Imundos
Injuriam-se. Pregam respeito, mas reverenciam estereótipos; bradam igualdade enquanto elegem quem merece a dignidade. “Estamos cansados.” Eu também. Somos peregrinos do inferno, mas exigimos que ele seja civilizado. Chamamos egoísmo de independência, covardia de prudência, indiferença de maturidade. Companheiros? Ilusão. Cada homem ergue ao redor de si uma fortaleza de vaidades e denomina liberdade a solidão entre seus muros. Vida artificial a ambição do século: fabricar máquinas capazes de pensar enquanto desaprendemos a fazê-lo. Que prodigioso avanço: comunicamo-nos com o mundo inteiro e permanecemos estrangeiros uns aos outros. Abatido. Desiludido. Vencido. Não pela existência, mas pela vulgar comédia a que chamamos civilização. E, contudo, escrevo. Ainda penso. Ainda interrogo. Porque, se me despojaram de quase tudo, não lhes concederei a última pilhagem: a palavra. Aliás, vida... Que nome damos a isto? Talvez viver seja apenas persistir dentro da contradição, inventando sentido para suportar o absurdo. Não me tirem a escrita. Não me neguem a poesia. Não me cerceiem o pensamento. Se o mundo prefere máscaras, que me permitam ao menos arrancar a minha diante do papel. Eis a derradeira ironia: somos humanos, e ainda assim precisamos aprender a sê-lo. Imundos.
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