Foto de André Francisco Gil

André Francisco Gil

@anfrangil · desde 2019

poeta e escritor

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O Executivo do Lado B.

Ele não tinha rosto. Tinha fita. Na lapela, um terno bege impecável, no pescoço, uma K7. Aperta o play e ele anda, aperta o stop e ele para no meio do deserto. Ninguém sabe onde fica o rec. Atrás dele, um sol laranja de papelão que não esquenta, só repete: um círculo dentro do círculo dentro do círculo como se o dia estivesse arranhado. O céu é zebra. Preto e branco ondulado zumbindo no alto, hipnotizando as nuvens pra elas não fugirem do quadro. Ele caminha numa estrada que não vai. A estrada se enrola sozinha, preta, branca, laranja, bege, como uma fita magnética gigante que alguém puxou da cabeça dele e jogou no chão. À esquerda, duas flores laranjas gritam: — ESCUTA! À direita, as montanhas azuis fingem que são montanhas, mas são só a capa do disco. No arco, sem parede, mora um pedaço de céu com nuvem, guardado para quando acabar o estoque. Ele vai de mão no bolso, elegante, desempregado de si mesmo, com dois olhos vermelhos gravados, dois botões de REC que nunca foram apertados. Se você cruzar com ele, não pergunte o nome. Pergunte: Que música está tocando aí dentro e que estrada é essa que só anda quando você aperta o play?

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TRAZÍAMOS FOTOS.

a parte marcada da história                 traduzida em cd’s    traziam na trama dos lp’s       fotos de trilhas na capa  cd’s e lp’s com capas históricas          época de capas  e sonoridades inesquecíveis era protagonista de uma trilha verdadeira uma coleção de imagens                 quase uma coleção de sonoras  extensão das novelas        itens para casais           a própria capa em clima de novela grande olhar além de romântico   certas músicas,outras novelas  capas sofisticadas,capas de trilhas           bastalguma ajuda dramática cria totalmente um despertar inesquecível         hoje aquela produção tem identidade        em cada nostalghia um visual ousado uma novela sobre a pedra maligna  quatro pedras,quatro amuletos                       para o bem de todos      quatro mandalas,quatro patuás        quatro volumes internacionais pedras volumosas no vale das pedras  na pátria do sassarico Silva é fera         mulher tieta um vamp radical  belareia para a novela da viagem        o salvador tieta Xica perigosa uma lata para informadas peruas               um sonho que vira força      uma roda de desejo informado     a força do fogo,a força da forca

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QUEM ESCOLHE PRECISAMANHECER.

Escolhi empresas com um calendário híbrido, são cruciais a reforma e o recolhimento a partir das separação simples tributação quem prevê manutenção precisamanhecer para ver o sol nascer fazer entender as opções num regime de pontuações, recolhimento híbrido, empresas separadas mantenedor precisamanhecer para um nascimento tributado pontuações híbridas com opções separadas. Sem simulações, e sem simplificar a permanência saber decidir pelo regimento dos cenários o regimento tradicional dos números a alíquota tributária opta pelo fechamento de um fevereiro mais híbrido entre tantos deveres empresariais, num cenário permanente, as tradicionais simulações fechamento híbrido do mês com números empresariais. Pede por uma recuperação causada pós-pandemia anos em companhia de sua concorrência causando impacto lá no sul enchentes tradicionais com dizeres cheios de custos de sustos fábrica de crises sem juros o sorvete jurídico vai derreter essa alta judicial gauchesca, sem concorrentes na pandemia com recuperação sulista sustos e juros derretem os custos, pandemia sulista,juro gauchesco. Vá ver como essa tal de Krispy é uma empresa constante, vejabrir rotineiramente mil tentativas de segredar o kreme, o puro kreme do milho verde o ano acelera as novas transformações depois daquelefeito, as lojas estão com suas expansões a presença da poética paulistana estreia no palco de São Paulo, tentativa constante,kreme krispy krokante transformação com aquelefeito com expansões verdes.

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MAR DA PALHA.

