Uma sexta-feira
“De que me adiantou ser eu…”, questionou uma voz desconhecida ao vento, que foi carregada até os ouvidos de quem vagava, “que agora sangro em desalento.” O ar estagnou, os passos cessaram, e as aves aquietaram: ninguém sabia confortar, mas todos podiam ouvir; se encontrar. Ouviu-se uma respiração engasgada, e o que pareceu um grunhido, seguido de um fungar. “Tu foste o motivo com que roguei aos céus que me desse a redenção, de que me fizesse merecedor”, gritou a voz rouca e falhada, “mas só encontrei o chão que pisei ao seu encontro.” Por mais que houvesse reconhecimento em suas palavras, parecia haver indiferença: no céu desbotado em laranja ao entardecer depois de um dia sem nuvens; no tráfego dos carros e suas buzinas barulhentas além dos muros do parque; no tempo que corriam os segundos. A vida continuava, apesar dos pesares. “Não está mais aqui para escutar que não me arrependo”, continuou após longos segundos, “que a falta me consome; que o caos me habita sem a sua alma para habitar a minha.” “Espero que encontre paz sobre minha sepultura”, ouviu-se uma gargalhada lamentosa, que foi com o vento, como a exclamação que soltou depois. O som de algo caindo na água acompanhou uma respiração ofegante, que ninguém nunca foi ver. No fundo do lago encontrariam algo brilhante, dourado. “Minha alma só descansará a noite que encontrar a sua; que as palavras não ditas forem postas à mesa. Porque não trarei tormento aos meus sonhos, tampouco aos meus pensamentos com nossos atos. Quero a paz de um fim decente. Quero o que nos foi negado.”
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