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Rafa

@poetadegaveta08 · desde 2021

"A tinta do poeta é o seu próprio sangue, quem não sangra não faz poesia" aspirante a poetisa escrevendo a verdade do que sente Plágio é CRIME!

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Poema

Leão

Dizem: mate um leão por dia, como quem dá solução Mas nunca contam daquelas que viram o próprio leão. Há quem regresse da mata Sem ferida ou arranhão Eu volto cheia de folhas de espinhos e exaustão. Nasci caminho torto Em mundo feito em linha reta precisei crescer fera antes mesmo de ser poeta. Rasgo o vento com a voz até a montanha ceder. Não porque goste do grito, mas porque no rugido A floresta aprende a tremer. Não visto a pele da fera a fera é que veste a minha Quem nasce fora do traço aprende cedo a andar na linha. Hoje caminho entre galhos e não peço permissão Não matei leão algum tornei-me o próprio leão. - Para aquelas que aprenderam a rugir antes mesmo de aprender a falar. R. H 15/06/2026.

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Poema

Orla

Traziam no corpo o gosto do mar e o vento a brincar nos cabelos enquanto a tarde, prestes a findar tecia ouro nos últimos novelos. À beira d'água surgiu uma visão branca de sol, de varanda e demora e alguém a guardou no coração como quem salva no fundo a memória. Então falou de um tempo por vir com a doçura das coisas sem pressa como se fosse simples repetir o encontro feliz daquela promessa. Seguiram depois pelo mesmo caminho, levando areia, silêncio e calor sem perceber que naquele cantinho o futuro prendia o tamanho do amor. Vieram os risos, a roupa trocada a noite espalhada em mesa e luz mas ficou na lembrança bordada a delicadeza que o tempo conduz. Mas a memória é artesã caprichosa, afinal não se curva ao brilho raro do acontecimento recolhe as conchas pequenas deixadas pelo temporal e faz delas morada contra o esquecimento. - À guardiã de alguns dos meus horizontes mais bonitos, que ainda habita certos trechos da orla dentro de mim. R&J. 07/06/2026.

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Poema

Banquinho

Cheguei com o corpo em desalinho como quem sustenta o dia no fim Havia um cansaço muito antigo Morando dentro de mim. A gira rodava seus ventos o canto subia do chão e eu carregava perguntas Barulhando no coração. Pedi só limpeza no ori dessas que clareiam o olhar Mas antes da reza me tocar mandaram um banco chegar. Madeira pequena, quase nada um detalhe perdido no congá Passei tanto tempo pedindo licença pra existir sem ferir o lugar que desaprendi como é a presença de ser cuidada sem precisar falar. E há noites em que o sagrado responde sem clarão, sem voz, sem trovão. Só ajeitou silêncio pro meu corpo e fez do cuidado uma oração. 28/05/2026. -Poema dedicado a Baiano Severino, que alcançou o que o espírito pediu e o que o corpo precisou. Salve nossas forças♿️🤍🌿 R.H.

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Poema

Um dia desses

Um dia desses fui mar sem saber que estava indo meu amor ao lado a olhar o horizonte se abrindo. As ondas vinham lentinhas com seu rumor de oração e o céu bordava as tardinhas dentro do meu coração. Havia um balanço enfeitado de girassóis sobre a areia, como um sonho improvisado que o vento amarelo semeia. E nós, pequenas no mundo sentadas diante do azul vendo o infinito profundo beijar o nordeste e o sul. Bebíamos tarde e maresia em copos frágeis de verão mas havia uma delicadeza fazendo morada nas mãos. Ela sorria tão leve e eu repousava, enfim como a maré que descansa depois de voltar pra si. As horas não tinham peso nem medo de ir embora o amor era só um aceso de sol queimando a hora. Depois vieram partidas silêncios, distância e cais essas marés divididas que o tempo inventa demais. Mas ainda encaro o oceano quando o peito quer falar e mesmo longe, te amo com todo meu jeito de mar. -Para a cidade onde o vento nos guardou. Fortaleza, maio de 2025. R&J. 18/05/2026.

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Poema

Só o amor cura o amor

O amor vinha contente feito chuva no verão abria flor nas manhãs Dava paz no coração. Tinha luz no olhar sereno dessas que fazem pequeno todo medo da solidão. Mas o amor se perdeu num inverno sem calor caiu cansado na estrada machucado pela dor. Pensou: “não vou suportar”, pois quem veio lhe quebrar foi a mão do próprio amor. O amor então caiu na pedra fria do chão machucou fundo o silêncio rasgou inteiro o pulmão Achou que ali morria que nunca mais voltaria a florescer sua mão. Só que um dia, de mansinho o amor voltou também num sorriso inesperado num gesto simples de bem. E o peito, antes ferido sentiu que ainda é querido e quis respirar além. Porque só o amor alcança o lugar que ele feriu só ele entende o silêncio do coração que partiu. E embora ande devagar o amor voltou a ficar de pé depois que caiu. R&J. 14/05/2026.

