“De que me adiantou ser eu…”, questionou uma voz desconhecida ao vento, que foi carregada até os ouvidos de quem vagava, “que agora sangro em desalento.”
O ar estagnou, os passos cessaram, e as aves aquietaram: ninguém sabia confortar, mas todos podiam ouvir; se encontrar. Ouviu-se uma respiração engasgada, e o que pareceu um grunhido, seguido de um fungar.
“Tu foste o motivo com que roguei aos céus que me desse a redenção, de que me fizesse merecedor”, gritou a voz rouca e falhada, “mas só encontrei o chão que pisei ao seu encontro.”
Por mais que houvesse reconhecimento em suas palavras, parecia haver indiferença: no céu desbotado em laranja ao entardecer depois de um dia sem nuvens; no tráfego dos carros e suas buzinas barulhentas além dos muros do parque; no tempo que corriam os segundos. A vida continuava, apesar dos pesares.
“Não está mais aqui para escutar que não me arrependo”, continuou após longos segundos, “que a falta me consome; que o caos me habita sem a sua alma para habitar a minha.”
“Espero que encontre paz sobre minha sepultura”, ouviu-se uma gargalhada lamentosa, que foi com o vento, como a exclamação que soltou depois. O som de algo caindo na água acompanhou uma respiração ofegante, que ninguém nunca foi ver. No fundo do lago encontrariam algo brilhante, dourado.
“Minha alma só descansará a noite que encontrar a sua; que as palavras não ditas forem postas à mesa. Porque não trarei tormento aos meus sonhos, tampouco aos meus pensamentos com nossos atos. Quero a paz de um fim decente. Quero o que nos foi negado.”
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No zelo de tuas palavras há o ser a querer-me aos teus pés; teus lábios derramam mentiras, como o beijo dos deuses em recompensa. Falta-me crer que o amanhã será diferente quando o meu sangue pinga de sua lâmina. Leve-me embora se me desejares, ou queime os restos desta profecia.
Minh'alma clama pela paz que o vosso amor açoita; meu corpo roga pelo desejo que a consome. Não contemplo o divino, que me ateia ao fogo dos teus olhos.
Espero em eterno sofrimento a tua prece em minha misericórdia vã: tu irás embora, mas retornará em outra face; porque o amor que nos cabe, nos condena ao abismo da solidão.
…
O sol tocará a sua carne, que será coberta pela sombra de meu espírito, pois não hei de soltar. Imploro que os astros amanhã dêem-me a libertação – de que libertação falo se estou presa a carne?
Muito tenho a dizer dos meus pecados, dos meus lamentos, e pouco tenho a dizer sobre nós. Tu foste embora deixando-me sustentar memórias frágeis, alteradas e embelezadas pelo inconsciente: só para mantê-lo vivo; só para retardar o luto da sua falta.
— Helly Delyon
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Espere-me!
Por favor!
Transbordar pelas brechas não é escolha; é sentença. Desta vez não há lágrimas, esperanças ou retornos; só uma verdade esburacada, joelhos ralados e beijos fantasmas.
Necessito de esquecer-te.
Apagar este fogo, essa fome sanguinária que me consome. Subjuga. Cravar meus dentes noutra pele, embeber-me de outra alma.
Oh, já foste embora...
Não veja-me neste estado: rindo, meio chorosa, de joelhos. Tampouco banhada de sangue, visceral, selvagem e descrente.
Vou-me também...
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Mora entre as reticências...daquilo que nunca disse; entre as perguntas que nunca pronunciei; escondida na semântica da palavra que sempre ignoro.
Engano-me com mais esta mentira: eu não a nego — negar é um ato que não me cabe; pois sou uma extensão, a parte na escrita na enciclopédia. Sou aquela que ama, logo, sou parte desse significado.
Perceba-me nas entrelinhas. Dê-me espaço e deixe-me passar. O que carrego comigo é o nacional, o estrangeirismo, que não vos pertence, tampouco a mim. É místico. É o mistério que só o percebemos...quando hão de sentir.
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Rasgar é o sussurro, o grito, o susto, o som de uma pessoa-objeto quando lhe é imposto força; é como o querer não contentar-se apenas com o que vê; o egoísmo mundano nunca nos faz ser suficientes.
Descarte, descarte, descarte. Ouço — estremeço, eriçado —, pois são esses os momentos em que, por fim, se menciona: uma ação com/para um objeto antes esquecido, inútil.
Lembra-nos que, às vezes, o amor, o desejo, a cobiça se voltam para aquilo que nos é útil. Conveniente. O olhar está voltado para o perfil.
— quando a voz só é ouvida para aconselhar, nunca para ser escutada.
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És no sentido do feito, da coragem, similar a palavra possuir; os sentimentos, embora contrários, carregam intensidade, cor, matéria, e preenchem-nos — do amor, da solidão.
