Dizei-me, ó poeta, que nome lhe dareis,
Às palavras que em vossa alma concebeis?
Será amor, se o amor não as traduz?
Será tristeza, se a dor não lhes dá luz?
Que categoria há de conter vosso pensamento,
Se em cada verso se esconde um firmamento?
Que nome dareis ao que não tem medida,
Se a própria palavra se mostra reduzida?
Será que o sentimento não tem morada,
Ou é a classificação que lhe fica limitada?
Por que razão buscais, entre tantas definições,
Uma só fronteira para infinitas emoções?
Ó poeta, que mais não deveis escolher,
Se tudo, de todo o mundo, à vossa vista está?
Se tendes mil palavras para escrever,
Por que nenhuma delas vos satisfará?
Talvez «sem categoria» seja o nome mais profundo,
Não por faltar sentido ao que se escreveu,
Mas por não haver nome bastante neste mundo
Para aquilo que a alma, em silêncio, concebeu.
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Ó tu, que ao porvir entregas teu cuidado,
E julgas caminhar em nobre evolução,
Não vês que o passo, embora acelerado,
Pode levar-te à antiga perdição?
Ergueu-se o homem em ciência e grandeza,
Fez do impossível sua habitação;
Mas, quanto mais se exalta em sua alteza,
Mais se distancia da própria razão.
Que estranha evolução é esta, em verdade,
Que dá ao mundo engenho e movimento,
Mas rouba aos corações a humanidade
E troca a consciência pelo esquecimento?
Dize-me, pois, que avanço é este, leitor,
Se o novo veste a máscara do antigo?
Se o tempo, que se anuncia redentor,
Nos leva ao mesmo abismo de onde vimos?
Talvez não seja o mundo que recua,
Nem seja o tempo avesso ao seu destino;
Talvez a própria marcha, que se insinua,
Seja o regresso oculto do caminho.
E assim, sob o esplendor de cada aurora,
Enquanto o homem julga o céu alcançar,
Há uma verdade que o silêncio mora:
Daqui pra frente… é só para trás.
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Ser poeta é ter mil almas num só peito,
É ser estranho onde todos são iguais;
É construir um universo imperfeito
E habitá-lo quando o mundo já não traz
Nem um abrigo, nem um abraço estreito,
Nem uma voz que te compreenda um pouco mais.
Tu, que lês estas palavras, sabes o que é?
É ter dentro do silêncio um grito imenso;
É ajoelhar perante a própria fé
E questionar o próprio pensamento intenso.
É caminhar sem saber sequer porquê,
Levando o infinito num coração suspenso.
Tu não escreves: sangras sobre o papel,
Fazes da tinta o sangue que te resta;
E quando a noite apaga o próprio céu,
Tua solidão transforma-se em orquestra.
És prisioneiro, carcereiro e réu,
Julgando a própria dor numa cela sem festa.
E quando escreves, ninguém vê o que morreu:
A infância que perdeste, o amor que não voltou,
Os sonhos que enterraste e o homem que se perdeu,
As mil versões de ti que o tempo assassinou.
O mundo lê teus versos, mas não sabe quem os escreveu;
Aplaude a tua luz sem ver a noite que a gerou.
Ser poeta é ser ninguém, sendo tudo o que sentes;
É ter por companhia aquilo que te consome.
É dar voz aos mortos, aos ausentes, aos silentes,
E eternizar a própria dor sem lhe dizer o nome.
E quando enfim partires, entre os séculos indiferentes,
Talvez reste um verso teu — e ninguém saiba quem tem fome.
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Que mais esperas, se o futuro está sempre à porta?
Teu medo, tua mente aborda com cobranças;
Por mais que te escondas por detrás dos muros,
O futuro estará sempre à tua porta.
A porta de um amanhã que se anuncia,
De outro que virá depois,
E de mais outro que ainda nem tem nome.
Não te iludas com a sombra que o passado projeta,
Nem julgues que o presente te pertence por inteiro;
O tempo não espera que a alma esteja completa,
Nem pergunta se estás pronto para cruzar o nevoeiro.
Pois viver é caminhar sem conhecer toda a estrada,
É ser passado a cada instante, sem deixar de ser chegada.
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Quero dizer oque pouco se diz
Mas muito se escolhe,
Escolher falar sobre a escolha que escolhemos,
Não é oque reflete, é oque é a porta da reflexão,
O ponto de partida que lhe fez entrar na acção,
Da perda,
Do ganho,
Ou da decepção...
Nesta categoria, o amor não conhece uma só definição,
É o beijo que eterniza, o abraço que consola,
O amor de mãe, que faz do peito uma habitação,
E a amizade que permanece quando o mundo nos abandona.
É o amor-próprio, que floresce nas ruínas da existência,
E aquele que, mesmo sem retorno, não perde a sua essência.
Há quem escreva o amor com a tinta da felicidade,
E quem lhe dê voz através das lágrimas da despedida;
Há quem o encontre na presença, quem o guarde na saudade,
E quem descubra, na ausência, a sua dimensão mais dolorida.
