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Bruno Germano

@bruno_germano · desde 2021

"Não quero recordar nem conhecer-me, Somos demais se olhamos em quem somos" Fernando Pessoa Seja bem-vindo(a)!

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Selvagem

Se as paredes do Velho Mercado falassem A cidade inteira ouviria, boquiaberta Sobre as loucuras no escuro, a céu aberto Nem sequer a mata do jardim ainda é virgem Não sou o Zé Ramalho Com um belo Chão de Giz Papéis e o verde da paisagem Foram um nobre assoalho Éramos os Dois Animais de Alceu Valença Violando morais carnais nas praças Indecentes, desprovidos de vergonhas À vontade, como cães atrevidos nas ruas Selvagem como sou Ardente e sem pudor De vontade dominante E desejo inconsequente Vou te tomar de assalto Te levar fora do tempo e do espaço Possuir com força o seu corpo nu Num ato insano de amor

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Seu destino será cruel

Tenho palavras guardadas Feito balas na agulha À espera do gatilho Prontas para perfurá-lo Piso em cima dos seus rabos presos Ultrajado, não podes espernear Bolindo à mão teus podres segredos Não me infecto, mas posso espalhar Desgraça do homem é chegar ao topo Fundado em lamas, tramas e detritos Chorume, carcaças e lodo, apodrecendo Ansiosos, há tempos, para afogá-lo Não há escapatória, nem absolvição Quando o destino anela por tragá-lo Pouco a pouco, sem força, por inanição Há de o suprimir, combalir e devorá-lo O destino não é fera, é paulatino e frio Valido da razão, em que espera, a ruí-lo Suga gota a gota, atira pedra por pedra Tortura, revira, instiga agonia na queda

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Essa noite não passa

Essa noite não passa... Essa noite não passa... Essa noite não passa... Essa noite não passa... Pensamento viaja distante Não encontro horizonte Perdido dentro de mim Essa noite não passa... A mente não descansa Vejo sombras sem fim Tudo escuro assim Essa noite não passa... O frio intenso me agarra Me apertam meus delírios Ressurgem meus martírios Essa noite não passa... A noite me abraça Não estou sozinho A noite está comigo Essa noite não passa... Como passam pessoas Por entre nossas vidas Abrindo duras feridas Essa noite não passa... A noite sempre me abriga Me aguarda e consola Ouve atenta em seu lugar Essa noite não passa... A noite é minha amiga Me abraça e me cura Absolve minha culpa Essa noite não passa... A noite é constante Paciente, a esperar Seu eterno habitante Essa noite é meu lar

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Amor

Incerteza definitiva

Talvez seja eu o amor da sua vida Ou apenas o senhor da sua cama O frio atroz de suas noites sozinha Porventura, a matéria que sonhavas Talvez em meu peito a afagaria Ou viajaria enquanto me calo Em silêncio, distante, incerto Tu provas o dissabor da agonia Talvez nossa união seja desgraça Minhas intenções, pura neblina Meu interesse, turva fumaça Não és minha dona, mas inquilina Talvez nossa união seja uma euforia Entorpecida, inerte, dopada de gozo Esqueces o amor, mera quinquilharia Fantasia frágil ante um forte orgasmo Talvez o problema seja a lucidez Pelo prazer roubada, recuperada Vês que há vida além da cama De eu negá-la, queres os porquês Talvez a indefinição seja sinceridade Incerteza definitiva, alheia ao que faças Enovelo um emaranhado de palavras Oculto bem longe de ti toda a verdade

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Amor

Monumento de estrógeno

Monumento de estrógeno Fina fala, mansa, delicada Doce, suave, aveludada Meu desejo afrodisíaco Escultura, traços paradisíacos Pura aura de um estado onírico Curvas lindas desenhadas Bela simetria, harmoniosa Cheiro, encanto vivo de mulher Feitiço olfativo, tudo o que cobiço Caminho direto ao plano do prazer Estímulo completo dos sentidos Como pode um hormônio tão incrível? Que realça, feminiza, diferencia Macho e fêmea, mulher e menina Mensageiro da beleza e da poesia Tecidos finos de seda, adiposos Ao esmero distribuídos, sinuosos Num belo projeto esquadrinhado Pelo gênio construtor do Olimpo Diga-me que estou exagerando Fale que sou um mero parnasiano Apenas não afirme que é delírio Sejas o colírio dos meus olhos

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Humanidade

A outra vida de Narciso

Há um antigo mito grego que narrava A saga de um belo homem que se via Sorria, apaixonava-se e a si desejava Vagava a vida com a alma envaidecida Fez-se cego de tanto ver e contemplar a si Buscou obstinadamente seu reflexo n'água Ofuscado, ele não percebia que se afogava Nessa procura, Narciso encontraria seu fim Ao longo das eras, no decurso das vidas Narciso voltou, reencarnou no século XXI Embora por outros modos, segue a história Que já se tornou um clássico lugar-comum Esse homem agora jaz preso numa tela Brilhante, de luzes, de cores, de tons, de led Não é nada celeste, mas coisa terrestre Enganosa e traiçoeira natureza humana... Os vícios pelos séculos transformam-se Decerto, possuem poderes metamórficos E o homem se prende por teias, correntes Por cordas, rastreadores, magneticamente Na vida passada, ao menos via realmente Sem filtros, distorções ou lentes diferentes Via gente, como a gente, via simplesmente Com defeitos, sem efeitos, via claramente

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