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Gis

@Gaiten · desde 2019

Confissões de uma mente que carece o pensar, pois sou só a sombra da vontade.

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Parceira sorte

Fato que eu tenho rompido tratados Que tornei-me responsável apenas por imprudência Tornei-me tutor do afeto ao custo Miseravelmente barato E comprei-o caro pela mesma carência E que sorte, que a sorte de deus me é generosa Enquanto que eu erro, apostando minha vida fora Sem meu mérito, ela me põe no rumo E na pouca glória desse infortúnio Trás pra mim a vida de volta

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Barco de areia

Foi da tua pseudo ciência que tiramos nossos dados, e construimos nosso nau Que medida usaste em teu cálculo? Não foi a minha. Dei braçadas, tu deste o dedo para medir, veja, estamos afundando Não se agarre em mim; procure tua porta Meu santo é este, é este nosso final Já das braçadas que darei pra remar até a praia, nenhuma levará você Arrume teu pau, se escore numa tábua Só a maré levará nossa alma, entretanto, reme tuas polegadas, dê sorte a fé Como te dei e basta, agora basta Mas sem revolta, nenhum pesar Que o final seja tão somente feito das coisas que arrumaremos na próxima jangada

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Sanidade

Coisa

Isso, feito de coisas boas Mas perfeito nas coisas más Já foi faca feita de lápis, rubra tinta Que escrevia maldições soltas Demoníacas Para quem lê em tudo o mal Com os olhos tortos, sem língua Isso cresceu como uma doença E desperta um tempo voraz Solitário, já isso, com mãos vazias Prevê solidão como hipocondria E abraça o inferno como quintal Fica em qualquer lugar que pertença Sozinho como coisa Como homem, como animal.

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Família

Sangue Destina.

Se um dia serei eu a chorar pelo meu pai Amaldiçoando-o com saudade sobre um copo de cerveja Então que seja! Eu não luto contra o destino Se serei eu a fugir sozinho para o mais longe e esquecer de meus filhos Como queira. E talvez serei também quem guerreia contra meus irmãos E meu rosto se encherá de rugas, e a mulher que amo hoje vai me odiar como ninguém odeia Vou me prender aos dogmas antigos e se eu encontrar uma igreja, aceito a maldição Se eu sentir falta da juventude e dizer que com minha nova cabeça, tudo mudaria É porque não, e a razão já me deixa Mas se também eu estagnar sobre a rotina e viver sobre o jornal Se eu debochar no carnaval, no natal comer e no ano novo, mentir. Serei um velho frio que nada diz, exceto sobre o ríspido desgosto que cospe e lamuria E assim tudo bem Mas que jamais eu tenha um filho que escreve, niilista, um poema sobre temer o destino E que jamais eu tenha filho Pois morre assim o maldito, O maldito tempo para alguém!

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Infância

Cores mortas

Muito além da janela, essa que me apoio toda manhã, há uma casa alta na serra. E bem cedo, sem ver nenhuma terra, Ela me afaga, contra a inquietude urbana, o verde das folhas, a colina gelada. É sempre o horizonte que se vê primeiro! É sempre meu mal humano que acende na prova de que sou também humano. É quando o cheiro do café lembra das ruínas d'outro tempo Pedra por pedra, tronco por tronco E meu castelo de orquídeas, minhas armas e meus monstros. Dos bichos mortos, as flores murchas, das coisas meigas de cores e feições que enterrei em algum buraco raso no chão. E sobre o que matei, nem lembro, não enterrei. Ah, quanto de bicho ainda resta no meu coração? Quanto sou de fúria, e sou a paz daquele tempo que perdi e só vivi mesmo nas lembranças? Teria chorado no velar nos bichos ou no cultivo das flores? Ou no remorso da culpa, ou quando sujei as mãos? Eu deveria chorar agora que tudo aquilo morreu e eu sequer velei? Sobre quem matou, já não importa quem fez. Mas diga-me, onde enterraram?

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Amor

Castigo

Quantas das cartas, que tingi com lágrimas, chegaram ao teu endereço? Quanto pranto, molhando a calçada e os céus, eu lembro de ter sofrido? Se só mantive as boas memórias, me persegue o perigo da paixão, de novo E quanto de você eu ainda mereço? Ora, peço, não perdoa o que fiz contigo Pois eu não perdoo, e então me odeio … Por quantas coisas assim eu me odeio? E se me suporto, enquanto presença É na margem do que foi esquecido Então, se quase te esqueci, eu culpo o tempo, Maldito tempo! E eu, ainda mais maldito Viverei o castigo a margem de mim, que já é castigo E sabendo tudo o que sei agora, me pesa Se não o sofrimento que causei, o que causo todos os dias Porque sou caos, e serei de novo, até esquecer disso

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Crença

Singularidade

Que teu nome faz semântica com o celeste, estrela e luz— Esta perene e perfeita — disto eu conheço bem. Mas se me conta das coisas que não sei, talvez ainda que eu nem entenda porquê, algo por ti serei. Que eu gosto da tua armadura, a que todo mundo tem Gosto e também dos olhos, eu gosto tanto dos teus olhos Neles, a luz que reflete e que é estrela, tal como sol, De algum modo, é equivalente a ti, ainda que na poeira, ou nem. Mas se me conta algo místico, eu descubro e esqueço de Andromeda E ela vem, irremediável colosso em melindre, mas frio, morto. vem e se funde no estrago que já há É a vida, boa angústia ah, A angústia má, anseia vida Porque se me conta algo novo, que nem verdade Tu existirá pra mim, no quântico, na filosofia, muito maior que os astros No centro de toda galáxia Singularidade

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Um dedicado ao amor pelo Eterno

Eu guardo um ódio mortal por todas as coisas Coisas sóbrias, coisas feitas de coisas e gente que foi feita por gente E eu guardo um apego pelo silêncio da criação, a parte calada que diz apenas com vazio Eu olho para o espaço, eu me apego porque simplesmente não posso, não tange É que se basta olhar para o céu e ver outro tempo, eu me sinto fútil pela falta de mérito E logo todo o amor que tive, pelo eterno passado, vira pó em meio a todo amor que tive E se já tive algo, foi na vida a ilusão de amor por algo, que não tive.

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o afago da rosa

Escarra meu sonho, tal como eu Não merece coisa alguma, Trata da voz como fosse tua e cala E quando eu calar, tu choras, coitada E quando eu morrer, tu vem Trás flores Agoniza em cima da pilha de mármore ou pedra barata que pagaste com o casco Mas agoniza mesmo? Como quem perde a guarda do cão ou as botas que serviam bem, então agoniza mesmo? Se choras, é fruto do consumismo que falta em meu cadáver, pois se foi antes que pudesse come-lo Diga, ter-me como brinquedo foi seu maior sonho E certo dia, foi o meu também.

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Sonhei contigo

Olhos que caçam os teus até no sono ingênuo da noite, a que durmo Maldito sou por tê-los, quando despertam numa ânsia febril Buscam pelo amor perdido, no escuro desolador de ser tolo Já não sei se sonhar contigo me mata ou faz viver — vive a pergunta: Qual dos pecados meus, ter-te longe, fez? Que pago com a agonia dos meus dias todos TODOS Minha soberba vez, pago-te na vida Pra encontrar-te noutra com alguma sorte Mas com alguma sorte, nunca mais te encontro

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