Foto de Jeferson de Sá - DesenhistaSete

Jeferson de Sá - DesenhistaSete

@jefersondesa · desde 2019

Professor Poeta Desenhista Amsterdã - Países Baixos insta: @desenhistasete

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Flor de Duas Pétalas

Tira a veste que a esconde, Minha Flor de Duas Pétalas! Abre a mim as tuas portas! Dá-me o gosto do teu néctar! Umedece a ti mesma E aumenta o teu volume Por minha voz que tu detectas! Me escorre tua seiva, Te derramas na minha língua Que eu ponho em tua aresta! Teu botão doce e pequeno Lhe estremece ao meu toque... Minha pulsação não cessa! Me convida os teus gemidos, Minha Flor de Duas Pétalas! Jeferson de Sá

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A Pedra e o Coração

Floresceu no coração a pedra, Regado pelo tempo, Numa casa solitária com alguém, Um estranho conhecido... Floresceu na pedra um coração, O sucumbir de tão firme confiança Que escoou como água indesejada E não houve solução. E soluçou a pedra, em seu arenoso choro. E calou-se o coração, outrora pedra falante. E nada justifica e nem explica. Nada os pode reatar e nem se sabe o que perdeu. É a sede preferível a um café frio? Pois prefere a boca seca e os lábios rachados... É a solidão mais doce que a companhia infrutífera? Pois prefere uma cama fria e sem vida o próprio lar... Hoje dela o coração empedrecido, Confuso e insipiente Vagueia, odeia, ama e chora. A noite gela a almejada casa vazia Enquanto anseia a presença do estranho conhecido Que nunca mais quererá ver. Hoje dele a pedra pomes Livra-se da pele morta E acimenta-se aos poros. E parte rumo ao seu destino E busca um novo coração Em que possa confiar em paz Sem florescer coração farto. Jeferson de Sá

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Água Distante

Sofre ali um desejo encarcerado Por cadeias de distâncias abismais. Sente a sede diante de um belo riacho Pela água que não está neste lugar. Pois no dia em que provou daquela água Seu prazer flamejou o seu tição, Seu desejo destilava como incêndio, E sua boca salivou satisfação! Os ouvidos degustaram os gemidos Quando a língua tateou a flor e a seiva. E quando a morada quente o abraçou Latejou, sem ter língua que o descreva! E aquele bom instante se tornou Seu momento memorável inconteste Que a noite assistiu e festejou E a manhã veio a ser parte da festa! E de pensar que ali recomeçou Quando o tato fez jorrar de novo a seiva E as portas novamente arreganhou, Outra vez tendo morada que o receba. Mas agora só lhe resta a lembrança E o sofrer de um desejo encarcerado Por cadeias imponentes de distância E a sede diante de um belo riacho... Jeferson de Sá

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Composição A Uma Tímida

Envergonhada, com modéstia se atavia. Nem ao busto ousa sombra de um decote; Meia-coxa ao vestido é desafio. Pensamentos voam livres no seu lote. Não se vê de seus anseios a coragem; Reclusão dada ao desejo é sua praxe. Não se estranha tão normal é o seu limite, Mas se desabrocha a chance, não exita e não se exime! E assim viva a paixão que a desatine! Jeferson de Sá

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Triste Mão...

Triste mão perdeu de si o suave cheiro teu; De tanto que afagou os teus cabelos, teu perfume fez-se meu. Triste mão, tão carinhosa, hoje só apalpa o vão de uma lembrança Que por mais bela que seja, Não substitui sublime posse. Triste mão que já não sente o tecido de seda e tua pele sedosa... Feliz mão que não te esquece, Triste mão que tem memória... Jeferson de Sá

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Vem e Basta

Vem e basta, o que se foi já não importa mais. Leve consigo o teu soluço e o teu suspiro. Todo entalhe trabalhado em pedra firme Agora é pasto sem que a dor me desatine. E foi sua mão habilidosa escultora. Hoje, essa mão, rebelde ave de rapina, Leva pra longe a ti mesma e não é fuga, É expulsão, que a submeto e me desfaço E facilmente eu me esqueço e te apago. E nem me tarda outra pele perfumada, Outra folha a escrever-se nova história. Vem e basta, nasce o próximo começo, Pois não se cala o anseio coronário, Não se esquiva o desejo pelo apreço Nem há medo, insegurança e nem desdita, Há olhares vindos de outra menina E trajetos para um novo endereço. Sem resgate, sigo a vida que me espera. O outono é a gestação da primavera. Jeferson de Sá - Binho

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O Rico, a Poesia e o Mendigo

