Monótona aliança, a quem me entregarei?
Que ser suporta a si mesmo sem sucumbir?
Cataclismo, ruína-me, Gato Negro;
Coelho, devolve-me ao tempo que esqueci.
Não me redimas: não há retorno a exigir.
Almejo o Alvoroço - o júbilo sepulto,
a ínfima centelha que em mim já não fulgura.
Que o toque da destruição consuma o vulto
daquilo que chamei de essência e hoje é fratura.
Não me salves. Não me restituas.
Pois não há vilão ou destino
a quem atribuir a origem deste fim.
Se o mundo é apenas o espelho da ruína,
e a dor, o único milagre que há em mim,
não desejo a salvação: eu sou meu próprio Cataclismo.
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Eu Me Rejeitei
Ao reconhecer o fardo de ser meu,
Exilei-me daquele que outrora fui.
Sob o despotismo cego do acaso,
A liberdade se dissolve no ocaso,
E o que julguei ser escolha se dilui.
Negligente. Cindido. Retrógrado.
A vida me constrange e me sentencia:
ESCOLHA! bradam, sem me dar alternativa.
Que liberdade há em negar a própria essência?
Não existo sem negar minha existência.
E se um dia o rejeitado regressar,
Reivindicando o nome que lhe usurpei,
Que rosto há de restar para enfrentá-lo?
Sou o impostor que aprendeu a habitá-lo,
A criatura que o exílio engendrou.
Se o meu princípio reclamar o que é seu,
Não haverá reconciliação, mas ruptura:
O eu que sou perecerá na criatura
Que um dia fui - e que jamais morreu.
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Árduo é contemplar alheia dor,
Mais grave, antever-lhe a cura possível;
Ter luz para o abismo, e, impotível,
Ver perecer o bem sob o torpor
De um mundo à própria salvação insensível.
Não há virtude em suplicar escuta,
Nem glória em se exaurir contra o rochedo.
Há portas que se fecham por decreto,
Há consciências que a própria luz refutam,
Há mãos que fazem do amparo um segredo.
Que vale o ouro em cósmica amplidão?
Que vale a chama ante o universo absorto?
Se a terra nega à semente o seu conforto,
Não culpes a raiz pela negação,
Nem dês teu sangue a ressuscitar o morto.
Pois nem todo dom encontrará abrigo,
Nem toda luz vencerá a resistência.
Há dignidade em renunciar à insistência
E compreender, no derradeiro conflito:
Retirar-se também é um ato de consciência.
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Ajude-me, não pela dor, mas por sua ausência. O vazio, meu antigo confidente, rompeu o pacto do silêncio e deixou-me a sós com a existência.
Gritei seu nome até que as sílabas perecessem: AJUDE-ME. O vazio se afastou de mim. Não foi o mundo que me abandonou, nem foram os homens, tampouco os deuses; foi o nada, a quem tanto confiei, que me negou até a própria solidão.
Eis meu derradeiro infortúnio: não que o vazio tenha partido, mas que, entre tudo o que de mim se ausenta, ele - justamente ele - tenha escolhido afastar-se de MIM.
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Vazia é a mente que escreve quando as palavras já não interrogam o sentido.
Luta-se contra o absurdo,
ordena-se o caos
e a própria ordem desmorona.
Há profecias que perecem antes do amanhã,
homens que regem sem compreender
e ignorâncias que, por não conhecerem o abismo,
chamam-no de felicidade.
E há o vazio:
triste, solitário, quase aprazível.
Porque, às vezes, o nada é mais suportável
que a existência submetida
àqueles que confundem domínio com cuidado.
Compreender não é aconselhar:
é permanecer diante do incompreensível
sem convertê-lo em culpa.
É ouvir sem reduzir a dor,
é não exigir liberdade
de quem jamais pôde escolher.
E quando até o vazio se ausenta,
quando já não resta sequer o nada
onde repousar a consciência,
surge, do fundo do indizível,
a última súplica:
"Ajude-me. O vazio se afastou de mim..."
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Abraço o tudo apenas para esbarrar no nada,
perdido no breu da minha própria clareza;
minha mente, perita em forjar a desordem,
ergue labirintos sobre a própria mesa
e vê meus defeitos triunfarem sobre a leveza.
Escuto a música surda que o caos orquestra:
pressão, progresso, vertigem e recomeço.
