Foto de Ventania

Ventania

@ventania · desde 2018

Adestrei-me com o vento e minha festa é a tempestade. - Cecília Meireles

234 poemas 336 seguidores 142 seguindo

Seguir

Aquecimento

procuro, abestalhada, sentidos acho, sem querer, ilusões e vivo disso. não é uma corrida, mas mesmo assim me aqueço — e se for? cronometro. sem fôlego, sem pódio, sem tempo para o medo. ponteiros me nauseam, faço contas, rasgo folhas, estupidamente dispersa, fatalmente incerta, infelizmente eu. - Ventania

Continuar lendo

Escreves?

não tenho escolha: a poesia me cativa. quanto mais eu escrevo, tanto mais eu escrava. - ventania

Carinho

Versos de Despensa

Me perfumo de ervas finas, Exagero na pimenta, Me recubro de colorau, E de nada vale minha carne. Cortam, mastigam e cospem: Continua me faltando o sal. --- De mim, não mais que poucas gotas: Senão, amargo arrepender-se. Sentem o retrogosto no final! Bem pior que não substituir: Faço recordarem, saudosos, As delícias do açúcar cristal. --- Você me olha, castigador, Larga minha cintura fina, Me acusa de sem graça, Diz que queimei tua língua. Chama-me aguada e deprimente: Maldição de café sem cafeína. --- Me acostumei à despensa, Fico no aguardo da tua fome. Repouso na poeira, grito seu nome. Qualquer dia você vem, afetuoso, Me morde até cansar, e, farto, Dispensa-me e some... - Ventania

Continuar lendo

Espetacular

Da plateia, tu percebes? Sou a capa do panfleto, O motivo da sua vinda. Dessa peça, sou a estrela. Eu brilho, me mostro, estreio. Ato após ato, virtuosa, me desfaço. Entro em cena conforme o ensaio. Não perco a deixa, não esqueço a fala. São apenas figurinos, e deslumbro. São simples beijos técnicos, e convenço. Não passa de cenário, e me encaixo. Na comédia, na tragédia, eu me expresso. Decoro, com perfeição, o roteiro. Todo necessário passo em minha face. O espetáculo é o meu corpo inteiro. Vedete, agrado-te em pura classe. Ao final, curvo-me diante do público, Recebo os aplausos dirigidos a mim. E, claro, quando as cortinas se fecham, Choro, apavorada, sob as luzes do camarim. Da plateia, se perceberes, Haverá de concordar: Sou atriz, e não sou ruim. - Ventania

Continuar lendo

Primeira Leitura

Vestiu-se de Eva, a primeira mulher, Mas sentia usar o couro da serpente. A doçura da maçã preenchia-lhe a boca, E a nódoa mundana pregava-lhe os olhos. Passou rápido pela figura no vidro. Girou o registro numa tentativa de reza. O cabelo, seu véu, escorria feito seda. Abaixou-se, silenciosa, em quase vênia. Acentuava suas escápulas o corpo curvo, Resquícios involuídos de asas angelicais. A água benta era termal, mas vinha do céu, E o turíbulo enchia o ambiente de vapor. Gritá-la era vão: enquanto a água corresse, Não haveria nome que pudesse chamá-la. Isso, porém, somente ela, no seu ser, sabia. Ela estava renascendo, sacramentando. Via as coisas do mundo dissolvendo-se: A sujeira espumosa ia descendo ao inferno, E em seu lugar ficava o aroma de olíbano. Seu choro foi o amém, e o rito se findou. Secou-se, ungiu-se, tornou a se revestir de si, E teve a certeza de que nada, nada, é mais sagrado que o perdão. Ela era tão quase uma santa, tudo fora tão próximo de um batismo, que este relato é mais litúrgico que poético; é mais Palavra do que palavra. - Ventania

