Marcelo Aug @Desiludido

Ranhuras

Fértil minha mente — esse terreno baldio de pensamentos — brota versos como quem tropeça em raízes: uma semente cai, um dente cai, eu também caio um pouco, mas levanto rimando, porque a poesia, mesmo torta, sempre me puxa pela gola. Jogo palavras no ar como quem solta pombas disléxicas: elas levitam, se desencontram, formam constelações improvisadas, e eu, cartógrafo cansado, tento traçar nelas algum sentido. Às vezes arranco o significado pela raiz, às vezes mastigo o verso até virar polpa, cuspo longe, deixo secar ao sol, e ele renasce — mais áspero, mais meu. O sono rasteja, liso, mas eu prefiro o delírio lúcido da madrugada: divago porque a mente é teimosa, revogo pensamentos como decretos de um governo mental falido, o amanhã? — Deus que faça a ata. O hoje? — sei lá, perdi no meio da papelada. Coruja canta como oráculo noturno, o céu estrelado parece manual de instruções de algum deus distraído, e o banho de luar me deixa com cheiro de saudade recém-lavada. Tudo me faz pensar demais — maldição de quem nasceu com peito inflamável e cérebro inflamado. Natal se aproxima com sua diplomacia festiva: luzes piscando, gente sorrindo por protocolo, panetone dividido como se fosse sacramento civil. Ano novo acena, prometendo o que nunca cumpre — mas a gente aceita, porque esperança sempre vence no cansaço. Vinho tinto pra adoçar a noite (ou piorá-la), panetone pra quem gosta (nunca entendi essa fé na uva-passa), e eu? Eu sigo afiando frases, porque algumas pessoas colecionam moedas, outras memórias — e eu coleciono versos que nunca pedi para sentir. (Marcelo Aug)

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