"Ainda Respiro"
Quando me disseram que eu não ia morrer, não senti alívio. Senti ausência. Como se Deus tivesse esquecido de me levar quando já era tarde demais pra voltar. Ela sorriu, como quem entrega boas novas, mas meu peito gritou, em um idioma que ninguém entende: “por que ainda tenho que continuar?” Eu chorei. Chorei como criança sem colo, como alma sem lar, como quem perdeu o último trem pra algum lugar onde a dor cessa. Descobri, naquele instante, que minha alma não estava cansada — ela estava ferida. E não dessas feridas que o tempo sara. Era como se eu tivesse me despido de mim há anos, e agora, só restasse a pele, o osso, e um coração que bate por insistência. Eu fui o ombro. O lenço. A luz no escuro de tanta gente. E agora que sou eu quem se afoga, não sei nadar. O mais cruel da vida, é que ela segue, mesmo quando a gente fica. Me disseram que eu não vou morrer. Mas esqueceram de perguntar se eu ainda queria viver. E eu? Eu queria sumir devagar, como a última folha de outono, sem fazer barulho, sem que ninguém notasse o quanto eu já estava indo embora por dentro. Talvez um dia eu volte pra mim. Mas hoje… Hoje eu só queria que alguém me visse. Que alguém dissesse: "você pode cair, eu fico." E que ficasse. Mesmo que eu não saiba pedir. Jéssica Mendes
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