A bússola vacila, o eixo se desintegra,
e, ainda assim, amo o abismo que atravesso
esse caos meticuloso ao qual pertenço.
Você não compreende o verso que delineio;
eu tampouco decifro o que em mim se encerra.
De pensador a pensamento, de pensamento a horror,
resta a dor de não saber se o caos me habita
ou se sou eu quem, em silêncio, o governa.
Silêncio...
Deixe o caos reinar.
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Injuriam-se.
Pregam respeito, mas reverenciam estereótipos;
bradam igualdade enquanto elegem
quem merece a dignidade.
“Estamos cansados.”
Eu também.
Somos peregrinos do inferno,
mas exigimos que ele seja civilizado.
Chamamos egoísmo de independência,
covardia de prudência,
indiferença de maturidade.
Companheiros?
Ilusão.
Cada homem ergue ao redor de si
uma fortaleza de vaidades
e denomina liberdade
a solidão entre seus muros.
Vida artificial
a ambição do século:
fabricar máquinas capazes de pensar
enquanto desaprendemos a fazê-lo.
Que prodigioso avanço:
comunicamo-nos com o mundo inteiro
e permanecemos estrangeiros uns aos outros.
Abatido.
Desiludido.
Vencido.
Não pela existência,
mas pela vulgar comédia
a que chamamos civilização.
E, contudo, escrevo.
Ainda penso.
Ainda interrogo.
Porque, se me despojaram de quase tudo,
não lhes concederei a última pilhagem:
a palavra.
Aliás, vida...
Que nome damos a isto?
Talvez viver seja apenas
persistir dentro da contradição,
inventando sentido
para suportar o absurdo.
Não me tirem a escrita.
Não me neguem a poesia.
Não me cerceiem o pensamento.
Se o mundo prefere máscaras,
que me permitam ao menos
arrancar a minha diante do papel.
Eis a derradeira ironia:
somos humanos,
e ainda assim
precisamos aprender a sê-lo.
Imundos.
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O raciocínio é um mar que me afoga na areia;
O excesso de marés me impede de zarpar.
Fragmento emoções em corações de espelho,
Doando a mim mesmo o que temo entregar,
Até me tornar um estrangeiro no que é meu.
Se analiso, paraliso.
A dissecação da cor do cravo,
O cálculo da lágrima, a métrica do luto.
A vida assiste muda ao meu inquérito,
Enquanto a mente e o eco brindam
No salão fechado do meu próprio labirinto.
Dizem que existir é o verbo solto,
Mas tranquei o mundo do lado de fora do crânio.
Se um dia eu entregar a outro ouvido
Tudo o que grita no meu silêncio,
Saberão que a minha razão, enfim, falhou.
Pois enquanto calculo, estou seguro:
O pensamento é a desculpa blindada
Para quem não tem coragem de amar.
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Catalina es la vida que dejamos perder,
Un rostro borrado por la cruel negligencia.
Si marchas muy lejos de tu propia esencia,
Ni a tu propio reflejo podrás conocer.
Pues todo lo que ignoras se vuelve extranjero,
Y un día eres sombra en tu propio sendero.
Faz tanto tempo que me vejo sem tempo,
Perdido no tempo enquanto o tempo esvai.
Quantas vezes busquei aprisionar o tempo,
Mas o tempo negou, pois o tempo se atrai
Pela pressa das horas que não posso frear.
Até o próprio tempo exigiu tempo para respirar.
A rotina engoliu e o meu tempo acabou.
Enquanto eu corria, o tempo voava,
E dentro do tempo que o tempo ditou,
O tempo me olhava, mas não me encontrava.
Queria mais tempo para buscar o tempo
Que sumiu no relógio e virou só lamento.
Os dias desabam, o tempo me esquece,
E eu não entendo por que o tempo me deixa aqui.
Acorrentado ao tempo, a minha mente adoece,
Pensando no tempo que eu teria para mim
Se não gastasse o tempo chorando o tempo que perdi.
Afinal, para que ansiar tanto pelo tempo,
Se o próprio tempo é vendido a cada momento?
Eu só queria um tempo, um breve recanto,
Um tempo onde o tempo fosse um tempo bom.
Mas de tanto pensar em como domar o vento,
Esquece... eu apenas perdi o meu tempo.
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