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Marcelo Aug

@Desiludido · desde 2019

Habitante das entrelinhas.

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Trocadilhos da Vida Torta

O padeiro ganha a vida, mas vive de pão-durismo, o político promete o bolo e nos entrega o cinismo. O banco tem coração? Só se for de pedra ou aço, empresta um braço ao pobre e cobra o corpo no prazo. O relógio é tão sincero que não vende ilusão: dá corda à nossa esperança, mas encurta a duração. O sábio perde a cabeça tentando achar razão, o tolo perde a razão, e ainda ganha discussão. Tem gente cheia de si, mas vazia de conteúdo, fala tanto de humildade que se acha acima de tudo. No fim, a vida é uma escola, disso eu não discordo: a gente aprende com os erros… e repete por esporte. (Marcelo Aug)

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Sem Legenda

Eu gosto do teu silêncio quando ele senta do meu lado Porque nem todo sentimento precisa vir legendado Tem gente que fala “eu te amo” sem saber o que dizer Você só encosta em mim e eu já consigo entender Se eu disser que não penso em você, é mentira elegante Você aparece até nas coisas mais insignificantes. No café, na música, no caminho pra casa Meu cérebro te transformou em propaganda que nunca passa E olha que ironia: eu sempre quis alguém que me entendesse Agora você entende demais, e isso me enlouquece Porque eu posso esconder o mundo atrás de um sorriso Mas você olha dois segundos e já sabe o que eu preciso. (Marcelo Aug)

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Escrita em fuga

às vezes — bem às vezes — me visita a vontade antiga de largar tudo, de dissolver meu nome no vento, sem rota, sem bússola, como o garoto de Into the Wild que confundiu liberdade com uma fogueira acesa no peito. há momentos em que penso em desertar desta realidade que aperta o pulmão: a era digital com seus tentáculos luminosos, as vozes artificiais prometendo felicidade de vitrine, os trabalhos que comprimem a alma como se fôssemos parafusos que não podem afrouxar, o falso espírito natalino que tenta me vestir de consumista como quem veste um defunto com flores. irônico escrever isso num celular enquanto mastigo o açúcar melancólico de um chocotone — um ritual moderno, banal, quase litúrgico. talvez eu publique desta vez. ultimamente, escrevo para mim, para esses rascunhos que guardo como pequenos fósseis de quem eu fui, à espera de alguma escavação futura onde eu possa lapidar um verso, revisar uma dor, ou restaurar alguma lucidez extraviada. mas este texto, não. este deixo orgânico, inteiro, sem carpintaria poética, como uma árvore que cresce torta e justamente por isso é mais bela. o ano se arrasta para o fim com a mesma lentidão ritual das marés. eu não faço planos — sou discípulo involuntário do acaso. o amanhã não existe, é apenas um mito educado. e o presente… o presente se faz sozinho, como quem respira apesar de tudo, como quem insiste em florescer mesmo sob o peso da neve. (Marcelo Aug)

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Pedra sem quinas

O mundo adulto é uma cidade onde ninguém abre janelas. Todo mundo carrega no bolso um pequeno deserto pessoal, e rega com café frio para ver se brota alguma esperança. Não brota. No máximo cria raízes de teimosia. É assim que sobrevivemos: de teimosia em teimosia. Dizem que “apanhar fortalece”. Mentira mal contada. Apanhar não lapida; desgasta. Somos pedras que vão perdendo as quinas, ficando lisas, opacas, obedientes. Chamam isso de maturidade. Eu chamo de erosão. (Marcelo Aug)

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Poesia

Lua Turva

saí pra andar tentar desalojar a cachola — mas ela gruda, pesa, uma maré de questões que mastiga minhas sinapses a superlua, laranja-púrpura, escancara a noite mas clareza é luxo que meus pensamentos não têm eles estão turvos, remexendo o fundo da cabeça, fazendo ondas que não tocam margem tudo ou nada uma faca que corta o fio do resto da vida impasses se empilham dúvidas se dobram dilemas se enroscam como arame nos ossos vejo pessoas em suas bolhas de rotina risos em sequência, chope, conversa, calor eu, arrastando passos que rangem autômato de mim mesmo cada cinco metros, um pensamento se contorce, explode, evapora levado pela brisa — ou seria pelo abandono? a lua me olha sem julgamento minha sombra caminha comigo mas pesa mais do que eu cada passo é gravidade invertida cada respiração, fósforo aceso no escuro o mundo segue sorrindo eu sigo sendo sombra ou talvez vento ou talvez nada apenas o arranhar da mente numa calçada que não termina (Marcelo Aug)

