Tira a veste que a esconde,
Minha Flor de Duas Pétalas!
Abre a mim as tuas portas!
Dá-me o gosto do teu néctar!
Umedece a ti mesma
E aumenta o teu volume
Por minha voz que tu detectas!
Me escorre tua seiva,
Te derramas na minha língua
Que eu ponho em tua aresta!
Teu botão doce e pequeno
Lhe estremece ao meu toque...
Minha pulsação não cessa!
Me convida os teus gemidos,
Minha Flor de Duas Pétalas!
Jeferson de Sá
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Floresceu no coração a pedra,
Regado pelo tempo,
Numa casa solitária com alguém,
Um estranho conhecido...
Floresceu na pedra um coração,
O sucumbir de tão firme confiança
Que escoou como água indesejada
E não houve solução.
E soluçou a pedra, em seu arenoso choro.
E calou-se o coração, outrora pedra falante.
E nada justifica e nem explica.
Nada os pode reatar e nem se sabe o que perdeu.
É a sede preferível a um café frio?
Pois prefere a boca seca e os lábios rachados...
É a solidão mais doce que a companhia infrutífera?
Pois prefere uma cama fria e sem vida o próprio lar...
Hoje dela o coração empedrecido,
Confuso e insipiente
Vagueia, odeia, ama e chora.
A noite gela a almejada casa vazia
Enquanto anseia a presença do estranho conhecido
Que nunca mais quererá ver.
Hoje dele a pedra pomes
Livra-se da pele morta
E acimenta-se aos poros.
E parte rumo ao seu destino
E busca um novo coração
Em que possa confiar em paz
Sem florescer coração farto.
Jeferson de Sá
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Sofre ali um desejo encarcerado
Por cadeias de distâncias abismais.
Sente a sede diante de um belo riacho
Pela água que não está neste lugar.
Pois no dia em que provou daquela água
Seu prazer flamejou o seu tição,
Seu desejo destilava como incêndio,
E sua boca salivou satisfação!
Os ouvidos degustaram os gemidos
Quando a língua tateou a flor e a seiva.
E quando a morada quente o abraçou
Latejou, sem ter língua que o descreva!
E aquele bom instante se tornou
Seu momento memorável inconteste
Que a noite assistiu e festejou
E a manhã veio a ser parte da festa!
E de pensar que ali recomeçou
Quando o tato fez jorrar de novo a seiva
E as portas novamente arreganhou,
Outra vez tendo morada que o receba.
Mas agora só lhe resta a lembrança
E o sofrer de um desejo encarcerado
Por cadeias imponentes de distância
E a sede diante de um belo riacho...
Jeferson de Sá
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Envergonhada, com modéstia se atavia.
Nem ao busto ousa sombra de um decote;
Meia-coxa ao vestido é desafio.
Pensamentos voam livres no seu lote.
Não se vê de seus anseios a coragem;
Reclusão dada ao desejo é sua praxe.
Não se estranha tão normal é o seu limite,
Mas se desabrocha a chance, não exita e não se exime!
E assim viva a paixão que a desatine!
Jeferson de Sá
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Triste mão perdeu de si o suave cheiro teu;
De tanto que afagou os teus cabelos,
teu perfume fez-se meu.
Triste mão, tão carinhosa, hoje só apalpa
o vão de uma lembrança
Que por mais bela que seja,
Não substitui sublime posse.
Triste mão que já não sente o tecido de seda
e tua pele sedosa...
Feliz mão que não te esquece,
Triste mão que tem memória...
Jeferson de Sá
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Vem e basta, o que se foi já não importa mais.
Leve consigo o teu soluço e o teu suspiro.
Todo entalhe trabalhado em pedra firme
Agora é pasto sem que a dor me desatine.
E foi sua mão habilidosa escultora.
Hoje, essa mão, rebelde ave de rapina,
Leva pra longe a ti mesma e não é fuga,
É expulsão, que a submeto e me desfaço
E facilmente eu me esqueço e te apago.
E nem me tarda outra pele perfumada,
Outra folha a escrever-se nova história.
Vem e basta, nasce o próximo começo,
Pois não se cala o anseio coronário,
Não se esquiva o desejo pelo apreço
Nem há medo, insegurança e nem desdita,
Há olhares vindos de outra menina
E trajetos para um novo endereço.
Sem resgate, sigo a vida que me espera.
O outono é a gestação da primavera.
Jeferson de Sá - Binho
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Filho da abstinência!
Homem de vil desperdício!
Não confundam diligência
E indigência!
São palavras parecidas,
Dois caminhos que se cruzam,
Mas não mudam sua cadência absurda!
Vem a chuva e o vendaval,
Brota e traz o pão bendito.