Pois nem todo amor floresce, nem todo afeto permanece,
Mas cada forma de amar revela algo que a alma desconhece.
Amor — território vasto onde cada coração é um universo,
Onde cabem o sagrado, o humano, o sublime e o imperfeito;
Cada poeta traz uma verdade escondida em seu verso,
Uma história singular que o tempo inscreveu no peito.
E assim, entre mil formas, nenhum sentimento é igual:
Porque o amor é universal, mas a sua experiência é pessoal.
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Habita o absoluto, onde a eternidade se ajoelha,
além do véu da existência e das ruínas do saber;
é a essência que nem a própria perfeição espelha,
o mistério que o infinito não consegue compreender.
Não há mancha que o defina, nem palavra que o contenha,
pois transcende a própria ideia de ser ou não ser;
é o silêncio antes do verbo, a verdade sem testemunha,
o princípio que não nasce, nem precisa perecer.
E se o universo inteiro ousasse desvendar-lhe a essência,
despido de suas leis, de sua luz e de sua razão,
descobriria que há grandezas além da consciência,
e que o eterno, por vezes, não cabe na criação.
Imaculado Inatingível — não por estar distante,
mas por não existir altura que o possa alcançar;
pois há o que é grande, há o que é infinito…
e há aquilo diante do qual até o infinito aprende a silenciar.
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Parte II
Se o amanhã não guarda o que sonhei,
que faço eu das promessas que inventei?
Se o amor que esperei jamais chegasse,
seria menos amor se eu o esquecesse?
Talvez o coração, por desejar,
faça do impossível um lugar,
e habite nele, mesmo sabendo
que há sonhos que nascem já morrendo.
Já não procuro o rosto que imaginei,
nem peço ao tempo aquilo que perdi;
pois compreendi, depois que tanto amei,
que há despedidas que começam em si.
O que não foi, não há de ser um dia,
nem toda ausência traz companhia;
há portas que o destino fecha em vão,
para ensinar o rumo ao coração.
E se amanhã vier sem teu regresso,
não mais perguntarei por que partiste;
farei do meu silêncio um novo verso,
do que era dor, a força que não viste.
Pois quem aprende a caminhar sozinho
descobre que também existe caminho
onde outrora só havia escuridão,
e nasce uma esperança da solidão.
Talvez o amor não seja o que esperamos,
nem viva no futuro que sonhamos;
talvez seja a coragem de deixar
aquilo que não quis permanecer.
E quando o último sonho adormecer,
quando o passado já não nos chamar,
se o amor do amanhã nunca existiu,
será que o coração, enfim, já o descobriu?
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Escrevo sobre amor
Oque todos têm e poucos enxergam,
Escrevo sobre amor
Sem dor,
Sem rancor,
Com cor,
Escrevo sobre amor
A parte da vida que nos tornam humanos...
Prometi ao meu peito um novo dia,
onde o amor, qual estrela, despontasse;
mas o tempo, senhor da fantasia,
levou-me o sonho antes que começasse.
Guardei no amanhã minha alegria,
sem ver que o amanhã jamais chegasse;
e assim, entre esperanças e desenganos,
fui envelhecendo à espera dos anos.
Amei uma promessa ainda não nascida,
dei nome ao que o destino não escrevera;
fiz do futuro a morada da vida,
quando a vida, em silêncio, me dissera
que toda flor que espera ser colhida
pode morrer antes da primavera.
E o coração, tão cego de esperança,
confundiu o porvir com uma lembrança.
Quantas vezes beijei a própria ausência,
pensando ouvir passos no corredor?
Quantas vezes chamei de permanência
aquilo que era apenas meu ardor?
Fiz do talvez uma eterna existência,
e do silêncio uma promessa de amor;
mas quem vive esperando pelo dia
pode perder o sol que já nascia.
Hoje não sei se o amor que tanto espero
mora além do tempo ou já passou;
se foi destino, acaso, ou desespero,
se era meu sonho ou se nunca existiu.
Talvez amar seja querer o que não veio,
e morrer por um amanhã que nunca abriu...
Mas, se o amor que espero não existe amanhã,
por que ainda o meu peito o espera pela manhã?
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Fui presença onde eu era apenas ausência,
dei meu coração a quem não quis sentir,
fui primavera em terras sem esperança,
e não soube onde devia florir.
Fui silêncio para quem pedia palavras,
e palavra para quem não quis escutar,
dei abrigo a almas que eram frias,
enquanto alguém me esperava para ficar.
Talvez o erro não tenha sido amar,
mas oferecer-me onde eu não era visto;
pois há olhos que contemplam o rosto,
mas jamais conseguem enxergar o íntimo.
E assim aprendi, entre perdas e enganos,
que nem todo coração merece o meu;
às vezes somos para quem não nos vê,
e não somos para quem nos escolheria pelo que é seu.
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