Entre o excesso e a falta
A pobreza não é apenas ausência, é vergonha alheia que transborda pelas ruas. Não só do pobre, que sente o estômago vazio e o frio na pele, mas do rico, que se reconhece cúmplice de um espetáculo cruelmente organizado. Sim, é proposital. A desigualdade não cai do céu, ela se planta, se rega com leis e privilégios, se molda nos contratos que excluem, nas moedas que circulam apenas entre os que já têm. O mundo se parte em dois. De um lado, o excesso que se envergonha por prazer; do outro, a falta que se humilha por necessidade. E entre esses extremos, a moral se dobra, o silêncio se firma, a culpa se disfarça de normalidade. A desigualdade é escárnio. É poema que grita em cifras e cifras de fome, é ironia que se veste de luxo, é crime que recebe aplausos. Quem pode mudar escolhe olhar para outro lado. E quem sofre aprende a sorrir com o nada que sobra. A pobreza não é natural. A miséria não é destino. É invenção. Um pacto silencioso escrito com ouro e sangue, e nós — todos nós — somos obrigados a lê-lo. (Marcelo Aug)
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