Com a coberta acima da minha cabeça
Meu coração retumba inclemente
O mundo some ao meu redor
Ou imploro por isso
Quando apagada e calada
Tudo me preenche ao ponto de explodir
Ansiando rasgar carne e quebrar ossos
E carregar meu corpo pesado perante o dever
Retorno ao começo de tudo
A espera ansiosa da minha chegada
Minha individualidade imaginada como um milagre
Envolvida no ventre de amor e segurança
Quando ainda não era só
Não era eu
Sinto falta de não ser
Sinto falta de não ter um nome para ser chamada
Mas nasci
E agora preciso pagar por isso
Adesivos desgastam-se inutilmente no parabrisas
Frases de adoração satirizam uma alma exausta
Crucifixos se empoeiram nas paredes
Onde hematomas são escondidos por saias decentes
E a boca que profere sermões fervorosos
É a mesma que se delicia na boca de outra mulher
Mamãe está chorando
Mas Deus não vê
Quando vestem sorrisos cordiais no domingo de manhã
Ou quando as suas mãos estavam no pescoço dela
Não existe quem possa apagar seus pecados
Ou a memória de quem presenciou de perto
E não tinha altura suficiente para entender
Nada apaga isso
Nem louvores bem cantados
Ou orar de mãos dadas no jantar
Porque sexo não dorme quando as luzes se apagam
E as crianças continuam depressivas quando as veste
Faço dos meus livros empoeirados meus sábios conselheiros
Das páginas amareladas meu cobertor no terror da noite
Os personagens minhas inspirações honrosas
Das palavras e versos um ouvinte quando minhas vísceras se derramam sob cada parágrafo
Neles rio, choro, sofro e sangro com cada batalha perdida
Sangro sob as poesias quando minha veias se secam
Quando minhas palavras são engolidas e meu corpo está prestes a explodir
Transformo em gritos e assassinatos sob o papel as mentiras
Meus versos são agressividades veladas
Vontades esquecidas no abismo do meu inconsciente
São meus corpos empilhados sob uma mente exausta
Meus silêncios carregam anos de aperfeiçoamento
Tornando a espera e atuação meu espírito mais afiado
Construindo uma mente forte quando meu corpo não foi
Me matando e me reconstruindo
Feridas sob feridas fibrosas
Deformam meu retrato
Canto as emoções que nunca poderão ganhar voz
Danço com as notas quando quero rasgar carne
Canto sobre fantasmas de um castelo de mentiras
Cada canção uma invocação de uma verdade enterrada
Canto sobre verdades que pairam sob vidas mentirosas
Demônios que ninguém vê
Demônios que ninguém quer ver
Quando o desespero toma
Quando a penumbra tranquila da noite
Sufoca e se transforma em tormento
Quando se está sozinho e o vazio bate a porta
Vejo o coelho ansioso me chamando
E minha única escolha se torna o entorpecimento
Eu acendo a chama admirada com um calor esquecido
Aos lábios levo o cigarro tal qual uma chupeta
Mas não sou mais criança
E não há quem me segure
Puxo o ar como meu último fôlego
Odiando cada segundo disso
Mas ansiando pelo conforto do torpor me cobrir
Invejando as memórias esquecidas
Dos abraços quentes que não sufocam
Do instinto materno de cuidado sem dividas
Do calor e segurança
Que não me deixem cair
Mas agora eu caio
E não há quem me segure
Não há conforto no meu desespero
Nosso amor supera mais um ano
De vidas a vir
Mundos
Transcendendo todas as leis e medidas
Assim como o seu cósmico
E caótico ser
Que a cada pequena expressão
Um pequeno escape
Da terrível
E deslumbrante nebulosa
Por baixo de sua frágil pele que adoro cada centímetro
Queima e respira
A existência mais bela e transcendental
Que tive a honra de sentir
Amar
Admirar
E compartilhar o presente
Que é degustar o tempo ao seu lado
Viver a meu breve e efêmero suspiro
Queimando e dançando com sua alma
Não poderia chamar você de humano
Quando você supera todos as leis do mesmo
E apesar disso
Ser mais humano do que a maioria
Da sua forma mais frágil e visceral
E eu amo
Da sua fragilidade
A sua inquestionável força irredutível
Eu vejo você
E eu amo
Vagueio pela névoa espessa em minha mente
Meus sentidos anestesiados
Meu corpo pesado se arrasta
Não vejo
Não ouço
Não sinto
Não ajo
Não falo
Eu estou morta?
