Marcelo Aug @Desiludido

Escrita em fuga

às vezes — bem às vezes — me visita a vontade antiga de largar tudo, de dissolver meu nome no vento, sem rota, sem bússola, como o garoto de Into the Wild que confundiu liberdade com uma fogueira acesa no peito. há momentos em que penso em desertar desta realidade que aperta o pulmão: a era digital com seus tentáculos luminosos, as vozes artificiais prometendo felicidade de vitrine, os trabalhos que comprimem a alma como se fôssemos parafusos que não podem afrouxar, o falso espírito natalino que tenta me vestir de consumista como quem veste um defunto com flores. irônico escrever isso num celular enquanto mastigo o açúcar melancólico de um chocotone — um ritual moderno, banal, quase litúrgico. talvez eu publique desta vez. ultimamente, escrevo para mim, para esses rascunhos que guardo como pequenos fósseis de quem eu fui, à espera de alguma escavação futura onde eu possa lapidar um verso, revisar uma dor, ou restaurar alguma lucidez extraviada. mas este texto, não. este deixo orgânico, inteiro, sem carpintaria poética, como uma árvore que cresce torta e justamente por isso é mais bela. o ano se arrasta para o fim com a mesma lentidão ritual das marés. eu não faço planos — sou discípulo involuntário do acaso. o amanhã não existe, é apenas um mito educado. e o presente… o presente se faz sozinho, como quem respira apesar de tudo, como quem insiste em florescer mesmo sob o peso da neve. (Marcelo Aug)

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