Continuar lendo

Majestade

Teus olhos azuis da Prússia Escondem algum segredo De velhos impérios caídos, De guerra, de morte, de medo Tua esclera tem malhas De sangue de inimigos Derramado em batalhas Ao som de metálicos tinidos Eu te vejo, coroado, Ordenando invasões Alimentando teu ego Com tuas vis ilusões Mas teu cristalino transpassa A luz do seu rápido fracasso, A sua frustrada ambição, A derrota como desgraça Apiedo-me, até sinto tristeza, Como se eu fosse a rainha Desse teu império caído, Parte dessa pobre nobreza E me vem uma vontade... Vislumbro a última cruzada... Polir-te o brasão dourado... Fazer-te, de novo, majestade. - Ventania -

Continuar lendo

Meu Rio Baixo

Meu rio baixo, alcance-me! Busque-me no profundo oceano em que a f o g o. Corra... puxe-me, quero voltar para a nascente, brotar novamente do olho que me chorou. Em nome de todos os santos para os quais supliquei socorro, resgate-me com tua rasa correnteza. Leve-me, pelo teu fluxo suave de rio assoreado, aos caminhos sinusoidais dos vales de onde saí. Se não chegares a tempo, carregue meu corpo rígido num funeral em curso, e cubra-o com os sedimentos do teu assoalho — só não me deixe aqui. Veja que tudo parece petróleo, e eu não desejo integrá-lo. Prefiro os sais do meu rio baixo à doçura de morrer no mar (corra...). - Ventania

Continuar lendo

Noite Febril

eu não confio em mim. embaralho as realidades, eu imagino até sentir, até confundir meus mundos tua mão pesada e mansa tocando meu coração... desejos de noite escura ou simples alucinação? eu não sei, eu não sei. só estou certa do suor... era real? era ilusão? o que era? era amor? perco-me nos absurdos, caio em nossas fantasias, eu sonho, sonho muito — será que eu vivo? por isso, bem agora, ao lembrar (?), pergunto-me o que (se) aconteceu, o que era nós, o que era eu o mundo vazio e calado com você bem perto... momento de fascínio ou sonho indesperto? não distingo entre as sombras e os corpos, o que sai de dentro, o que vem de fora... ouço os estalidos do toque que ecoavam entre a gente: não havia sono. havia sonho? crepitava em sua pele quente agora, esfrio na saudade: eu inventei o meu mal? padeço em minha vontade, gelifico abaixo de 40 graus mas se não era sua mão, se sobrepus irrealidades naquela longa noite febril, agora me dói de verdade: pois era noite de lua nova, pois o mundo estava vazio, pois seu carinho era gentil, pois seu peito era alcova eu não confio em mim. diga, eu sinto o teu beijo? eu invento? eu alucino? eu acordo? eu lhe vejo? se é delírio... se é memória... o que muda no fim? no fundo, não importa: foi o sonho mais sublime que eu já mais vivi. - Ventania -

Continuar lendo

A Espera

Oh, céus! Mais uma xícara trincada! Parece-me um raio! Raios! Outro caco que me fura. Quanto sangue. No caco, sim. Em mim, menos. Outra xícara. Qual é esta? Me falham as contas. Nunca contei bem. Mas ia lhe contar. Hoje mesmo. Antes da xícara quebrar. Mais uma! Oh, sim... O sangue. Ai, como arde! Arde muito, É tão fundo. A ferida não. O que ia te contar. Arde. A ferida cicatriza. Cicatriz como aquele Raio na xícara. Raio de xícara! Para que cair? Justo agora. Agora? O relógio. Isso são horas? Já já ele chega... Não chega? Tenho chá, Não tenho xícara. O que lhe servir? Talvez nada queira, Deve estar só passando. Passa rápido. Vem ver como estou. Estou bem. Apesar do corte. Será que vem? Melhor acalmar os nervos. Um bom chá resolve. Há de haver alguma xícara. Tenho cacos. Melhor tirá-los. Agora sim. O chá! É claro que ele vem. Por que não viria? Arde. Está quente! Muito quente! Ah, não! Mais uma xícara trincada. - Ventania

Continuar lendo

Só Conferindo

Aperto sua mão contra a minha para ter certeza que ainda está aqui mesmo que eu, constantemente, aperte sua mão contra a minha para ter certeza que ainda está aqui. - Ventania

Continuar lendo