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Entre o excesso e a falta

A pobreza não é apenas ausência, é vergonha alheia que transborda pelas ruas. Não só do pobre, que sente o estômago vazio e o frio na pele, mas do rico, que se reconhece cúmplice de um espetáculo cruelmente organizado. Sim, é proposital. A desigualdade não cai do céu, ela se planta, se rega com leis e privilégios, se molda nos contratos que excluem, nas moedas que circulam apenas entre os que já têm. O mundo se parte em dois. De um lado, o excesso que se envergonha por prazer; do outro, a falta que se humilha por necessidade. E entre esses extremos, a moral se dobra, o silêncio se firma, a culpa se disfarça de normalidade. A desigualdade é escárnio. É poema que grita em cifras e cifras de fome, é ironia que se veste de luxo, é crime que recebe aplausos. Quem pode mudar escolhe olhar para outro lado. E quem sofre aprende a sorrir com o nada que sobra. A pobreza não é natural. A miséria não é destino. É invenção. Um pacto silencioso escrito com ouro e sangue, e nós — todos nós — somos obrigados a lê-lo. (Marcelo Aug)

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Poesia

Chuva que pensa

A chuva cai — mas não é água: é o destino pingando dúvidas sobre o guarda-chuva improvisado que chamamos de certeza. As nuvens, cúmplices, carregam o peso do que ainda não sabemos, e mesmo assim prometem liberdade no instante em que rompem e desabam. A vulnerabilidade, então, escorre pelas frestas da pele, e o amadurecimento nasce no desconforto líquido do que molha o pensamento e não pede licença. Porque as lições nunca vêm secas: chegam encharcadas, transbordando perguntas, fazendo poças onde pisamos e reflexos onde evitamos olhar. E no fim, aprendemos que crescer é aceitar que o guarda-chuva protege, mas também aprisiona — e às vezes é preciso fechar a armação, deixar as águas baterem no rosto e permitir que a tempestade revele quem realmente somos. (Marcelo Aug)

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Ranhuras

Fértil minha mente — esse terreno baldio de pensamentos — brota versos como quem tropeça em raízes: uma semente cai, um dente cai, eu também caio um pouco, mas levanto rimando, porque a poesia, mesmo torta, sempre me puxa pela gola. Jogo palavras no ar como quem solta pombas disléxicas: elas levitam, se desencontram, formam constelações improvisadas, e eu, cartógrafo cansado, tento traçar nelas algum sentido. Às vezes arranco o significado pela raiz, às vezes mastigo o verso até virar polpa, cuspo longe, deixo secar ao sol, e ele renasce — mais áspero, mais meu. O sono rasteja, liso, mas eu prefiro o delírio lúcido da madrugada: divago porque a mente é teimosa, revogo pensamentos como decretos de um governo mental falido, o amanhã? — Deus que faça a ata. O hoje? — sei lá, perdi no meio da papelada. Coruja canta como oráculo noturno, o céu estrelado parece manual de instruções de algum deus distraído, e o banho de luar me deixa com cheiro de saudade recém-lavada. Tudo me faz pensar demais — maldição de quem nasceu com peito inflamável e cérebro inflamado. Natal se aproxima com sua diplomacia festiva: luzes piscando, gente sorrindo por protocolo, panetone dividido como se fosse sacramento civil. Ano novo acena, prometendo o que nunca cumpre — mas a gente aceita, porque esperança sempre vence no cansaço. Vinho tinto pra adoçar a noite (ou piorá-la), panetone pra quem gosta (nunca entendi essa fé na uva-passa), e eu? Eu sigo afiando frases, porque algumas pessoas colecionam moedas, outras memórias — e eu coleciono versos que nunca pedi para sentir. (Marcelo Aug)

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O fundo que me engole

Todos os dias me odeio um pouco mais. Pela figura que fui moldando, pelo espectro em que venho lentamente me convertendo. Já não me reconheço no espelho; e quem dera fosse só a superfície — o reflexo é o de menos. Por dentro, apodreço. Nem os abutres me reivindicam, como se até a ruína tivesse rejeitado meu sabor. O buraco, esse arquiteto silencioso, desce mais fundo do que consigo nomear. E a luz — outrora funil, promessa, fio de retorno — apagou-se antes de me alcançar. A saída já não me acende. Fui engolido pelas sombras, e elas, ao contrário de mim, parecem perfeitamente em paz com aquilo que me tornei. (Marcelo Aug)

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Antes que o mundo apague

agora, com ela à beira do adeus, não sei em que porto poderei ancorar; quem será meu alicerce quando o chão voltar a trincar sob meus pés? porque sempre que meu mundo ameaçava ruir, era ela quem se erguia — firme, lúcida, com aquela força serena que parecia contrariar a própria vida. foi apoio constante, farol que não vacilava. e, honestamente, não sei sequer se desejo seguir adiante; encerrar-me depois de sua partida não soa como má negociação com o destino. não vislumbro um arco-íris no horizonte. meu mundo já era acinzentado, mas agora percebo a noite descendo de vez, espessa, definitiva. (Marcelo Aug)

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