Abraçada pelo meu caos,
caminho como quem segura o próprio coração
entre as duas mãos:
trêmula, mas inteira.
Há noites em que o silêncio pesa,
e eu quase me perco nas minhas próprias marés.
Mas sempre encontro um fio de luz
entre os destroços que deixei pra trás.
Carrego tempestades no peito,
mas também abrigo o amanhecer.
Sou feita de contraditórios:
o medo que paralisa,
a coragem que insiste.
E quando o mundo pede respostas,
eu ofereço só o que tenho:
meu passo lento,
meu fôlego curto,
meu desejo de continuar.
Porque, apesar de tudo,
é no caos que aprendo a florescer —
com raízes teimosas,
com pétalas cansadas,
com a alma ainda buscando sol.
E assim sigo:
desalinhada, sensível, humana —
abraçada por aquilo que me agita,
mas também me molda.
Jessica Mendes
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Ele é o tipo de homem que não levanta a voz.
E talvez por isso, me desarme.
Enquanto eu chego com o peito cheio de palavras afiadas, ele responde com silêncio — e esse silêncio grita mais alto que qualquer discussão.
Eu sou impulso, ele é calma.
Eu falo demais, ele observa.
Eu me irrito fácil, ele espera passar.
E, no fim, é sempre ele quem me vence — sem precisar lutar.
Não sei o motivo dele ainda estar comigo.
Talvez nem ele saiba.
Mas há algo nele que me ancora quando tudo em mim quer fugir.
Ele é estranho… de um jeito bom.
Um mistério constante, mas com uma paz que me lembra lar.
É o meu melhor amigo, mesmo quando eu o afasto.
É paciência quando eu sou tempestade.
É amor quando eu nem mereço.
E eu?
Eu continuo tentando entender esse tipo de amor que não exige, não cobra, não precisa vencer — só fica.
Fica porque quer.
Fica porque ama. 💙
Jéssica Mendes
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Subi a escada direto pro porão.
Mas não era bem um porão — do lado tinha um cubículo chamado “escritório”, e, entre caixas empilhadas, uma pequena cozinha.
Relutei por um instante.
Sentei na cadeira, tirei o café da garrafa que sempre levo comigo e fiquei pensando.
Pensando...
Mas os pingos da torneira velha, um a um, me fizeram contar o tempo — tic, tac, tic, tac — como se fosse o relógio dentro da minha cabeça.
Será que tá tudo errado?
Errado, errado, errado...
Onde é que eu tô errando?
E a torneira continuava pingando.
Jéssica Mendes
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Quando eu me for,
deixa uma parte de mim viver.
Deixa as culpas e as palavras
presas neste papel —
ele sabe quem eu fui.
Que o som dos versos te conte
meus sonhos, meus medos,
meus traumas, minhas angústias.
E quando eu me for,
mesmo assim,
deixa-me ainda viver.
Deixa que este papel carregue
as culpas que eu não confessei,
as verdades que calei,
as cicatrizes que transformei em poesia.
Que os versos sussurrem quem eu fui —
entre o sonho e o abismo,
entre o medo e a coragem de sentir.
E quando eu me for,
não me enterre por completo.
Deixa-me viva
no que ainda me resta em ser lembrança.
Jéssica Mendes
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Como saber que é ele?
Não vem com flores caras,
mas me rega com respeito.
Não tenta me mudar,
me admira do meu jeito.
Ele vai me amar pelo que sou —
bagunça e poesia,
cicatrizes e alegria.
Vai sorrir dos meus tropeços
e caminhar do meu lado,
não na frente.
Ele esperará meus sonhos
como quem espera o sol nascer.
Vai vibrar com minhas vitórias
como se fossem dele também.
Não vai prometer o mundo,
mas vai me dar paz.
E eu vou saber que é ele,
porque com ele,
eu serei mais eu
do que jamais fui.
Jéssica Mendes
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Sou ausência que acolhe.
Morada de quem partiu sem dizer.
Sou abrigo pra tempestades alheias,
mas ninguém mora em mim por inteiro.
