Ele não tinha rosto.
Tinha fita.
Na lapela, um terno bege impecável,
no pescoço, uma K7.
Aperta o play e ele anda,
aperta o stop e ele para no meio do deserto.
Ninguém sabe onde fica o rec.
Atrás dele, um sol laranja de papelão
que não esquenta, só repete:
um círculo dentro do círculo
dentro do círculo
como se o dia estivesse arranhado.
O céu é zebra.
Preto e branco ondulado
zumbindo no alto,
hipnotizando as nuvens
pra elas não fugirem do quadro.
Ele caminha numa estrada que não vai.
A estrada se enrola sozinha,
preta, branca, laranja, bege,
como uma fita magnética gigante
que alguém puxou da cabeça dele e jogou no chão.
À esquerda, duas flores laranjas gritam:
— ESCUTA!
À direita, as montanhas azuis fingem que são montanhas,
mas são só a capa do disco.
No arco, sem parede, mora um pedaço de céu com nuvem,
guardado para quando acabar o estoque.
Ele vai de mão no bolso,
elegante, desempregado de si mesmo,
com dois olhos vermelhos gravados,
dois botões de REC que nunca foram apertados.
Se você cruzar com ele,
não pergunte o nome.
Pergunte:
Que música está tocando aí dentro
e que estrada é essa que só anda
quando você aperta o play?
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a parte marcada da história
traduzida em cd’s
traziam na trama dos lp’s
fotos de trilhas na capa
cd’s e lp’s com capas históricas
época de capas
e sonoridades inesquecíveis
era protagonista de uma trilha verdadeira
uma coleção de imagens
quase uma coleção de sonoras
extensão das novelas
itens para casais
a própria capa em clima de novela
grande olhar além de romântico
certas músicas,outras novelas
capas sofisticadas,capas de trilhas
bastalguma ajuda dramática
cria totalmente um despertar inesquecível
hoje aquela produção tem identidade
em cada nostalghia um visual ousado
uma novela sobre a pedra maligna
quatro pedras,quatro amuletos
para o bem de todos
quatro mandalas,quatro patuás
quatro volumes internacionais
pedras volumosas no vale das pedras
na pátria do sassarico Silva é fera
mulher tieta um vamp radical
belareia para a novela da viagem
o salvador tieta Xica perigosa
uma lata para informadas peruas
um sonho que vira força
uma roda de desejo informado
a força do fogo,a força da forca
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Escolhi empresas
com um calendário híbrido,
são cruciais a reforma e o recolhimento
a partir das separação
simples tributação
quem prevê manutenção
precisamanhecer
para ver o sol nascer
fazer entender as opções
num regime de pontuações,
recolhimento híbrido,
empresas separadas
mantenedor precisamanhecer
para um nascimento tributado
pontuações híbridas
com opções separadas.
Sem simulações,
e sem simplificar a permanência
saber decidir pelo regimento dos cenários
o regimento tradicional
dos números
a alíquota tributária opta pelo fechamento
de um fevereiro mais híbrido
entre tantos deveres empresariais,
num cenário permanente,
as tradicionais simulações
fechamento híbrido do mês
com números empresariais.
Pede por uma recuperação
causada pós-pandemia
anos em companhia de sua concorrência
causando impacto lá no sul
enchentes tradicionais
com dizeres cheios de custos
de sustos
fábrica de crises sem juros
o sorvete jurídico vai derreter
essa alta judicial gauchesca,
sem concorrentes na pandemia
com recuperação sulista
sustos e juros
derretem os custos,
pandemia sulista,juro gauchesco.
Vá ver como essa tal de Krispy
é uma empresa constante,
vejabrir rotineiramente mil tentativas
de segredar o kreme,
o puro kreme do milho verde
o ano acelera as novas transformações
depois daquelefeito,
as lojas estão com suas expansões
a presença da poética paulistana
estreia no palco de São Paulo,
tentativa constante,kreme krispy krokante
transformação com aquelefeito
com expansões verdes.
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Não é mar de água,
é mar de palha.
Mar que não molha,
mas afoga.
Mar amarelo,
seco,
que range nos dentes.
O vento não faz onda,
faz redemoinho.
Levanta a palha
e ela dança
como se fosse espuma.
No sertão, o mar é ao contrário:
primeiro vem a seca,
depois vem o mar.
Mar de palha de milho
depois da colheita,
mar de palha de arroz,
mar de palha de coco
trançada na cabeça das mulheres.
Meu avô navegou esse mar.
Sem barco.
De pé no chão.
Com os pés rachados,
mas navegou.
Ele dizia:
"Quem vê palha,
vê pobreza.
Eu vejo colheita."
Mar da palha é mar de quem fica.
Mar de quem espera chover
para o mar de palha virar
mar de pão.
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Catalogaram-te em latim morto, em prateleira,
Coléoptères, Pl. 6 - inseto de papel,
mas esqueceram que tua carapaça inteira
é um violino que não sabe ser cruel.
Tens seis patas para fugir da partitura,
olhos de boi que nunca viram o chão,
e asas de renda que, por desventura,
são o arco que te toca sem perdão.
Quem te toca? O vento? O alfinete?
Quem te afina? A ciência ou Deus?
Soas quando o entomologista te repete
e dói - porque música em inseto dá adeus.
És besouro e és pranto e és gabinete:
um bicho que se toca para sair de si nos seus.
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No topo, o jardim floresceu antes da cabeça.
Rosas de carne, rosas de papel,
coroaram a santa que ainda nem nasceu.
Ela tem uma testa bordada de ouro,
um véu de renda que é também mortalha,
e por baixo do véu, fetos dormem em conchas,
como pérolas que esqueceram de virar gente.
