procuro, abestalhada, sentidos
acho, sem querer, ilusões
e vivo disso.
não é uma corrida,
mas mesmo assim me aqueço
— e se for?
cronometro.
sem fôlego, sem pódio,
sem tempo para o medo.
ponteiros me nauseam,
faço contas, rasgo folhas,
estupidamente dispersa,
fatalmente incerta,
infelizmente eu.
- Ventania
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não tenho escolha:
a poesia me cativa.
quanto mais eu escrevo,
tanto mais eu escrava.
- ventania
Me perfumo de ervas finas,
Exagero na pimenta,
Me recubro de colorau,
E de nada vale minha carne.
Cortam, mastigam e cospem:
Continua me faltando o sal.
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De mim, não mais que poucas gotas:
Senão, amargo arrepender-se.
Sentem o retrogosto no final!
Bem pior que não substituir:
Faço recordarem, saudosos,
As delícias do açúcar cristal.
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Você me olha, castigador,
Larga minha cintura fina,
Me acusa de sem graça,
Diz que queimei tua língua.
Chama-me aguada e deprimente:
Maldição de café sem cafeína.
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Me acostumei à despensa,
Fico no aguardo da tua fome.
Repouso na poeira, grito seu nome.
Qualquer dia você vem, afetuoso,
Me morde até cansar, e, farto,
Dispensa-me e some...
- Ventania
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Da plateia, tu percebes?
Sou a capa do panfleto,
O motivo da sua vinda.
Dessa peça, sou a estrela.
Eu brilho, me mostro, estreio.
Ato após ato, virtuosa, me desfaço.
Entro em cena conforme o ensaio.
Não perco a deixa, não esqueço a fala.
São apenas figurinos, e deslumbro.
São simples beijos técnicos, e convenço.
Não passa de cenário, e me encaixo.
Na comédia, na tragédia, eu me expresso.
Decoro, com perfeição, o roteiro.
Todo necessário passo em minha face.
O espetáculo é o meu corpo inteiro.
Vedete, agrado-te em pura classe.
Ao final, curvo-me diante do público,
Recebo os aplausos dirigidos a mim.
E, claro, quando as cortinas se fecham,
Choro, apavorada, sob as luzes do camarim.
Da plateia, se perceberes,
Haverá de concordar:
Sou atriz, e não sou ruim.
- Ventania
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Vestiu-se de Eva, a primeira mulher,
Mas sentia usar o couro da serpente.
A doçura da maçã preenchia-lhe a boca,
E a nódoa mundana pregava-lhe os olhos.
Passou rápido pela figura no vidro.
Girou o registro numa tentativa de reza.
O cabelo, seu véu, escorria feito seda.
Abaixou-se, silenciosa, em quase vênia.
Acentuava suas escápulas o corpo curvo,
Resquícios involuídos de asas angelicais.
A água benta era termal, mas vinha do céu,
E o turíbulo enchia o ambiente de vapor.
Gritá-la era vão: enquanto a água corresse,
Não haveria nome que pudesse chamá-la.
Isso, porém, somente ela, no seu ser, sabia.
Ela estava renascendo, sacramentando.
Via as coisas do mundo dissolvendo-se:
A sujeira espumosa ia descendo ao inferno,
E em seu lugar ficava o aroma de olíbano.
Seu choro foi o amém, e o rito se findou.
Secou-se, ungiu-se, tornou a se revestir de si,
E teve a certeza de que nada, nada, é mais sagrado que o perdão.
Ela era tão quase uma santa, tudo fora tão próximo de um batismo, que este relato é mais litúrgico que poético; é mais Palavra do que palavra.
- Ventania
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Teus olhos azuis da Prússia
Escondem algum segredo
De velhos impérios caídos,
De guerra, de morte, de medo
Tua esclera tem malhas
De sangue de inimigos
Derramado em batalhas
Ao som de metálicos tinidos
Eu te vejo, coroado,
Ordenando invasões
Alimentando teu ego
Com tuas vis ilusões
Mas teu cristalino transpassa
A luz do seu rápido fracasso,
A sua frustrada ambição,
A derrota como desgraça
Apiedo-me, até sinto tristeza,
Como se eu fosse a rainha
Desse teu império caído,
Parte dessa pobre nobreza
E me vem uma vontade...