Carrego nos olhos o vão dos adeuses,
nas mãos, o peso do que não ficou.
Sou experiência tatuada em silêncio,
sou o tempo que não pediu pra passar.
Já entendi: tudo escorre.
Nada é pra sempre, ninguém é promessa.
Alguns tocam, poucos marcam.
Quase ninguém permanece.
E eu?
Eu permaneço em mim.
Mesmo quando tudo vai embora.
E eu sei que a única que não posso mais perder sou eu.
Jéssica Mendes
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Coração, hoje te concedo a memória.
Permito que sinta a falta — inteira, funda, doída.
Que busque no vento o cheiro dele, que reviva o toque como se fosse agora.
Hoje, te deixo afundar nas lembranças.
Que chore cada ausência, que sinta cada eco.
Mas só hoje.
Amanhã, te quero leve — ou fingindo que é.
Quero que o nome dele seja só poeira no pensamento.
Que o rosto se apague como névoa ao sol.
Ele não mora mais no teu caminho.
Foi capítulo, não destino.
E a tua história segue — com ou sem cicatriz, mas sempre adiante.
Jéssica Mendes
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Quando me disseram que eu não ia morrer,
não senti alívio.
Senti ausência.
Como se Deus tivesse esquecido
de me levar
quando já era tarde demais pra voltar.
Ela sorriu,
como quem entrega boas novas,
mas meu peito gritou,
em um idioma que ninguém entende:
“por que ainda tenho que continuar?”
Eu chorei.
Chorei como criança sem colo,
como alma sem lar,
como quem perdeu o último trem
pra algum lugar onde a dor cessa.
Descobri, naquele instante,
que minha alma não estava cansada —
ela estava ferida.
E não dessas feridas que o tempo sara.
Era como se eu tivesse me despido de mim
há anos,
e agora, só restasse a pele,
o osso,
e um coração que bate por insistência.
Eu fui o ombro.
O lenço.
A luz no escuro de tanta gente.
E agora que sou eu
quem se afoga,
não sei nadar.
O mais cruel da vida,
é que ela segue,
mesmo quando a gente fica.
Me disseram que eu não vou morrer.
Mas esqueceram de perguntar
se eu ainda queria viver.
E eu?
Eu queria sumir devagar,
como a última folha de outono,
sem fazer barulho,
sem que ninguém notasse
o quanto eu já estava indo embora
por dentro.
Talvez um dia eu volte pra mim.
Mas hoje…
Hoje eu só queria que alguém me visse.
Que alguém dissesse:
"você pode cair, eu fico."
E que ficasse.
Mesmo que eu não saiba pedir.
Jéssica Mendes
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Minha alma hoje é brisa contida,
um céu nublado por dentro do peito,
carrega sonhos com mãos feridas,
mas ainda os segura com jeito.
É calma e guerra no mesmo instante,
é fé que insiste em não morrer,
um grito mudo que segue adiante,
um “vai dar certo” sem saber.
Tem cicatriz que pulsa escondida,
tem promessas feitas com Deus,
tem uma estrada meio esquecida
e outras que guiam passos seus.
Não é tristeza, nem plena alegria,
é o intervalo entre o cair e o erguer,
é esperança que acorda todo dia
mesmo cansada de tanto querer.
Minha alma agora é silêncio profundo,
mas não é vazio — é construção.
Ela está moldando outro mundo
com restos do que sobrou do chão.
Jéssica Mendes
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Me calaram com gestos sutis,
com palavras mansas que doíam mais.
Fui silenciando pedaço por pedaço,
até sumir nos próprios sinais.
Me prenderam dentro de mim,
e essa cela não tem paredes, tem lembranças.
O que me amava já não me toca,
o que me cuidava agora me cansa.
Tiraram o brilho dos meus olhos
como quem apaga a luz de um altar.
E eu?
Fiquei ajoelhada no escuro,
sem saber mais orar,
sem saber mais ficar.
Me desfizeram com o tempo,
e o tempo me desfaz toda manhã.
Agora só sou o que sobrou do que fui
numa história contada sem amanhã.
Jéssica Mendes
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