Ela não tem corpo.
Tem um território em ruínas.
O peito é um mapa rasgado,
onde o vermelho não é tinta, é lembrança.
Do lado direito do seu silêncio,
bate um coração que não é dela.
É um coração-mundo,
um coração-atlas,
com artérias de estrada,
com ventrículos de cidade ocupada,
pulsando amarelo e musgo.
Ela o segura sem tocar.
Ela o ama sem caber dentro dele.
Embaixo, o vestido derreteu.
Virou campo de guerra,
virou placenta de vulcão,
virou neve suja de sangue primeiro.
Ela é duas coisas ao mesmo tempo:
a noiva que nunca sangrou
e a mãe que só sangrou.
E está tudo ali, em paz:
a flor e o bisturi,
a madona e o órgão exposto,
o sagrado que fecha os olhos
para não ver que o seu próprio coração
aprendeu a viver fora do peito.
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corpos: língua nariz olhos
sentidos ouvidos pelos palestinos
sentidos
[ o canudo de helena arruda ]
os canudos de mamão de ruanda
com os olhos nas mãos
uma rocinha síria
palestina sentida,olhos arregalados
um pé de arruda
dendê e camarão seco
as mãos sírias,ruandarregalada
secarruda,seca pimenteira
•
visão audição paladar
gay não tateia mulher
um olfato indígena
uma negra trans
mulher indígena não é índia
e seu paladar não é trans
corpo devastado por sentimentos
sem reciprocidade
guerra que a gente nunca sente
sinto isso nesta terra injusta
feito algum pleonasmo,algum feitiço
sinto que não é recíproco
são sentimentos que não justifico
ouve vê sente
freio o ódio com seus tiros,suas pauladas
xingamentos vírgula bombardeios
gosto de fazer oração
ecumênica invasão
sabor de fé
este férreo ateu
não se esquenta com deus
pois toda guerra trará ferida
corpo segue favorito para o matadouro
eu sigo para uma turnê pelo quintal
eu luto para não ser sangrado
finco semente no solo
não me sucumbo às misturanças
as primeiras cruzes do milênio
com dor faz-se o enterro do corpo
que seja uma mãe curda
que olha para este ser com outros olhos
que seja um ianomâmi
ouvindo os cientistas
que seja entendida a língua da armênia
que o professor não meta o nariz
no processo
todo livro keeping it together
é um livrobscuro
na terra de deus não há sentido
um usa a hostilidade d’outro
o ópio é inesquecível para o corpo
o deus da guerra é seu editor
ele é contra a imagem da expulsão
e neste absurdo desabitado
de frida orupabo
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Me rasgaram um olho na testa,
não para ver,
mas para ser visto.
Um olho maior que o rosto,
enferrujado de tanto olhar o mundo
e um olho pequeno, amarelo,
que ficou de resto,
espiando pela fresta.
Me puseram réguas na cabeça.
Traçaram uma cruz no meu crânio calvo,
como quem mira um planeta.
Eu queria ser rosto,
mas virei mira.
Eu queria ser gente,
mas virei mapa.
Dentro do olho grande mora um poço.
Dentro do poço, duas luas brancas.
Dentro das luas, nada.
E eu, de gola alta,
fechado até o pescoço,
guardo o silêncio de quem foi desenhado
e depois esqueceram de apagar.
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Meu barco esqueceu como se nada.
Encalhou na areia e agora finge que é casa.
Branco por fora, vermelho por baixo,
com vergonha do mar.
Deixei ele ali, LN 49,
com o mastro espetando a nuvem,
pra ver se chove peixe.
A capa amarela ali no canto sou eu,
ou era pra ser.
Tô olhando pro barco que tá olhando pro mar
que tá olhando pra lugar nenhum.
O mar me chamou ontem.
Disse: vem.
Eu disse: vai sem mim hoje que minha quilha tá com areia no sapato.
As ondas lá atrás latem mas não mordem.
O céu tá de ressaca.
E o barco, coitado, sonha que é navio
sonha que é igreja
sonha que é baleia branca que cansou de nadar.
Se eu entrar nele agora, a gente não sai do lugar.
A gente navega pra dentro.
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Aqui tudo aconteceu ao mesmo tempo
e por isso nada terminou.
Uma partitura tenta voar no canto superior,
mas foi mordida.
Do lado, pãezinhos desenhados à mão sonham em ser pão de verdade
no papel de padaria.
No centro, a conta:
Gastos -
pio - 3.00
almoço - 7.50
café - 7.50
como se a fome também tivesse preço e caligrafia azul.
Um saquinho de chá manchado é uma ilha marrom,
uma montanha,
um pulmão seco que ainda respira açúcar.
Dois círculos vermelhos —
não são círculos,
são bocas de xícaras que beijaram o papel e deixaram batom de vinho.
Uma eclipse a partitura em p, piano, baixinho,
a outra segura uma frase: _quería cada planta y a mujeres o niños delicados_
ARRIVEDERCI! grita um rasgo em alemão,
WIEDERSEHEN em italiano,
e no meio alguém murmura em espanhol
_sobre Barrio REUS AL SUR, como se vivía en..._
Amy Tan assina o rodapé de um romance que virou rascunho.
Horomi ½ 26 risca o tempo como quem diz: foi hoje, mas foi em 26 pedaços.
É isso:
um mapa de uma tarde em que alguém tomou café,
ouviu música,
escreveu uma lista,
leu sobre a Doctora Chand,
e deixou tudo cair no chão —
e o chão, generoso,
colou tudo de volta na ordem errada,
que é a ordem certa dos sonhos.
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