Dizem: mate um leão por dia,
como quem dá solução
Mas nunca contam daquelas
que viram o próprio leão.
Há quem regresse da mata
Sem ferida ou arranhão
Eu volto cheia de folhas
de espinhos e exaustão.
Nasci caminho torto
Em mundo feito em linha reta
precisei crescer fera
antes mesmo de ser poeta.
Rasgo o vento com a voz
até a montanha ceder.
Não porque goste do grito,
mas porque no rugido
A floresta aprende a tremer.
Não visto a pele da fera
a fera é que veste a minha
Quem nasce fora do traço
aprende cedo a andar na linha.
Hoje caminho entre galhos
e não peço permissão
Não matei leão algum
tornei-me o próprio leão.
- Para aquelas que aprenderam a rugir antes mesmo de aprender a falar.
R. H
15/06/2026.
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Traziam no corpo o gosto do mar
e o vento a brincar nos cabelos
enquanto a tarde, prestes a findar
tecia ouro nos últimos novelos.
À beira d'água surgiu uma visão
branca de sol, de varanda e demora
e alguém a guardou no coração
como quem salva no fundo a memória.
Então falou de um tempo por vir
com a doçura das coisas sem pressa
como se fosse simples repetir
o encontro feliz daquela promessa.
Seguiram depois pelo mesmo caminho,
levando areia, silêncio e calor
sem perceber que naquele cantinho
o futuro prendia o tamanho do amor.
Vieram os risos, a roupa trocada
a noite espalhada em mesa e luz
mas ficou na lembrança bordada
a delicadeza que o tempo conduz.
Mas a memória é artesã caprichosa, afinal
não se curva ao brilho raro do acontecimento
recolhe as conchas pequenas deixadas pelo temporal
e faz delas morada contra o esquecimento.
- À guardiã de alguns dos meus horizontes mais bonitos, que ainda habita certos trechos da orla dentro de mim.
R&J.
07/06/2026.
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Cheguei com o corpo em desalinho
como quem sustenta o dia no fim
Havia um cansaço muito antigo
Morando dentro de mim.
A gira rodava seus ventos
o canto subia do chão
e eu carregava perguntas
Barulhando no coração.
Pedi só limpeza no ori
dessas que clareiam o olhar
Mas antes da reza me tocar
mandaram um banco chegar.
Madeira pequena, quase nada
um detalhe perdido no congá
Passei tanto tempo pedindo licença
pra existir sem ferir o lugar
que desaprendi como é a presença
de ser cuidada sem precisar falar.
E há noites em que o sagrado responde
sem clarão, sem voz, sem trovão.
Só ajeitou silêncio pro meu corpo
e fez do cuidado uma oração.
28/05/2026.
-Poema dedicado a Baiano Severino, que alcançou o que o espírito pediu e o que o corpo precisou.
Salve nossas forças♿️🤍🌿
R.H.
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Um dia desses fui mar
sem saber que estava indo
meu amor ao lado a olhar
o horizonte se abrindo.
As ondas vinham lentinhas
com seu rumor de oração
e o céu bordava as tardinhas
dentro do meu coração.
Havia um balanço enfeitado
de girassóis sobre a areia,
como um sonho improvisado
que o vento amarelo semeia.
E nós, pequenas no mundo
sentadas diante do azul
vendo o infinito profundo
beijar o nordeste e o sul.
Bebíamos tarde e maresia
em copos frágeis de verão
mas havia uma delicadeza
fazendo morada nas mãos.
Ela sorria tão leve
e eu repousava, enfim
como a maré que descansa
depois de voltar pra si.
As horas não tinham peso
nem medo de ir embora
o amor era só um aceso
de sol queimando a hora.
Depois vieram partidas
silêncios, distância e cais
essas marés divididas
que o tempo inventa demais.
Mas ainda encaro o oceano
quando o peito quer falar
e mesmo longe, te amo
com todo meu jeito de mar.
-Para a cidade onde o vento nos guardou.