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Poema

Prece às águas do amor

Que o tempo lave o que já se desfez, e o rio guarde o que soube existir, como prece antiga que a água refez, em doce silêncio que insiste em florir. Há mãos invisíveis que sabem guiar, no sopro leve que ensina a esperar, como guia manso que toca sem falar, e acende no corpo o que aprende a ficar. Que venha em doçura do mel de Oxum, escorrendo lento sem medo de ser, mas traga no fundo a força que é comum de quem, mesmo calma, não teme arder. Que seja como as águas de cachoeira, que caem serenas, mas sabem tocar, e leve no pulso a onda inteira que quebra feroz sem deixar de amar. Que exista em presença que ousa mostrar o que vibra inteiro sem se dividir, em braços que sabem também repousar em outros que chamam para se permitir. Que seja afeto que não quer medir, carinho que escorre sem se conter, um dar que se expande no simples sentir e encontra no outro um modo de ser. Que deixe o espaço do voo e do chão, do só que respira e do junto que é calor, liberdade viva na mesma extensão de quem não se perde no gesto de amor. Que traga na intensidade um centro de paz, como queda d’água que canta ao cair, e mesmo no excesso um ponto capaz de, em calma profunda, ainda existir. Que venha em beleza que não se desfaz, forma que pulsa sem se explicar, como quem ama a vida e ainda é capaz de, em cada instante, recomeçar. Que faça de si um caminho melhor, lapidando o gesto de amar sem temor, e que ao se encontrar, em laço maior, seja digna inteira de todo esse amor. E quando esse encontro enfim acontecer, sem pressa, sem medo, sem dor, que o amor merecido consiga reconhecer em quem o recebe o que pede o amor. Que haja verdade no que se constrói, sem falta, sem medo, sem se perder, e nessa troca que une e não dói, uma torne a outra melhor ao viver. Que o amor que eu mereça me encontre E que eu seja o amor que ela mereça. R.H 💛❤️ 22/04/2026.

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Poema

100 anos de solidão

Havia um inverno em pleno Novembro E um gesto suspenso que não se cumpriu, Teu nome calado na borda do tempo, E o mundo, de súbito, se contraiu. As horas passaram em passos contidos, Como quem pisa pra não se envolver, E o frio do nada Tão bem calculado Soube, exato, onde me doer. Nenhuma palavra, nenhum desengano, Só o vazio polido entre nós, E esse silêncio, tão firme e tão frio, Que apaga meu rastro e dissolve minha voz. Cem anos se passam em cada segundo, De quem é julgada por só reagir, Enquanto o delito caminha impune, E eu sigo presa por ainda sentir. Teu não foi ausência, foi quase presença, Um corte sutil que ninguém pode ver, Mas feito de gelo, de esquiva e distância, Ensinou meu afeto a se recolher. E eu, que só era um impulso sincero, Virei desmedida, excesso, senão, Pois onde não houve sequer um ruído, Nasceu uma injusta condenação. Pela reação houve julgamento Cumpro pena desde então numa cela feita de silêncio e ausência Condenada a cem anos de solidão. J. 10/04/2026.

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Poema

Despedida

Partir não foi deslocar o corpo. Foi ajustar a órbita. Entre o que poderia ter sido e o que é, há um campo aberto. E nele, eu. R&J 26/02/2026

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Poesia

Busca

Preciso então buscar a paz Não aquela paz que encontro em você Mas sim aquela que encontro apesar de você. Preciso ver o que há além de mim O que existe além de você Encontrar outros portos, que sejam também seguros, e de fato seguros. Preciso ver o sol nascer e se por de outros ângulos Em outras companhias Em outros lugares Embora quisesse vê-los com você. Preciso então encontrar a vida Vida essa que até então disparou e depois, estacionou com a tua chegada. Preciso então buscar outros cheiros Outros gostos Outros risos Embora fossem só os seus que quisesse ter. Preciso ver o que ainda consigo fazer por mim E o que terei que reaprender. Preciso entender como seguir Já que eu sou a única responsável por me tirar desse lugar escuro que entrei Você não virá me buscar Embora eu quisesse. Preciso ir atrás de mim, e me colocar na vida novamente Com uns pedaços faltando, outros novos pedaços bonitos Você me fez um mosaico. Preciso entender umas coisas E deixar de querer entender tantas outras Que dispensam explicações. Preciso me querer bem Tanto te quis que não sobrou nada para mim. Preciso viver novidades E gostar delas, mesmo que você não esteja presente. Vou então em busca de paz A cura não vem do mesmo lugar que o golpe Ela floresce onde a ferida não mais alcança. R.H 12/10/2025.

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Poesia

Plano de fuga

De repente o mapa dos dias Tinha portas demais. Começa simples, mas de repente devo partir as pressas, de onde já fiz abrigo. Parecia tudo igual O ambiente, as pessoas O mesmo desenho de luz caindo no chão Mas havia um deslocamento nas coisas Como se alguém tivesse movido o mundo alguns centímetros fora do eixo E só eu tivesse percebido. Nessa nova atmosfera, ficar exige mais coragem do que partir. Quando o espaço começa a esvaziar Meu corpo já procurava mapas invisíveis Calculando trajetos silenciosos Medindo o tempo antes que seja vista Como quem aprende a atravessar ruas perigosas. Peguei a mochila como quem pega um casaco antes que o frio admita seu nome. Caminhei até a porta com a calma treinada dos fugitivos que não querem ser vistos correndo. Fora, a cidade abriu seus pequenos esconderijos. A esquina que dobra o campo de visão, o reflexo do vidro que impede o encontro direto, os pequenos buracos do cotidiano onde alguém pode caber inteira sem precisar explicar a própria ausência. Houve um instante em que a realidade quase me alcançou um gesto comum dessas gentilezas que antes eram abrigo e agora são buracos abertos no chão da memória. Sorri rápido uma dessas despedidas que são quase senha e atravessei a rua como quem encontra um alçapão invisível. Desde então ando estudando arquitetura catalogo passagens laterais, aprendo a dobrar esquinas por dentro, descubro como caber em frestas de rotina onde ninguém chama meu nome. alguns abrigos quando deixam de existir continuam de pé apenas como miragem. Há um tipo de saudade que não pede retorno pede apenas distância suficiente para que o coração não precise se defender o tempo todo. E assim sigo colecionando saídas aprendendo novas formas de não estar porque às vezes amadurecer é aceitar que certos lugares continuam bonitos mas já não são seguros para permanecer. R&J. 06/02/2025.

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