Se as paredes do Velho Mercado falassem
A cidade inteira ouviria, boquiaberta
Sobre as loucuras no escuro, a céu aberto
Nem sequer a mata do jardim ainda é virgem
Não sou o Zé Ramalho
Com um belo Chão de Giz
Papéis e o verde da paisagem
Foram um nobre assoalho
Éramos os Dois Animais de Alceu Valença
Violando morais carnais nas praças
Indecentes, desprovidos de vergonhas
À vontade, como cães atrevidos nas ruas
Selvagem como sou
Ardente e sem pudor
De vontade dominante
E desejo inconsequente
Vou te tomar de assalto
Te levar fora do tempo e do espaço
Possuir com força o seu corpo nu
Num ato insano de amor
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Tenho palavras guardadas
Feito balas na agulha
À espera do gatilho
Prontas para perfurá-lo
Piso em cima dos seus rabos presos
Ultrajado, não podes espernear
Bolindo à mão teus podres segredos
Não me infecto, mas posso espalhar
Desgraça do homem é chegar ao topo
Fundado em lamas, tramas e detritos
Chorume, carcaças e lodo, apodrecendo
Ansiosos, há tempos, para afogá-lo
Não há escapatória, nem absolvição
Quando o destino anela por tragá-lo
Pouco a pouco, sem força, por inanição
Há de o suprimir, combalir e devorá-lo
O destino não é fera, é paulatino e frio
Valido da razão, em que espera, a ruí-lo
Suga gota a gota, atira pedra por pedra
Tortura, revira, instiga agonia na queda
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Essa noite não passa...
Essa noite não passa...
Essa noite não passa...
Essa noite não passa...
Pensamento viaja distante
Não encontro horizonte
Perdido dentro de mim
Essa noite não passa...
A mente não descansa
Vejo sombras sem fim
Tudo escuro assim
Essa noite não passa...
O frio intenso me agarra
Me apertam meus delírios
Ressurgem meus martírios
Essa noite não passa...
A noite me abraça
Não estou sozinho
A noite está comigo
Essa noite não passa...
Como passam pessoas
Por entre nossas vidas
Abrindo duras feridas
Essa noite não passa...
A noite sempre me abriga
Me aguarda e consola
Ouve atenta em seu lugar
Essa noite não passa...
A noite é minha amiga
Me abraça e me cura
Absolve minha culpa
Essa noite não passa...
A noite é constante
Paciente, a esperar
Seu eterno habitante
Essa noite é meu lar
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Talvez seja eu o amor da sua vida
Ou apenas o senhor da sua cama
O frio atroz de suas noites sozinha
Porventura, a matéria que sonhavas
Talvez em meu peito a afagaria
Ou viajaria enquanto me calo
Em silêncio, distante, incerto
Tu provas o dissabor da agonia
Talvez nossa união seja desgraça
Minhas intenções, pura neblina
Meu interesse, turva fumaça
Não és minha dona, mas inquilina
Talvez nossa união seja uma euforia
Entorpecida, inerte, dopada de gozo
Esqueces o amor, mera quinquilharia
Fantasia frágil ante um forte orgasmo
Talvez o problema seja a lucidez
Pelo prazer roubada, recuperada
Vês que há vida além da cama
De eu negá-la, queres os porquês
Talvez a indefinição seja sinceridade
Incerteza definitiva, alheia ao que faças
Enovelo um emaranhado de palavras
Oculto bem longe de ti toda a verdade
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Monumento de estrógeno
Fina fala, mansa, delicada
Doce, suave, aveludada
Meu desejo afrodisíaco
Escultura, traços paradisíacos
Pura aura de um estado onírico
Curvas lindas desenhadas
Bela simetria, harmoniosa
Cheiro, encanto vivo de mulher
Feitiço olfativo, tudo o que cobiço
Caminho direto ao plano do prazer
Estímulo completo dos sentidos
Como pode um hormônio tão incrível?
Que realça, feminiza, diferencia
Macho e fêmea, mulher e menina
Mensageiro da beleza e da poesia
Tecidos finos de seda, adiposos
Ao esmero distribuídos, sinuosos
Num belo projeto esquadrinhado
Pelo gênio construtor do Olimpo
Diga-me que estou exagerando
Fale que sou um mero parnasiano
Apenas não afirme que é delírio
Sejas o colírio dos meus olhos
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Há um antigo mito grego que narrava
A saga de um belo homem que se via
Sorria, apaixonava-se e a si desejava
Vagava a vida com a alma envaidecida
Fez-se cego de tanto ver e contemplar a si
Buscou obstinadamente seu reflexo n'água
Ofuscado, ele não percebia que se afogava
Nessa procura, Narciso encontraria seu fim
Ao longo das eras, no decurso das vidas
Narciso voltou, reencarnou no século XXI
Embora por outros modos, segue a história
Que já se tornou um clássico lugar-comum
Esse homem agora jaz preso numa tela
Brilhante, de luzes, de cores, de tons, de led
Não é nada celeste, mas coisa terrestre
Enganosa e traiçoeira natureza humana...
Os vícios pelos séculos transformam-se
Decerto, possuem poderes metamórficos
E o homem se prende por teias, correntes
Por cordas, rastreadores, magneticamente
Na vida passada, ao menos via realmente
Sem filtros, distorções ou lentes diferentes
Via gente, como a gente, via simplesmente
Com defeitos, sem efeitos, via claramente
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