É uma goiabeira como tantas outras; perdeu a oportunidade de não ser quando emitiu seus cotilédones e criou raízes, troca de casca e segue sendo uma goiabeira, nunca um mamoeiro ou uma mamoneira. Vez ou outra dá flores que são lindas e cobrem o chão com suas pétalas, vez ou outra dá doces frutos, às vezes perde as suas folhas amargas e seca, quase me esqueço que é uma goiabeira, mas mesmo assim, mesmo que não perca só as folhas mas também os galhos, seja arrancada e plantada no lugar de uma roseira, sempre será apenas uma goiabeira, se não quiser ser, torne-se lenha, então cinza, depois solo e reze para não ser goiabeira.
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Se pudesse, quereria que, a cada dia, especialmente aos anos bissextos, pudesse admirar você, a cada hora do meu dia, especialmente quando acabar o horário de verão, ter o seu rosto em minha visão, a cada segundo, para que não esquecesse o que é belo.
Se tenho você em vista, acredito, então, que existe amor, beleza e esperança no mundo. Mas, ao passo que te perco, sou alcançado por tamanha tristeza, tamanha desgraça, que perde o sentido qualquer coisa que não seja a turva lembrança do doce dos seus olhos.
Quero amar-te até a exaustão. Tanto observar-te-ei, a ponto de queimar em minha visão o contorno de seu corpo escultural, porque, se não o faço, evapora toda a maravilha e me deixa um peixe sufocando onde falta a sua graça.
Exijo de ti, para que a vida seja bela, sua perene presença. Nem que não me toque, mas que esteja. Isso porque não sei outra maneira de viver a vida que não seja iluminado pela sua existência, sendo sua perfeição meu alicerce.
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Essa noite, me despi de carne até que sobrasse só essa imensa solidão de que sou feito e fui de bar em bar, procurando, no fundo dos copos, outra alma que estivesse tão vagante quanto.
Não te encontrei nesse oceano de almas que perdidas, à sua maneira, não como eu ou você.
Meu conforto está na fé de que o mar que banha minha indiferença também banha a sua, apesar da distância, e, ainda que estejamos cobertos pelo mesmo céu nublado, de alguma forma faz esse nada que sinto tornar menor, menos nada.
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Tenho medo de sempre levar pra você as mesmas dores, mas o que faço se é sempre o mesmo chicote que me corta as costas?
Por esse medo, me afasto. Sinto que não posso te levar essa cruz que sempre carrego. Me afasto enquanto me sinto esmagar. Quanto mais longe vou, mais longe estou. Mais bate o martelo no prego, que são as dores que sempre sinto e me perseguem como a minha sombra.
E me esperam na cama, como a própria cama. Me cercam e consomem. Se me tornasse cedro, tornaria ela a chama. Não se segura, como água no morro abaixo, é da natureza.
Os vermes que atormentam o ventre, rastejando no chão.
Eu.
Essa dor que prostra.
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Amor, vou deixar que passe essa vontade de preencher todos os seus espaços, sonhar que enfim encontre pedaços de mim nos seus vácuos, imaginar que, deitada, coberta, deseje o calor dos meus braços e, no caminhar sozinha da vida, imagine os meus passos lado a lado com os seus, que se entretenha no som que o silêncio faz e, porventura, imagine a minha voz.
Desejo sobreviver como um pensamento, sendo o abrigo que falta para fugir dos seus medos, no espaço que sobra dos meus dedos entre os seus dedos.
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Deixa marcado seus dedos no corremão da escada
Cigarro meio fumado e uma toalha na sacada
Faz parecer que sua ida foi temporária
Faz outro pra você, deixa esses óculos na estante
Me liga escondido, finge que ainda somos amantes
Deixa no fogão o seu arroz queimado
Só não mexe no café, esse de madrugada, eu faço
Deixa seu perfume, nem que seja um frasco
Deixa o despertador, que me acorda cedo no domingo
Deixa no banheiro seu shampoo, que eu usava escondido
Promete não passar nas ruas que ia comigo
Deixa eu ficar com a aliança, falar que sou seu marido
Muda de cidade ou até estado
Para eu falar que você só está viajando a trabalho
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Antes que tornasse verbo a minha vontade
Sofreu meu pai sob o sol covarde
Sofreu meu avô o intenso labor
Antes que fosse, já dizia, sou
Antes de cair me estendia a mão
Não escondo os calos, que edificaram nossa casa
Construí desde a fundação com meu pai, nossa morada
Ensinei meu avô, sua caligrafia falhada
Hoje sou homem e fui menino
Corri descalço na rua de terra
Ensinei meu irmão o volume da esfera
Aprendi com ele o valor da espera
Cuido, cuidei, fui e sou cuidado
Só verdeja a terra escarificada pelo arado
Deus que olhe os meus
Enquanto volto de tempo em tempo
Deus leve o perfume das flores nesse vento
Guarde eles, guarde um lugar
Bem-aventurados vieram de longe
Bem-aventurados têm para onde voltar
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Cedo, tomo café
e minha xícara cai no chão.