Filho da abstinência! Homem de vil desperdício! Não confundam diligência E indigência! São palavras parecidas, Dois caminhos que se cruzam, Mas não mudam sua cadência absurda! Vem a chuva e o vendaval, Brota e traz o pão bendito. Mas da frágil flor a luta É não ser arrancada ao vento, Que pra rocha é cicio; Ao labor é o bom alento; Ao poeta é a angústia E à poesia, o seu unguento. E quando a força se acaba Só restando o clamor (Mais mudo que o desespero De quem já perdeu a voz), Ela ainda grita à vida Pelo sangue que não pinga, Pela boca ressecada, Pelos ossos desenhados Em pele já estilizada Pelo lápis da inanição E por cada mão fechada A não conceder o pão. Ela é bela e desprovida Poesia desvalida Nunca nega o seu ofício Voz da voz emudecida Do oprimido. O rico, a poesia e o mendigo. Jeferson de Sá - Binho

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O Homem de Alumínio

E se a vitória fosse prova de fraqueza E suas mãos rasgadas não suportassem A tristeza de se ver no espelho sem a veste Que se reconhece como prova de um guerreiro? Seu brasão só enferruja. Espada que não corta entorta E sangue que não pinga coagula. Volte para o início onde tudo se encerra, Deixe a treva que encobriu seu rosto E veja que nem sempre a vitória é vencer, Mas se manter disposto a ceder É, às vezes, a resposta. O seu grito foi ouvido, mas ninguém o atendeu. Não se fez a asa aberta, Não içou-lhe o vento E à brecha não se arremeteu. Debaixo do cipreste e da árvore frondosa Raízes se sustentam e se renovam. Não confunda apego ao ódio Com o apego à esperança; Ambos levam adiante, para baixo ou para cima. Como a fome, o ódio cresce para consumir a vida. Então pare e respire, não seja precipitado. Todos sofrem, todos sabem Que há algo de errado. E agora? Só lhe resta a lembrança, do tufão ou da bonança E a pausa rotineira entre brisa e bagunça. Boa noite, guerreiro. Feche os olhos e durma. Jeferson de Sá - Binho

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A Menina Que Andou Pra Trás

. Não foi sem causa Que se afogou; Não foi descaso Nem por acaso, Amor. Não sou escravo Nem empregado, Sou voluntário E o meu salário: A dor. Se é o teu caso Matar-se em vão, Resta o ocaso, Teu Sol humilhado: Tua decisão. Suporte o vento Do teu tufão. Esqueça o abraço. Não sou Pilatos, Mas já lavei as mãos. Não cogitava o teu declínio Nem esperava te perder. Por você movi montanhas. Hoje não movo uma palha Porque você não deixou palha Pra eu mover. Já nem importa a poesia. Minha amiga se destruiu. Desprezou seu valor próprio E se esvaiu. Jeferson de Sá - Binho

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O Crime da Paz

"Sim que repentinamente A paz, irada, nos negou, Foragiu-se ao longe, Ninguém sabe para onde. Rebelada, nos deixou." "Na surdina, fez as malas, Andou na ponta dos pés, No escuro, na calada, Pra ninguém lhe impedir. Fechou a porta com cuidado. Seu aposento ficou vago. E a surpresa inevitável: Ela não mora mais aqui." "Não te envergonhas deste crime? Onde está tua empatia? Se hoje fosses encontrada, Não serias autuada Por abandono de incapaz? Ou seria sequestrada E mantida em cativeiro Por quem sofre o tempo inteiro Tua ausência mordaz? Quantos clamam tua presença? Quantos choram tua ausência? E você não dá ouvidos! Some sem deixar resquícios Aos que querem te encontrar! Rui a força dos humildes, Aproxima-se o limite Dos que tentam suportar Este mundo sem você, Esta vida insalutar..." E ali, entre os escombros, Em silêncio, ocultada, Eis a paz mansa e tranquila Desfrutando a si mesma Onde fora abandonada. É mentira que a procuram! Eles mesmos a expulsara! A paz que sofre o adultério, Pela guerra foi trocada! Tantos foram seus clamores Que a voz se emudeceu! Quando exposta, foi tolhida Por quem quis a carabina E o conflito escolheu! Quem nas mãos tinha a flor A trocou pela espada! Hoje, mãos sujas de sangue, Antes, puras e lavadas! Não se apertam mais as mãos, Mas apertam os gatilhos! Não abraçam a caridade, Mas abraçam o egoísmo! E a paz injustiçada, Enxotada, desprezada, Extraditada pelos homens, Permanece exilada A sofrer seu adultério E a chorar sua extradição. Foi trocada pela guerra E não suporta a traição. Jeferson de Sá - Binho

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