A alma esbarrou para o corpo ceder.
Me fez sorrir sem perceber.
Relembrou um poema.
Refez o meu sorriso largo sem dilema.
Soltamos uma risada de cumplicidade.
Em um olhar apertado, abrigamos saudade.
Apenas uma esperança despretensiosa.
Com um risco, criou a minha própria rosa.
O talento de descartar o próprio vazio, para entregar a minha verdade.
Por segundos, o seu girassol nomeou o acaso de felicidade.
Contornou o passado através do whisky.
Recitou os meus desejos ultrapassados.
Testemunhei contra as suas premissas.
Falhou em uma estrofe, negando o verso.
Estraguei a roseira com uma falsa velatura.
Admitimos a própria oposição na arte.
O tempo era o nosso estandarte.
O reencontro de laços esquecidos.
Criamos uma composição sem acordes.
A expressão de seus olhos verdes revelavam a surpresa de ainda sermos iguais.
Agarramos ao rascunho quase perdido.
Um último olhar quebrou a esperança.
Abandonamos a luz na estante.
O futuro abdicou do presente.
Por uma noite, uníssonos enganados pelo tempo.
Eternamente castigados pelo momento.
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Eu não pude te chamar de amor, seria mentira dizer que ainda existiam resquícios de um calor finito, mesmo assim me ludibriei em tuas chamas sem remate. Contudo, ainda lembro de ti como o meu soldado, aquele que pela primeira vez arremessou o meu cristal no ar, primeiro trincou as extremidades, depois tentou remendar sem jeito, de súbito os transformou em cacos, em desespero recorreu a uma colagem e novamente, os destroçou em pontos milimétricos.
Poderia escrever um poema, rimar sobre o passado, montar estrofes acompanhando as métricas corretas, porém, com o tempo eu pude aprender que nem tudo se transforma em verso, por vezes é melhor sentir sem camuflar.
Desde o princípio essa escolha foi remendada por meses, até que não conseguisse mais carregar os pedregulhos desse coração pioneiro. A primeira paixão de uma mulher saltita entre memórias, talvez haja arrependimentos, mas sempre com um toque de doçura e amargor, através de um amor desconhecido no qual se descobre nunca conhecer alguém de fato, e muito menos a si mesmo.
Nunca fui de prosa, os poemas sempre me escolheram entre as suas intensidades, entretanto, quando não há o que mais sentir, ou não se sabe como organizar cada fagulha para evitar um incêndio, é melhor prosear sobre o que não se sabe, até que um dia releia e aceite jamais saber, para assim viver em paz.
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Em um compasso o coração bombeava vida.
De súbito, um tropeço descompassou as batidas.
Presenteava-se com um suspiro de cansaço.
No outro dia, continuava com dois passos adiantados.
Casca obsoleta de um passado ininterrupto.
Abdicou de suas soluções
Reviveu outras questões.
A teoria em prática indolor.
O cristal fragmentado, sem esperança para brilhar.
O pleonasmo preso ao abstrato.
Há dias chorou como se fosse infinito.
Amargurou a vida como se respirar fosse eterno.
Caminhou mais.
Tropeçou mais.
Bombeou mais.
Pediu mais.
Recebeu mais.
Reclamou mais.
Amargurou - se mais.
Sorriu de menos.
Arrependeu-se tarde.
Remoeu-se no leito.
Pediu perdão sem tempo.
Antes que as lágrimas caíssem,
faleceu no ponto sem demora.
Não era cedo demais.
Apenas tarde.
O cessar exato, para assim evitar lamentações.
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Desmorone a lágrima sem pressa.
Despenque o pranto em um milésimo.
Abdique do realismo calculado.
Libere o coração prensado.
Triture todos os nós do passado.
Repreenda o racional.
Perca-se na hipérbole ultrapassada.
Os medos surgem sem regras.
Ilusão repreender ao próprio oceano.
O marejo egoísta de uma casca.
As janelas estão fechadas.
Os sorrisos em abstinência.
Uma mente sem consciência.
Adormeceu para esquecer.
Sonhou para não enlouquecer.
A esperança cativada em lamento.
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A brisa calorenta cheia de gracejo,
contornou a face sem desejo.
O toque de mil vidas abrigadas em uma onda sem tempo.
Se pudesse, questionaria as raízes de um fato.
Desmistificaria a verdade através de um conto.
Costuraria flores com os meus lampejos de lucidez.
Me deslocaria sobre a alvidez da melancolia.
As lágrimas são ácidas em noites de luar partido.
Amedrontador o sentimento acolhido.
O amor recorta.
O ar acata.
O fulgor torna fuligem.
No mar se alastra, até que um dia não suporte a própria finitude.
Com pesar, expulsa a intrínseca solitude.
Abandonando sobre o solo o seu disparate oculto,
para tornar-se poeira sem intuito.
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O fascínio do pretérito perfeito.
O temor de um caminho incerto.
Quem há de viver sem medo?
O fracasso em uma página sem palavras, contemplando uma razão concreta.
Agarro ao coração áspero.
Mais uma vez, presa ao vespeiro de pensar.
Me abrace por uma vida inteira, ou me abandone sem um remate suficiente.
É mais fácil responder sem encarar o espelho.
O meu olhar de madeira, tornou-se vermelho.
Em poesia compactuo com o escarlate de esperança.
Perante a realidade, necessito da contradição em um azul marfim.
Apenas mais uma estrofe.
Sustentada por um verso queimado.
Alastrada por inspirações obtusas.
Desde que não me falte ar, deixo registrado um anseio alarmado.
O meu mercúrio destilado.
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O lar, era o início no seu olhar.
A paixão abrigando a ingenuidade.
Perdida entre o conceito da realidade.
Tentou driblar o sentimento.
Os versos em um revólver de engano.
A poesia germinou o próprio dano.
Um coração ainda virgem.
Semeara a curiosidade da ilusão.
Alastrou-se durante o verão.
Apenas não compreendia o início.
A metade do caminho de confusão.
No fim, encontrou o ponto.
Depois encarou as reticências.
Retomou o silêncio.
Não quis escrever.
Desejou chorar.
Não havia rima.
Apenas a lágrima furtada.
A paixão derramada.
Um coração alarmado.
Uma mulher recortada.
Mais um poema sem remate.
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Desejo esvanecer a própria palavra.
Sem letra me contenho.
Mamãe dizia: "As palavras ecoam pela eternidade."
A poesia perpétua.
Qual seria o risco do amor senão a traição?
Sujeitar-se ao ataque truculento de ser destruído.
Guardar a esperança de ser guardado.
Ignorante o poeta que crê no verso.
As noites escaneiam a mente perversa.
Olhar metálico emaranhado ao balbuciar de uma oração.
Em silêncio todos os sonhos fervem e os receios rastejam.
Pensamentos sufocados por linhas.
O pranto de uma madrugada sem remate.
Se eu fosse o próprio âmago, remendaria a alma.
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A confiança é uma navalha cravada nas costas, entre a paralisia e a fatalidade.
O risco de criar fulgor com vulnerabilidade.
Crer no achismo de um olhar.
Os sinais estão nas frestas; nas lágrimas não contidas durante a madrugada.
Vedaria meu laço para não entregar o meu pedaço.
Infortúnio é a esperança involuntária de um coração incapaz de ser lar.
Aquele que não foge de sua pele,
flagra o âmago em fuga.