Vislumbro a última cruzada...
Polir-te o brasão dourado...
Fazer-te, de novo, majestade.
- Ventania -
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Meu rio baixo,
alcance-me!
Busque-me no
profundo oceano em que
a
f
o
g
o.
Corra... puxe-me,
quero voltar para a nascente,
brotar novamente do olho
que me chorou.
Em nome de todos
os santos para os
quais supliquei socorro,
resgate-me com tua
rasa correnteza.
Leve-me, pelo teu fluxo suave de rio assoreado, aos caminhos sinusoidais dos vales de onde saí. Se não chegares a tempo, carregue meu corpo rígido num funeral em curso, e cubra-o com os sedimentos do teu assoalho — só não me deixe aqui. Veja que tudo parece petróleo, e eu não desejo integrá-lo. Prefiro os sais do meu rio baixo à doçura de morrer no mar (corra...).
- Ventania
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eu não confio em mim.
embaralho as realidades,
eu imagino até sentir,
até confundir meus mundos
tua mão pesada e mansa
tocando meu coração...
desejos de noite escura
ou simples alucinação?
eu não sei, eu não sei.
só estou certa do suor...
era real? era ilusão?
o que era? era amor?
perco-me nos absurdos,
caio em nossas fantasias,
eu sonho, sonho muito
— será que eu vivo?
por isso, bem agora,
ao lembrar (?), pergunto-me
o que (se) aconteceu,
o que era nós, o que era eu
o mundo vazio e calado
com você bem perto...
momento de fascínio
ou sonho indesperto?
não distingo entre
as sombras e os corpos,
o que sai de dentro,
o que vem de fora...
ouço os estalidos do toque
que ecoavam entre a gente:
não havia sono. havia sonho?
crepitava em sua pele quente
agora, esfrio na saudade:
eu inventei o meu mal?
padeço em minha vontade,
gelifico abaixo de 40 graus
mas se não era sua mão,
se sobrepus irrealidades
naquela longa noite febril,
agora me dói de verdade:
pois era noite de lua nova,
pois o mundo estava vazio,
pois seu carinho era gentil,
pois seu peito era alcova
eu não confio em mim.
diga, eu sinto o teu beijo?
eu invento? eu alucino?
eu acordo? eu lhe vejo?
se é delírio... se é memória... o que muda no fim? no fundo, não importa: foi o sonho mais sublime que eu já mais vivi.
- Ventania -
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Oh, céus!
Mais uma xícara trincada!
Parece-me um raio!
Raios!
Outro caco que me fura.
Quanto sangue.
No caco, sim.
Em mim, menos.
Outra xícara.
Qual é esta?
Me falham as contas.
Nunca contei bem.
Mas ia lhe contar.
Hoje mesmo.
Antes da xícara quebrar.
Mais uma!
Oh, sim...
O sangue.
Ai, como arde!
Arde muito,
É tão fundo.
A ferida não.
O que ia te contar.
Arde.
A ferida cicatriza.
Cicatriz como aquele
Raio na xícara.
Raio de xícara!
Para que cair?
Justo agora.
Agora?
O relógio.
Isso são horas?
Já já ele chega...
Não chega?
Tenho chá,
Não tenho xícara.
O que lhe servir?
Talvez nada queira,
Deve estar só passando.
Passa rápido.
Vem ver como estou.
Estou bem.
Apesar do corte.
Será que vem?
Melhor acalmar os nervos.
Um bom chá resolve.
Há de haver alguma xícara.
Tenho cacos.
Melhor tirá-los.
Agora sim.
O chá!
É claro que ele vem.
Por que não viria?
Arde.
Está quente!
Muito quente!
Ah, não!
Mais uma xícara trincada.
- Ventania
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Aperto sua mão contra a minha
para ter certeza que ainda está aqui
mesmo que eu, constantemente,
aperte sua mão contra a minha
para ter certeza que ainda está aqui.
- Ventania
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