Não se quebra.
Só derrama o café
como se até ela soubesse
que eu já estava atrasado.
Limpo a mesa,
visto a roupa,
saio.
No ponto,
lembro do carregador
que ficou em casa.
Não volto.
O ônibus já vem.
Entro.
O ônibus quebra.
Chego atrasado.
Perco a entrevista.
“Tudo bem”, eu digo,
como quem ainda acredita
que o dia pode melhorar.
Decido fumar um cigarro
caminhando até o ponto.
Então chove.
A chuva apaga meu cigarro
antes que eu consiga terminá-lo.
Corro.
Não tenho capa.
O ônibus chega lotado,
espremendo gente,
guarda-chuvas,
cansaço.
Subo.
Chego à catraca
e enfio a mão no bolso.
Nada.
Procuro no outro.
Nada.
Meu dinheiro ficou pelo caminho.
Desço.
Vou a pé.
A chuva continua.
Meu tênis rasga.
Entro em casa molhado,
com fome,
sem dinheiro,
sem cigarro,
sem entrevista.
O dia ainda não acabou.
Procuro algo pra comer.
Abro o bolo que guardei
pra quando quisesse algum sentido.
Estava mofado.
Deito um pouco,
molhado mesmo.
Olho para o teto
e penso em tudo que deu errado.
Quando finalmente me cubro,
já não sei se estou cansado
ou derrotado.
Puxo a coberta até o rosto.
Amanhã tem mais.
E, antes de dormir,
penso:
Tudo deu errado.
Tudo está errado.
Estou condenado.
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Com a bota e a espora,
tive que ir embora.
Algo me esperava lá fora.
A escolha foi simples,
era me perder no Cerrado
ou sair do Cerrado
e perder você.
Fui queimando gasolina.
Em duas malas e uma mochila,
eu carreguei minha vida.
Me despedi num domingo,
deixei, coberto de lágrimas,
meu amor,
minha mãe,
minha madrinha.
Indo subir a cerra,
cavalheiro que odeia a guerra,
bem armado pela minha terra.
Fui com minhas finas pernas
e a coragem de quem sabe perder,
escalando o glorioso monte,
de tropeço em tropeço.
Encontrei nos que também estavam perdidos
amigos para caminhar.
Olhamos juntos para trás,
nossa estrada velha de chão pisado,
agora asfaltada.
De um boi,
fizemos boiada.
Sorrimos,
nos despedimos,
nos formamos.
Ai ai ai, que papelada.
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Eu sou a noite, eu bebo sangue, eu troco tiro,
Bandido, marginal, preto elegante.
Eu vejo tudo na rua, eu roubo, mato,
Meu olho é grande, eu sou a lua.
Saio de madrugada, encho a cara, durmo na calçada,
Fica ligado, sua filha tá mal acompanhada.
Desculpa doutor, ela sabe o que eu sou,
Insiste, entra no covil, grita meu nome, me chama de amor.
Esses cara de mullet, calça larga,
Eu de chinelo, bermuda e na cintura uma acromada.
Olhando bem pra você, sei porque ela é revoltada,
Eu não sou polícia, nem ela ladra, mas eu dou tapa na cara.
O senhor é estudado e eu nem sou letrado,
Mas olha pro meu pulso, meu relógio também é caro.
Você se pergunta o que faltava,
Meu pai perguntava o que é que tinha.
Doutor criou essa princesinha,
Que cola no baile cheia de amiguinha.
Aumenta o som, desce combo,
Onda da bala nem sabe cadê a calcinha.
E eu levo canto,
Eu como ela no carro,
Como ela no quarto,
Eu bato, boto ela de quatro.
Que belo contraste,
Meu pau parece o big bang,
Fazendo sombra naquele rabo.
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