Jup @anonimos_eternus
Vida

O bolo

Cedo, tomo café e minha xícara cai no chão. Não se quebra. Só derrama o café como se até ela soubesse que eu já estava atrasado. Limpo a mesa, visto a roupa, saio. No ponto, lembro do carregador que ficou em casa. Não volto. O ônibus já vem. Entro. O ônibus quebra. Chego atrasado. Perco a entrevista. “Tudo bem”, eu digo, como quem ainda acredita que o dia pode melhorar. Decido fumar um cigarro caminhando até o ponto. Então chove. A chuva apaga meu cigarro antes que eu consiga terminá-lo. Corro. Não tenho capa. O ônibus chega lotado, espremendo gente, guarda-chuvas, cansaço. Subo. Chego à catraca e enfio a mão no bolso. Nada. Procuro no outro. Nada. Meu dinheiro ficou pelo caminho. Desço. Vou a pé. A chuva continua. Meu tênis rasga. Entro em casa molhado, com fome, sem dinheiro, sem cigarro, sem entrevista. O dia ainda não acabou. Procuro algo pra comer. Abro o bolo que guardei pra quando quisesse algum sentido. Estava mofado. Deito um pouco, molhado mesmo. Olho para o teto e penso em tudo que deu errado. Quando finalmente me cubro, já não sei se estou cansado ou derrotado. Puxo a coberta até o rosto. Amanhã tem mais. E, antes de dormir, penso: Tudo deu errado. Tudo está errado. Estou condenado.

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