Tento me provar para mim
E para os outros
Que existe algo por trás desses olhos
A outra de mim
Presa na redoma a sete palmos do meu ser
Ela está acordada
Ela vê
Ela ouve
Ela sente
Ela quer agir
Ela grita
Mas todos seus esforços interrompidos pela redoma
Meu inébrio ser
Tenta a alcançar em meio ao seu torpor
Uma precisa da outra
Ela procura pelos ruídos abafados
Distantes
De súplicas esquecidas
Indecifráveis
Meu ser viciado
Ouve distantemente
O arranhar frenético
Os estampidos persistentes
Implorando para ser encontrada
Ela se ouve mas a névoa varre de sua mente
Seu corpo
Qualquer pensamento
Qualquer vontade
Qualquer ação
Tentando incessantemente
Sair do abraço da neblina
Eu me ouço distantemente
Uma mão estendida ao vazio
Mas quanto mais tempo se passa
Mais me enveneno
Essa pergunta ronda pela minha mente
Farejando por algo
Se perdendo em todas versões
Entre as que são
As que não são
As que precisam ser
As forjadas
As que foram
As que quero ser
Ao o que preciso sobreviver
O que preciso suportar
E como preciso me moldar
Todas elas ainda estão dentro de mim?
Vagando como fantasmas?
Entre camadas de pensamentos
Entre níveis de consciência?
Estão a sete palmos de meu cemitério pessoal?
Ou sou algo totalmente novo e inexplorado?
Quem sou eu?
Ar pulsante em meus pulmões
Ambiente pálido e opaco
Olhos pesados enquanto uma corda aperta meu pescoço
Vozes sem algum traço de vida
Toques sem um traço de intenção
No ar viciado da redoma me inebrio
Coração retumbante palpita
Uma máquina quebrada
Uma bailarina que não gira
Uma plateia descontente
Um circo em chamas
Toques sobre um corpo indecente
Preces a um deus morto
Palavras jogadas ao vazio
Os dedos gélidos de um defunto
Evoluir, adaptar
Sobreviver
Suportar
Deleite de momentos calorosos
Um conforto constante
Conexão viva e pulsante
Com doçura o ar se preenche
Porém
Não uma pequena porção do cômodo
Dele os olhos como de uma criança
Minha alma arrepiada por uma simples risada
Bom
Esse momento é bom
Mas
Algo está fora do lugar
Meu coração se acelera
Mãos suadas
E na pequena parte do cômodo
Mais e mais forte a presença se torna
Meu peito se aperta
A dúvida envolve
Decepção amarga minha língua
Raiva explosiva e dolorosa
Pulsa dentro de mim
Meu olhar se transforma sobre ele
Meu espinho na carne
Minha atenção retorna
Ao calor reconfortante
Ao sonho tranquilo
Bom
Esse momento é bom
Nada mais importa
Como um tique taquear de um relógio
Marcante
Barulhento
Como o som de um bule estridente
Uma presença constante
Um lembrete constante
Olhos de soslaio
Reconhecem o fantasma
O olhar fito em nós
Ele sabe
Ele existe
Em meio ao embriagar do calor
Como um simples sobressaltar noturno
O esquecimento
Uma dádiva
A arte liberta
Liberta o fluxo da melodia inata
Porém , coragem é necessária
De ser
De existir
Ouvir a melodia da existência
Abraça-la
Com todas as notas
As batidas caóticas
As pausas extendidas
As paletas de cores infinitas
É preciso ousadia
Libertar dos padrões
A ânsia por ser algo
A obrigação
O dever
A essência não deve nada
É selvagem
Bela
Livre
Assim como nós
Como o céu
As estrelas
O mar
E a tempestade
Viemos do pó
E ao pó retornaremos
Viemos da natureza
E à natureza retornaremos
Não fomos fabricados
Não somos destinados
Não nascidos de um escritório
Ou igreja
Nascidos do éter
Da energia bruta
Etérea
E selvagem
A natureza inata não tem sentido
Ou propósito
Por isso somos livres
A arte
Um veículo
Um rito milenar
De adoração a liberdade
À vida
À individualidade
Vibrante e pulsante
Em cada indivíduo
Uma dádiva