Lua Turva
saí pra andar tentar desalojar a cachola — mas ela gruda, pesa, uma maré de questões que mastiga minhas sinapses a superlua, laranja-púrpura, escancara a noite mas clareza é luxo que meus pensamentos não têm eles estão turvos, remexendo o fundo da cabeça, fazendo ondas que não tocam margem tudo ou nada uma faca que corta o fio do resto da vida impasses se empilham dúvidas se dobram dilemas se enroscam como arame nos ossos vejo pessoas em suas bolhas de rotina risos em sequência, chope, conversa, calor eu, arrastando passos que rangem autômato de mim mesmo cada cinco metros, um pensamento se contorce, explode, evapora levado pela brisa — ou seria pelo abandono? a lua me olha sem julgamento minha sombra caminha comigo mas pesa mais do que eu cada passo é gravidade invertida cada respiração, fósforo aceso no escuro o mundo segue sorrindo eu sigo sendo sombra ou talvez vento ou talvez nada apenas o arranhar da mente numa calçada que não termina (Marcelo Aug)
Comentários · 0
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.