O padeiro ganha a vida, mas vive de pão-durismo,
o político promete o bolo e nos entrega o cinismo.
O banco tem coração? Só se for de pedra ou aço,
empresta um braço ao pobre e cobra o corpo no prazo.
O relógio é tão sincero que não vende ilusão:
dá corda à nossa esperança, mas encurta a duração.
O sábio perde a cabeça tentando achar razão,
o tolo perde a razão, e ainda ganha discussão.
Tem gente cheia de si, mas vazia de conteúdo,
fala tanto de humildade que se acha acima de tudo.
No fim, a vida é uma escola, disso eu não discordo:
a gente aprende com os erros… e repete por esporte.
(Marcelo Aug)
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Eu gosto do teu silêncio quando ele senta do meu lado
Porque nem todo sentimento precisa vir legendado
Tem gente que fala “eu te amo” sem saber o que dizer
Você só encosta em mim e eu já consigo entender
Se eu disser que não penso em você, é mentira elegante
Você aparece até nas coisas mais insignificantes.
No café, na música, no caminho pra casa
Meu cérebro te transformou em propaganda que nunca passa
E olha que ironia: eu sempre quis alguém que me entendesse
Agora você entende demais, e isso me enlouquece
Porque eu posso esconder o mundo atrás de um sorriso
Mas você olha dois segundos e já sabe o que eu preciso.
(Marcelo Aug)
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às vezes — bem às vezes —
me visita a vontade antiga de largar tudo,
de dissolver meu nome no vento,
sem rota, sem bússola,
como o garoto de Into the Wild
que confundiu liberdade com uma fogueira acesa no peito.
há momentos em que penso em desertar
desta realidade que aperta o pulmão:
a era digital com seus tentáculos luminosos,
as vozes artificiais prometendo felicidade de vitrine,
os trabalhos que comprimem a alma
como se fôssemos parafusos que não podem afrouxar,
o falso espírito natalino
que tenta me vestir de consumista
como quem veste um defunto com flores.
irônico escrever isso num celular
enquanto mastigo o açúcar melancólico de um chocotone —
um ritual moderno, banal, quase litúrgico.
talvez eu publique desta vez.
ultimamente, escrevo para mim,
para esses rascunhos que guardo
como pequenos fósseis de quem eu fui,
à espera de alguma escavação futura
onde eu possa lapidar um verso,
revisar uma dor,
ou restaurar alguma lucidez extraviada.
mas este texto, não.
este deixo orgânico,
inteiro,
sem carpintaria poética,
como uma árvore que cresce torta
e justamente por isso é mais bela.
o ano se arrasta para o fim
com a mesma lentidão ritual das marés.
eu não faço planos —
sou discípulo involuntário do acaso.
o amanhã não existe,
é apenas um mito educado.
e o presente…
o presente se faz sozinho,
como quem respira apesar de tudo,
como quem insiste em florescer
mesmo sob o peso da neve.
(Marcelo Aug)
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O mundo adulto é uma cidade onde ninguém abre janelas.
Todo mundo carrega no bolso
um pequeno deserto pessoal,
e rega com café frio para ver se brota alguma esperança.
Não brota.
No máximo cria raízes de teimosia.
É assim que sobrevivemos:
de teimosia em teimosia.
Dizem que “apanhar fortalece”.
Mentira mal contada.
Apanhar não lapida; desgasta.
Somos pedras que vão perdendo as quinas,
ficando lisas,
opacas,
obedientes.
Chamam isso de maturidade.
Eu chamo de erosão.
(Marcelo Aug)
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saí pra andar
tentar desalojar a cachola —
mas ela gruda, pesa,
uma maré de questões que mastiga minhas sinapses
a superlua, laranja-púrpura,
escancara a noite
mas clareza é luxo que meus pensamentos não têm
eles estão turvos, remexendo o fundo da cabeça,
fazendo ondas que não tocam margem
tudo ou nada
uma faca que corta o fio do resto da vida
impasses se empilham
dúvidas se dobram
dilemas se enroscam
como arame nos ossos
vejo pessoas
em suas bolhas de rotina
risos em sequência, chope, conversa, calor
eu, arrastando passos que rangem
autômato de mim mesmo
cada cinco metros,
um pensamento se contorce, explode, evapora
levado pela brisa —
ou seria pelo abandono?
a lua me olha sem julgamento
minha sombra caminha comigo
mas pesa mais do que eu
cada passo é gravidade invertida
cada respiração, fósforo aceso no escuro
o mundo segue sorrindo
eu sigo sendo sombra
ou talvez vento
ou talvez nada
apenas o arranhar da mente
numa calçada que não termina
(Marcelo Aug)
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A pobreza não é apenas ausência,
é vergonha alheia que transborda pelas ruas.
Não só do pobre, que sente o estômago vazio e o frio na pele,
mas do rico, que se reconhece cúmplice
de um espetáculo cruelmente organizado.
Sim, é proposital.
