Fato que eu tenho rompido tratados
Que tornei-me responsável apenas por imprudência
Tornei-me tutor do afeto ao custo
Miseravelmente barato
E comprei-o caro pela mesma carência
E que sorte, que a sorte de deus me é generosa
Enquanto que eu erro, apostando minha vida fora
Sem meu mérito, ela me põe no rumo
E na pouca glória desse infortúnio
Trás pra mim a vida de volta
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Foi da tua pseudo ciência que tiramos nossos dados, e construimos nosso nau
Que medida usaste em teu cálculo? Não foi a minha. Dei braçadas, tu deste o dedo para medir, veja, estamos afundando
Não se agarre em mim; procure tua porta
Meu santo é este, é este nosso final
Já das braçadas que darei pra remar até a praia, nenhuma levará você
Arrume teu pau, se escore numa tábua
Só a maré levará nossa alma, entretanto, reme tuas polegadas, dê sorte a fé
Como te dei e basta, agora basta
Mas sem revolta, nenhum pesar
Que o final seja tão somente feito das coisas que arrumaremos na próxima jangada
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Isso, feito de coisas boas
Mas perfeito nas coisas más
Já foi faca feita de lápis, rubra tinta
Que escrevia maldições soltas
Demoníacas
Para quem lê em tudo o mal
Com os olhos tortos, sem língua
Isso cresceu como uma doença
E desperta um tempo voraz
Solitário,
já isso, com mãos vazias
Prevê solidão como hipocondria
E abraça o inferno como quintal
Fica em qualquer lugar que pertença
Sozinho como coisa
Como homem,
como animal.
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Se um dia serei eu a chorar pelo meu pai
Amaldiçoando-o com saudade sobre um copo de cerveja
Então que seja! Eu não luto contra o destino
Se serei eu a fugir sozinho para o mais longe e esquecer de meus filhos
Como queira.
E talvez serei também quem guerreia contra meus irmãos
E meu rosto se encherá de rugas, e a mulher que amo hoje vai me odiar como ninguém odeia
Vou me prender aos dogmas antigos e se eu encontrar uma igreja, aceito a maldição
Se eu sentir falta da juventude e dizer que com minha nova cabeça, tudo mudaria
É porque não, e a razão já me deixa
Mas se também eu estagnar sobre a rotina e viver sobre o jornal
Se eu debochar no carnaval, no natal comer e no ano novo, mentir.
Serei um velho frio que nada diz, exceto sobre o ríspido desgosto que cospe e lamuria
E assim tudo bem
Mas que jamais eu tenha um filho que escreve, niilista, um poema sobre temer o destino
E que jamais eu tenha filho
Pois morre assim o maldito,
O maldito tempo para alguém!
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Muito além da janela, essa que me apoio toda manhã, há uma casa alta na serra.
E bem cedo, sem ver nenhuma terra,
Ela me afaga, contra a inquietude urbana, o verde das folhas, a colina gelada.
É sempre o horizonte que se vê primeiro!
É sempre meu mal humano que acende na prova de que sou também humano.
É quando o cheiro do café lembra das ruínas d'outro tempo
Pedra por pedra, tronco por tronco
E meu castelo de orquídeas, minhas armas e meus monstros.
Dos bichos mortos, as flores murchas, das coisas meigas de cores e feições que enterrei em algum buraco raso no chão.
E sobre o que matei, nem lembro, não enterrei.
Ah, quanto de bicho ainda resta no meu coração?
Quanto sou de fúria, e sou a paz daquele tempo que perdi e só vivi mesmo nas lembranças?
Teria chorado no velar nos bichos ou no cultivo das flores?
Ou no remorso da culpa, ou quando sujei as mãos?
Eu deveria chorar agora que tudo aquilo morreu e eu sequer velei?
Sobre quem matou, já não importa quem fez.
Mas diga-me, onde enterraram?
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Quantas das cartas, que tingi com lágrimas, chegaram ao teu endereço?
Quanto pranto, molhando a calçada e os céus, eu lembro de ter sofrido?
Se só mantive as boas memórias, me persegue o perigo da paixão, de novo
E quanto de você eu ainda mereço?
Ora, peço, não perdoa o que fiz contigo
Pois eu não perdoo, e então me odeio
…
Por quantas coisas assim eu me odeio?
E se me suporto, enquanto presença
É na margem do que foi esquecido
Então, se quase te esqueci, eu culpo o tempo, Maldito tempo!
E eu, ainda mais maldito
Viverei o castigo a margem de mim, que já é castigo
E sabendo tudo o que sei agora, me pesa
Se não o sofrimento que causei, o que causo todos os dias
Porque sou caos, e serei de novo, até esquecer disso
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Que teu nome faz semântica com o celeste, estrela e luz— Esta perene e perfeita — disto eu conheço bem.
Mas se me conta das coisas que não sei,
talvez
ainda que eu nem entenda porquê, algo por ti serei.
Que eu gosto da tua armadura, a que todo mundo tem
Gosto e também dos olhos, eu gosto tanto dos teus olhos
Neles, a luz que reflete e que é estrela,
tal como sol,
De algum modo, é equivalente a ti, ainda que na poeira, ou nem.
Mas se me conta algo místico, eu descubro e esqueço de Andromeda
E ela vem, irremediável colosso em melindre, mas frio, morto.
vem e se funde no estrago que já há
É a vida, boa angústia ah,
A angústia má, anseia vida
Porque
se me conta algo novo, que nem verdade
Tu existirá pra mim, no quântico, na filosofia, muito maior que os astros
No centro de toda galáxia
Singularidade
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Eu guardo um ódio mortal por todas as coisas
Coisas sóbrias, coisas feitas de coisas e gente que foi feita por gente
E eu guardo um apego pelo silêncio da criação, a parte calada que diz apenas com vazio
Eu olho para o espaço, eu me apego porque simplesmente não posso, não tange
É que se basta olhar para o céu e ver outro tempo, eu me sinto fútil pela falta de mérito
E logo todo o amor que tive, pelo eterno passado, vira pó em meio a todo amor que tive
E se já tive algo, foi na vida a ilusão de amor por algo, que não tive.
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Escarra meu sonho, tal como eu
Não merece coisa alguma,
Trata da voz como fosse tua e cala
E quando eu calar, tu choras, coitada
E quando eu morrer, tu vem
Trás flores
Agoniza em cima da pilha de mármore ou pedra barata que pagaste com o casco
Mas agoniza mesmo? Como quem perde a guarda do cão ou as botas que serviam bem, então agoniza mesmo?
Se choras, é fruto do consumismo que falta em meu cadáver, pois se foi antes que pudesse come-lo
Diga, ter-me como brinquedo foi seu maior sonho
E certo dia, foi o meu também.
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Olhos que caçam os teus até
no sono ingênuo da noite, a que durmo
Maldito sou por tê-los, quando despertam numa ânsia febril
Buscam pelo amor perdido, no escuro desolador de ser tolo
Já não sei se sonhar contigo me mata ou faz viver — vive a pergunta:
Qual dos pecados meus, ter-te longe, fez?
Que pago com a agonia dos meus dias todos
TODOS
Minha soberba vez,
pago-te na vida
Pra encontrar-te noutra com alguma sorte
Mas com alguma sorte, nunca mais te encontro
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