Fortaleza, maio de 2025.
R&J.
18/05/2026.
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O amor vinha contente
feito chuva no verão
abria flor nas manhãs
Dava paz no coração.
Tinha luz no olhar sereno
dessas que fazem pequeno
todo medo da solidão.
Mas o amor se perdeu
num inverno sem calor
caiu cansado na estrada
machucado pela dor.
Pensou: “não vou suportar”,
pois quem veio lhe quebrar
foi a mão do próprio amor.
O amor então caiu
na pedra fria do chão
machucou fundo o silêncio
rasgou inteiro o pulmão
Achou que ali morria
que nunca mais voltaria
a florescer sua mão.
Só que um dia, de mansinho
o amor voltou também
num sorriso inesperado
num gesto simples de bem.
E o peito, antes ferido
sentiu que ainda é querido
e quis respirar além.
Porque só o amor alcança
o lugar que ele feriu
só ele entende o silêncio
do coração que partiu.
E embora ande devagar
o amor voltou a ficar
de pé depois que caiu.
R&J.
14/05/2026.
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Que o tempo lave o que já se desfez,
e o rio guarde o que soube existir,
como prece antiga que a água refez,
em doce silêncio que insiste em florir.
Há mãos invisíveis que sabem guiar,
no sopro leve que ensina a esperar,
como guia manso que toca sem falar,
e acende no corpo o que aprende a ficar.
Que venha em doçura do mel de Oxum,
escorrendo lento sem medo de ser,
mas traga no fundo a força que é comum
de quem, mesmo calma, não teme arder.
Que seja como as águas de cachoeira,
que caem serenas, mas sabem tocar,
e leve no pulso a onda inteira
que quebra feroz sem deixar de amar.
Que exista em presença que ousa mostrar
o que vibra inteiro sem se dividir,
em braços que sabem também repousar
em outros que chamam para se permitir.
Que seja afeto que não quer medir,
carinho que escorre sem se conter,
um dar que se expande no simples sentir
e encontra no outro um modo de ser.
Que deixe o espaço do voo e do chão,
do só que respira e do junto que é calor,
liberdade viva na mesma extensão
de quem não se perde no gesto de amor.
Que traga na intensidade um centro de paz,
como queda d’água que canta ao cair,
e mesmo no excesso um ponto capaz
de, em calma profunda, ainda existir.
Que venha em beleza que não se desfaz,
forma que pulsa sem se explicar,
como quem ama a vida e ainda é capaz
de, em cada instante, recomeçar.
Que faça de si um caminho melhor,
lapidando o gesto de amar sem temor,
e que ao se encontrar, em laço maior,
seja digna inteira de todo esse amor.
E quando esse encontro enfim acontecer,
sem pressa, sem medo, sem dor,
que o amor merecido consiga reconhecer
em quem o recebe o que pede o amor.
Que haja verdade no que se constrói,
sem falta, sem medo, sem se perder,
e nessa troca que une e não dói,
uma torne a outra melhor ao viver.
Que o amor que eu mereça me encontre
E que eu seja o amor que ela mereça.
R.H
💛❤️
22/04/2026.
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Havia um inverno em pleno Novembro
E um gesto suspenso que não se cumpriu,
Teu nome calado na borda do tempo,
E o mundo, de súbito, se contraiu.
As horas passaram em passos contidos,
Como quem pisa pra não se envolver,
E o frio do nada
Tão bem calculado
Soube, exato, onde me doer.
Nenhuma palavra, nenhum desengano,
Só o vazio polido entre nós,
E esse silêncio, tão firme e tão frio,
Que apaga meu rastro e dissolve minha voz.
Cem anos se passam em cada segundo,
De quem é julgada por só reagir,
Enquanto o delito caminha impune,
E eu sigo presa por ainda sentir.
Teu não foi ausência, foi quase presença,
Um corte sutil que ninguém pode ver,
Mas feito de gelo, de esquiva e distância,
Ensinou meu afeto a se recolher.