A desigualdade não cai do céu,
ela se planta, se rega com leis e privilégios,
se molda nos contratos que excluem,
nas moedas que circulam apenas entre os que já têm.
O mundo se parte em dois.
De um lado, o excesso que se envergonha por prazer;
do outro, a falta que se humilha por necessidade.
E entre esses extremos, a moral se dobra,
o silêncio se firma, a culpa se disfarça de normalidade.
A desigualdade é escárnio.
É poema que grita em cifras e cifras de fome,
é ironia que se veste de luxo,
é crime que recebe aplausos.
Quem pode mudar escolhe olhar para outro lado.
E quem sofre aprende a sorrir com o nada que sobra.
A pobreza não é natural.
A miséria não é destino.
É invenção.
Um pacto silencioso escrito com ouro e sangue,
e nós — todos nós — somos obrigados a lê-lo.
(Marcelo Aug)
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A chuva cai —
mas não é água:
é o destino pingando dúvidas
sobre o guarda-chuva improvisado
que chamamos de certeza.
As nuvens, cúmplices,
carregam o peso do que ainda não sabemos,
e mesmo assim prometem liberdade
no instante em que rompem
e desabam.
A vulnerabilidade, então,
escorre pelas frestas da pele,
e o amadurecimento nasce
no desconforto líquido
do que molha o pensamento
e não pede licença.
Porque as lições nunca vêm secas:
chegam encharcadas,
transbordando perguntas,
fazendo poças onde pisamos
e reflexos onde evitamos olhar.
E no fim,
aprendemos que crescer
é aceitar que o guarda-chuva protege,
mas também aprisiona —
e às vezes é preciso fechar a armação,
deixar as águas baterem no rosto
e permitir que a tempestade
revele quem realmente somos.
(Marcelo Aug)
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Fértil minha mente — esse terreno baldio de pensamentos — brota versos como quem tropeça em raízes:
uma semente cai, um dente cai, eu também caio um pouco, mas levanto rimando,
porque a poesia, mesmo torta, sempre me puxa pela gola.
Jogo palavras no ar como quem solta pombas disléxicas:
elas levitam, se desencontram, formam constelações improvisadas,
e eu, cartógrafo cansado, tento traçar nelas algum sentido.
Às vezes arranco o significado pela raiz,
às vezes mastigo o verso até virar polpa,
cuspo longe, deixo secar ao sol, e ele renasce — mais áspero, mais meu.
O sono rasteja, liso, mas eu prefiro o delírio lúcido da madrugada:
divago porque a mente é teimosa,
revogo pensamentos como decretos de um governo mental falido,
o amanhã? — Deus que faça a ata.
O hoje? — sei lá, perdi no meio da papelada.
Coruja canta como oráculo noturno,
o céu estrelado parece manual de instruções de algum deus distraído,
e o banho de luar me deixa com cheiro de saudade recém-lavada.
Tudo me faz pensar demais —
maldição de quem nasceu com peito inflamável e cérebro inflamado.
Natal se aproxima com sua diplomacia festiva:
luzes piscando, gente sorrindo por protocolo,
panetone dividido como se fosse sacramento civil.
Ano novo acena, prometendo o que nunca cumpre —
mas a gente aceita, porque esperança sempre vence no cansaço.
Vinho tinto pra adoçar a noite (ou piorá-la),
panetone pra quem gosta (nunca entendi essa fé na uva-passa),
e eu?
Eu sigo afiando frases,
porque algumas pessoas colecionam moedas,
outras memórias —
e eu coleciono versos que nunca pedi para sentir.
(Marcelo Aug)
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Todos os dias me odeio um pouco mais.
Pela figura que fui moldando,
pelo espectro em que venho lentamente me convertendo.
Já não me reconheço no espelho;
e quem dera fosse só a superfície —
o reflexo é o de menos.
Por dentro, apodreço.
Nem os abutres me reivindicam,
como se até a ruína tivesse rejeitado meu sabor.
O buraco, esse arquiteto silencioso,
desce mais fundo do que consigo nomear.
E a luz — outrora funil, promessa,
fio de retorno — apagou-se antes de me alcançar.
A saída já não me acende.
Fui engolido pelas sombras,
e elas, ao contrário de mim,
parecem perfeitamente em paz
com aquilo que me tornei.
(Marcelo Aug)
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agora, com ela à beira do adeus,
não sei em que porto poderei ancorar;
quem será meu alicerce
quando o chão voltar a trincar sob meus pés?
porque sempre que meu mundo ameaçava ruir,
era ela quem se erguia —
firme, lúcida,
com aquela força serena
que parecia contrariar a própria vida.
foi apoio constante,
farol que não vacilava.
e, honestamente,
não sei sequer se desejo seguir adiante;
encerrar-me depois de sua partida
não soa como má negociação com o destino.
não vislumbro um arco-íris no horizonte.
meu mundo já era acinzentado,
mas agora percebo
a noite descendo de vez,
espessa, definitiva.
(Marcelo Aug)
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