Ventania @ventania

Primeira Leitura

Vestiu-se de Eva, a primeira mulher, Mas sentia usar o couro da serpente. A doçura da maçã preenchia-lhe a boca, E a nódoa mundana pregava-lhe os olhos. Passou rápido pela figura no vidro. Girou o registro numa tentativa de reza. O cabelo, seu véu, escorria feito seda. Abaixou-se, silenciosa, em quase vênia. Acentuava suas escápulas o corpo curvo, Resquícios involuídos de asas angelicais. A água benta era termal, mas vinha do céu, E o turíbulo enchia o ambiente de vapor. Gritá-la era vão: enquanto a água corresse, Não haveria nome que pudesse chamá-la. Isso, porém, somente ela, no seu ser, sabia. Ela estava renascendo, sacramentando. Via as coisas do mundo dissolvendo-se: A sujeira espumosa ia descendo ao inferno, E em seu lugar ficava o aroma de olíbano. Seu choro foi o amém, e o rito se findou. Secou-se, ungiu-se, tornou a se revestir de si, E teve a certeza de que nada, nada, é mais sagrado que o perdão. Ela era tão quase uma santa, tudo fora tão próximo de um batismo, que este relato é mais litúrgico que poético; é mais Palavra do que palavra. - Ventania

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