Quando a vejo,
minhas retinas andarilhas,
acham caminho suave
e de sombra comprida,
e logo minhas entranhas
se desorganizam em ritmo
descompassado.
Tudo de fato, presságio
de reações inevitáveis.
Tudo tão certo,
diferente do seu mistério
voluptuoso.
— Gabriel Gutembergue
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Será que mal eu fiz
a puta que me fez
infelicidade
de parir aquela pseudo-humana?!
Cobra rasteira,
que ataca sem pudor,
de retinas indigentes,
pois delas nada se sabe,
que só ama a abstração
do seu próprio egoísmo
sem sabor.
Não sei se mato
da minha introspecção,
se como viva,
se como primeiro a cabeça
e depois o rabo...
não sei por que
há saudade
daquele ser desgraçado,
do beijo molhado
e cangote perfumado.
— Gabriel Gutembergue
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No ínterim entre o presente
e o futuro,
não sei se choro meus mortos
se corro em ato de covardia
ou me faço novo em silêncio,
pois a esperança não está
na chegada da aurora…
A esperança se dá sobre os versos,
sobre a concretização da ideia,
ideia que pode ser só um elefante
branco ou uma navalha que rasga
e sangra de maneira visceral.
De modo imediato não posso
expressar 1/4 do meu pensamento,
refugiarei-me no covarde
e abstrato campo das ideias,
e que não pode se tornar concreto.
Agora, nada pode ser mais dito,
escrito ou sinalizado,
tudo o que está borbulhando,
e fica dissolvendo-me e me dilacerando
vai nesse intervalo entre o quase
e o fim, morrendo junto comigo.
— Gabriel Gutembergue
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Completavam-se nossos discursos
em cada dado momento exaurível,
sob as nossas cabeleiras
existiu uma lua que brilhava,
mas não tanto quanto os nossos
olhos vermelhos e desnorteados,
fomos personagens de um enredo
construído com toda a liberdade
poética.
Fomos amigos, trapaceiros,
e sobretudo amantes.
Viajamos nos nossos mundos
íntimos, sólidos e solitários,
no entanto, dicotômicos.
Estamos perdidos nos nossos
devaneios familiares.
— Gabriel Gutembergue
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Em efêmero estado monólogo,
vago por ruas distraído,
sinto-me só, mesmo cercado
por desconhecidos transeuntes
observando-me abismados
com tal suposta loucura
e Intrigante lucidez,
tudo isso como fardo
de encontrar o melhor enunciado
para comunicar-me com aquele
extinguido ser, que num fundo
é apenas uma mistura de esperneia,
chatice e altivez irônica,
mas que possui
por trás das cortinas
das suas retinas, um mundo
de fantasia e perigo
que me atiça e condiciona
a querer desbravar
cada centímetro
de todo o seu devaneio
convidativo e psicotrópico.
— Gabriel Gutembergue
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Antecipo o fim
sob o respaldo dos efeitos
colaterais de um crônico
egoísmo que me satura
significativamente e torno-me
assiduamente nômade
e mudo para diferentes
corações em um curso
efêmero, ininterrupto e poético,
mas faço-me playground
deixado que divirtam-se
e apaixone-se pelas múltiplas
facetas que detenho.
— Gabriel Gutembergue
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Amo e me aventuro
na maneira bárbara
dela me olhar,
mas também na maneira
cínica e desconfiada.
Às vezes fico temporariamente
cego e irracional
e atravesso o peito dela
fora da faixa de pedestres,
sem medo de ser atropelado
pela quantidade expressiva
de personagens que existem
dentro daquele belo ser.
Bela como o azul do céu,
água do mar e do seu sapato
rumo a minha direção,
beija minha bochecha e fico bobo,
a garota é louca, inefável
risonha, e quando séria
a garotinha tem algo para
contar, e conta só com o olhar,
olhar expressivo e estonteante.
(Gabriel Gutembergue)
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Desejar ter aquele ser,
é desejar ter uma fera
que devora e vomita,
porque não há fome
para alimentar.
Devora sem desejo,
devora por devorar,
devora, descarta, larga
e sai faminta sem fome.
— Gabriel Gutembergue
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Sinto-me saturado,
nada serve.
Vezes sou café:
amargo e ruim quando frio,
mas com um pouco de açúcar
(Suborno, carinho, submissão),
fico "doce" ou menos amargo,
mas amargo ainda.
Vezes sou tímido:
como a cidade do Recife,
sábado à noite.
Sou um poeta vivo esquecido,
quando eu morrer não quero
ser imortalizado em concreto
ao relento,
em todos os versos estarei
vivo,
da carcaça quase nada servirá,
só servirá para os decompositores
consumirem com voracidade,
assim como os amores
me consumiram vivo.
Vezes sou amor:
amor descompassado, desatino.
Depois de todos esses versos,
neste exato momento,
quem sou?
Talvez poeta e fingidor,
fingindo a dor que deveras sinto.
(Gabriel Gutembergue)
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Te escrevo toda poesia,
mas só ela não basta.
És como um deus,
não posso tocar,
mas te adoro com voracidade
e com reverência.
És meu suborno e meu medo.
És céu e inferno,
e quero desbravar os dois.
Te beijo em cada esquina proibida,
és maçã vermelha,
és a maçã e a cobra também,
estou sujeito a ser expulso
do paraíso.
(Gabriel Gutembergue)
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