Mas da frágil flor a luta
É não ser arrancada ao vento,
Que pra rocha é cicio;
Ao labor é o bom alento;
Ao poeta é a angústia
E à poesia, o seu unguento.
E quando a força se acaba
Só restando o clamor
(Mais mudo que o desespero
De quem já perdeu a voz),
Ela ainda grita à vida
Pelo sangue que não pinga,
Pela boca ressecada,
Pelos ossos desenhados
Em pele já estilizada
Pelo lápis da inanição
E por cada mão fechada
A não conceder o pão.
Ela é bela e desprovida
Poesia desvalida
Nunca nega o seu ofício
Voz da voz emudecida
Do oprimido.
O rico, a poesia e o mendigo.
Jeferson de Sá - Binho
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E se a vitória fosse prova de fraqueza
E suas mãos rasgadas não suportassem
A tristeza de se ver no espelho sem a veste
Que se reconhece como prova de um guerreiro?
Seu brasão só enferruja.
Espada que não corta entorta
E sangue que não pinga coagula.
Volte para o início onde tudo se encerra,
Deixe a treva que encobriu seu rosto
E veja que nem sempre a vitória é vencer,
Mas se manter disposto a ceder
É, às vezes, a resposta.
O seu grito foi ouvido, mas ninguém o atendeu.
Não se fez a asa aberta,
Não içou-lhe o vento
E à brecha não se arremeteu.
Debaixo do cipreste e da árvore frondosa
Raízes se sustentam e se renovam.
Não confunda apego ao ódio
Com o apego à esperança;
Ambos levam adiante, para baixo ou para cima.
Como a fome, o ódio cresce para consumir a vida.
Então pare e respire, não seja precipitado.
Todos sofrem, todos sabem
Que há algo de errado.
E agora?
Só lhe resta a lembrança, do tufão ou da bonança
E a pausa rotineira entre brisa e bagunça.
Boa noite, guerreiro. Feche os olhos e durma.
Jeferson de Sá - Binho
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.
Não foi sem causa
Que se afogou;
Não foi descaso
Nem por acaso,
Amor.
Não sou escravo
Nem empregado,
Sou voluntário
E o meu salário:
A dor.
Se é o teu caso
Matar-se em vão,
Resta o ocaso,
Teu Sol humilhado:
Tua decisão.
Suporte o vento
Do teu tufão.
Esqueça o abraço.
Não sou Pilatos,
Mas já lavei as mãos.
Não cogitava o teu declínio
Nem esperava te perder.
Por você movi montanhas.
Hoje não movo uma palha
Porque você não deixou palha
Pra eu mover.
Já nem importa a poesia.
Minha amiga se destruiu.
Desprezou seu valor próprio
E se esvaiu.
Jeferson de Sá - Binho
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"Sim que repentinamente
A paz, irada, nos negou,
Foragiu-se ao longe,
Ninguém sabe para onde.
Rebelada, nos deixou."
"Na surdina, fez as malas,
Andou na ponta dos pés,
No escuro, na calada,
Pra ninguém lhe impedir.
Fechou a porta com cuidado.
Seu aposento ficou vago.
E a surpresa inevitável:
Ela não mora mais aqui."
"Não te envergonhas deste crime?
Onde está tua empatia?
Se hoje fosses encontrada,
Não serias autuada
Por abandono de incapaz?
Ou seria sequestrada
E mantida em cativeiro
Por quem sofre o tempo inteiro
Tua ausência mordaz?
Quantos clamam tua presença?
Quantos choram tua ausência?
E você não dá ouvidos!
Some sem deixar resquícios
Aos que querem te encontrar!
Rui a força dos humildes,
Aproxima-se o limite
Dos que tentam suportar
Este mundo sem você,
Esta vida insalutar..."
E ali, entre os escombros,
Em silêncio, ocultada,
Eis a paz mansa e tranquila
Desfrutando a si mesma
Onde fora abandonada.
É mentira que a procuram!
Eles mesmos a expulsara!
A paz que sofre o adultério,
Pela guerra foi trocada!
Tantos foram seus clamores
Que a voz se emudeceu!
Quando exposta, foi tolhida
Por quem quis a carabina
E o conflito escolheu!
Quem nas mãos tinha a flor
A trocou pela espada!
Hoje, mãos sujas de sangue,
Antes, puras e lavadas!
Não se apertam mais as mãos,
Mas apertam os gatilhos!
Não abraçam a caridade,
Mas abraçam o egoísmo!
E a paz injustiçada,
Enxotada, desprezada,
Extraditada pelos homens,
Permanece exilada
A sofrer seu adultério
E a chorar sua extradição.
Foi trocada pela guerra
E não suporta a traição.
Jeferson de Sá - Binho
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