Somos embuídos deste olho d'água, odiamos e amamos, esse prólogo — mesmo que o epílogo desta estória seja conosco enterrados prematuramente.
Há beleza nisto, no desespero que o acompanha, no medo que nos domina; se nos deixarmos subjugar, ele toma-nos, se não, dá-nos o veneno: a verdade embebida de vinho.
"Tu não és o amor que quero para a vida; és o querer presente, agora, passado.
Sejas os laço que prende-me à terra; seja a corda que me enforca nas madrugadas de culpa; seja o praguejar da minha maldição; mas, por favor, não desejes que eu te torne vivo — prefiro o peito em sangue, a fúria, a melancolia."
Escrevo, mesmo com a caneta estourada; mesmo com a folha manchada; mesmo que dificulte sua leitura. Não irei te facilitar as coisas, pois ler-me nunca foi tranquilidade, é tufão.
— minhas inspirações nunca deveriam ler Shakespeare antes de ousar amar-me; pois eu li, quero imortalizar-te, como as lágrimas da deusa do mar; uma tragédia sempre faz-me pecar.
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É cru isto que falamos, sem a censura moral ou o receio da recusa — recusa a que me refiro é abstrata, não no sentido de violação do consentimento, mas da negação do desejo; do afeto; do eu; do outro. Eu sinto, aceito, recebo. Tudo é ação, contexto.
A semântica, para sermos mais objetivos, diz-nos que significa unir, juntar, reunir duas partes numa só; duas matérias, um ser-objeto a ser moldado, construído — no sentido material, um objeto, o sexo, a fecundação; espiritual, um laço, um espaço, uma memória.
Gosto de falar do sexo, do gozo, do prazer mental — daquilo que me remete à satisfação da carne. És a natureza. A naturalização do "nós". É impróprio, imoral, sujo. Mas isso é justificativa de quem não amou; sujar-se é nobre, é permitir-se carregar o eu e o outro na pele, no cheiro, nos orifícios.
— e eu me sujei, mental, emocional e fisicamente; aquele protesto anárquico contra todas as razões morais, contra a insensibilização.
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Morosamente encarno teu amor, tua deusa, se assim o quiseres dispor; a déspota que rege está paixão, cabe a nós, escolher: pisa-me ou serás pisado.
Não rogo uma redenção, pois não há escapatória a essa fantasia, embriaga-nos, tentando-nos, a esgarçar nossas vivências; pormenor que sejam as críticas tecidas, cabe a mim despojá-las porta a fora: quero-te, nada mais.
O fim nos reserva os portões celestiais lacrados: não somos bem-vindos ao sagrado quanto a nós fizemo-nos demônios. Mas se quiseres entregar-te em solo sagrado, afasto-o, dou-te escolha: sigo eu, pagã, siga tu, filho do Senhor.
Clamo o entendimento deste amor, não tratando-se da loucura de um são, mas da liberdade da própria expressão: eu quero assim amar-te, contudo, se não nos cabe a vida, entrego-me a morte: um reencontro melancólico, saudoso, de duas almas.
— Julieta espera-te.
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Num dado momento, cruzaram os caminhos ao acaso; fizera o destino a intervenção ou era o acaso do tropeço então? Não saberia responder, tampouco nutria a vontade de pensar — era uma insana ilusão, por melhor, uma flor de condão.
Tentou chamar-lhe pelo prenome, estancou, não o lembrava — residia apenas a memória do corpo, iam-se às almas; quisera tentar uma segunda: obteve o êxito do sobrenome, escapando-lhe dentre os lábios num timbre inflexível, monótono — seria qual sentimento ali além do seguimento da vida? Interromperam o passo. Olharam-se.
Era o epílogo — o fim, depois do último capítulo sussurrando uma continuação — mostrando suas faces sadias, os corações noutros caminhos e o esquecimento nos pormenores. Residiam nas íris duas inquestionáveis respostas: primeira, você não é mais você, o amor; a segunda, desamei.
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Pensares outrora críveis, desembocavam numa ruela mal cheirosa e de caráter questionável; não haveria eloquência nas ações futuras, somente um desalento penoso, de amargar a boca e revirar o estômago. Desde que tinha conhecimento de ser gente, aprenderá: de pena, só lhe restava a galinha, o humano, não tinha vez.
Estava miseravelmente acabada em nome de algo ralo: o tão primoroso amor: a fachada de algo maior que nós mesmos. O custo não lhe dava brecha para ilusões: estava no fim, se não da crença, na vida: era sobrevivente, nada mais. Hão de julgar-te as palavras, a própria o fazia sem a misericórdia de uma salvação; recordava os tempos em que ela própria julgou, cética, racional a algo tão irracional.
Que faria da vida?, questionava sem muita intenção de obter resposta; tinha-o no peito: nada. Deixa ao tempo — ou a teimosia — o cargo de resolver, se não, de desbotar essa lembrança amargar do que era amar.
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