Gis @Gaiten
Infância

Cores mortas

Muito além da janela, essa que me apoio toda manhã, há uma casa alta na serra. E bem cedo, sem ver nenhuma terra, Ela me afaga, contra a inquietude urbana, o verde das folhas, a colina gelada. É sempre o horizonte que se vê primeiro! É sempre meu mal humano que acende na prova de que sou também humano. É quando o cheiro do café lembra das ruínas d'outro tempo Pedra por pedra, tronco por tronco E meu castelo de orquídeas, minhas armas e meus monstros. Dos bichos mortos, as flores murchas, das coisas meigas de cores e feições que enterrei em algum buraco raso no chão. E sobre o que matei, nem lembro, não enterrei. Ah, quanto de bicho ainda resta no meu coração? Quanto sou de fúria, e sou a paz daquele tempo que perdi e só vivi mesmo nas lembranças? Teria chorado no velar nos bichos ou no cultivo das flores? Ou no remorso da culpa, ou quando sujei as mãos? Eu deveria chorar agora que tudo aquilo morreu e eu sequer velei? Sobre quem matou, já não importa quem fez. Mas diga-me, onde enterraram?

Comentários · 2

  1. Caio Graco

    pergunta instigante...

  2. Mirabel

    Profundo questionamento! Excelente composição 👏🏻👏🏻👏🏻