E eu, que só era um impulso sincero,
Virei desmedida, excesso, senão,
Pois onde não houve sequer um ruído,
Nasceu uma injusta condenação.
Pela reação houve julgamento
Cumpro pena desde então
numa cela feita de silêncio e ausência
Condenada a cem anos de solidão.
J.
10/04/2026.
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Partir não foi deslocar o corpo.
Foi ajustar a órbita.
Entre o que poderia ter sido
e o que é,
há um campo aberto.
E nele,
eu.
R&J
26/02/2026
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Preciso então buscar a paz
Não aquela paz que encontro em você
Mas sim aquela que encontro apesar de você.
Preciso ver o que há além de mim
O que existe além de você
Encontrar outros portos, que sejam também seguros, e de fato seguros.
Preciso ver o sol nascer e se por de outros ângulos
Em outras companhias
Em outros lugares
Embora quisesse vê-los com você.
Preciso então encontrar a vida
Vida essa que até então disparou e depois, estacionou com a tua chegada.
Preciso então buscar outros cheiros
Outros gostos
Outros risos
Embora fossem só os seus que quisesse ter.
Preciso ver o que ainda consigo fazer por mim
E o que terei que reaprender.
Preciso entender como seguir
Já que eu sou a única responsável por me tirar desse lugar escuro que entrei
Você não virá me buscar
Embora eu quisesse.
Preciso ir atrás de mim, e me colocar na vida novamente
Com uns pedaços faltando, outros novos pedaços bonitos
Você me fez um mosaico.
Preciso entender umas coisas
E deixar de querer entender tantas outras
Que dispensam explicações.
Preciso me querer bem
Tanto te quis que não sobrou nada para mim.
Preciso viver novidades
E gostar delas, mesmo que você não esteja presente.
Vou então em busca de paz
A cura não vem do mesmo lugar que o golpe
Ela floresce onde a ferida não mais alcança.
R.H
12/10/2025.
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De repente o mapa dos dias
Tinha portas demais.
Começa simples, mas de repente devo partir as pressas, de onde já fiz abrigo.
Parecia tudo igual
O ambiente, as pessoas
O mesmo desenho de luz caindo no chão
Mas havia um deslocamento nas coisas
Como se alguém tivesse movido o mundo alguns centímetros fora do eixo
E só eu tivesse percebido.
Nessa nova atmosfera, ficar exige mais coragem do que partir.
Quando o espaço começa a esvaziar
Meu corpo já procurava mapas invisíveis
Calculando trajetos silenciosos
Medindo o tempo antes que seja vista
Como quem aprende a atravessar ruas perigosas.
Peguei a mochila como quem pega um casaco
antes que o frio admita seu nome.
Caminhei até a porta
com a calma treinada dos fugitivos
que não querem ser vistos correndo.
Fora, a cidade abriu seus pequenos esconderijos.
A esquina que dobra o campo de visão,
o reflexo do vidro que impede o encontro direto,
os pequenos buracos do cotidiano
onde alguém pode caber inteira
sem precisar explicar a própria ausência.
Houve um instante em que a realidade quase me alcançou
um gesto comum
dessas gentilezas que antes eram abrigo
e agora são buracos abertos
no chão da memória.
Sorri rápido
uma dessas despedidas que são quase senha
e atravessei a rua
como quem encontra
um alçapão invisível.
Desde então
ando estudando arquitetura
catalogo passagens laterais,
aprendo a dobrar esquinas por dentro,
descubro como caber
em frestas de rotina
onde ninguém chama meu nome.
alguns abrigos quando deixam de existir
continuam de pé apenas como miragem.
Há um tipo de saudade
que não pede retorno
pede apenas distância suficiente
para que o coração não precise
se defender o tempo todo.
E assim sigo
colecionando saídas
aprendendo novas formas de não estar
porque às vezes amadurecer
é aceitar que certos lugares
continuam bonitos
mas já não são seguros para permanecer.
R&J.
06/02/2025.
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