei meus planos.
E assim me consagro meu Deus.
Sorrirei a seguir meus planos
Ao calço de meus desejos.
E assim será pelos séculos dos séculos,
Amém
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