Não é mar de água, é mar de palha. Mar que não molha, mas afoga. Mar amarelo, seco, que range nos dentes. O vento não faz onda, faz redemoinho. Levanta a palha e ela dança como se fosse espuma. No sertão, o mar é ao contrário: primeiro vem a seca, depois vem o mar. Mar de palha de milho depois da colheita, mar de palha de arroz, mar de palha de coco trançada na cabeça das mulheres. Meu avô navegou esse mar. Sem barco. De pé no chão. Com os pés rachados, mas navegou. Ele dizia: "Quem vê palha, vê pobreza. Eu vejo colheita." Mar da palha é mar de quem fica. Mar de quem espera chover para o mar de palha virar mar de pão.

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O Besouro que aprendeu a chorar em Sol Maior.

Catalogaram-te em latim morto, em prateleira, Coléoptères, Pl. 6 - inseto de papel, mas esqueceram que tua carapaça inteira é um violino que não sabe ser cruel. Tens seis patas para fugir da partitura, olhos de boi que nunca viram o chão, e asas de renda que, por desventura, são o arco que te toca sem perdão. Quem te toca? O vento? O alfinete? Quem te afina? A ciência ou Deus? Soas quando o entomologista te repete e dói - porque música em inseto dá adeus. És besouro e és pranto e és gabinete: um bicho que se toca para sair de si nos seus.

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A SANTA DO CORAÇÃO DESMAPEADO.

No topo, o jardim floresceu antes da cabeça. Rosas de carne, rosas de papel, coroaram a santa que ainda nem nasceu. Ela tem uma testa bordada de ouro, um véu de renda que é também mortalha, e por baixo do véu, fetos dormem em conchas, como pérolas que esqueceram de virar gente. Ela não tem corpo. Tem um território em ruínas. O peito é um mapa rasgado, onde o vermelho não é tinta, é lembrança. Do lado direito do seu silêncio, bate um coração que não é dela. É um coração-mundo, um coração-atlas, com artérias de estrada, com ventrículos de cidade ocupada, pulsando amarelo e musgo. Ela o segura sem tocar. Ela o ama sem caber dentro dele. Embaixo, o vestido derreteu. Virou campo de guerra, virou placenta de vulcão, virou neve suja de sangue primeiro. Ela é duas coisas ao mesmo tempo: a noiva que nunca sangrou e a mãe que só sangrou. E está tudo ali, em paz: a flor e o bisturi, a madona e o órgão exposto, o sagrado que fecha os olhos para não ver que o seu próprio coração aprendeu a viver fora do peito.

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CORPOS SENTIDOS.

corpos: língua nariz olhos  sentidos ouvidos pelos palestinos sentidos  [ o canudo de helena arruda ]  os canudos de mamão de ruanda                com os olhos nas mãos                           uma rocinha síria palestina sentida,olhos arregalados                               um pé de arruda                      dendê e camarão seco        as mãos sírias,ruandarregalada                secarruda,seca pimenteira • visão audição paladar  gay não tateia mulher       um olfato indígena          uma negra trans mulher indígena não é índia     e seu paladar não é trans  corpo devastado por sentimentos                         sem reciprocidade    guerra que a gente nunca sente          sinto isso nesta terra injusta feito algum pleonasmo,algum feitiço                  sinto que não é recíproco      são sentimentos que não justifico ouve vê sente  freio o ódio com seus tiros,suas pauladas             xingamentos vírgula bombardeios gosto de fazer oração     ecumênica invasão                   sabor de fé           este férreo ateu   não se esquenta com deus pois toda guerra trará ferida corpo segue favorito para o matadouro       eu sigo para uma turnê pelo quintal              eu luto para não ser sangrado                   finco semente no solo   não me sucumbo às misturanças       as primeiras cruzes do milênio com dor faz-se o enterro do corpo                          que seja uma mãe curda  que olha para este ser com outros olhos  que seja um ianomâmi                                 ouvindo os cientistas   que seja entendida a língua da armênia            que o professor não meta o nariz                 no processo  todo livro keeping it together                     é um livrobscuro na terra de deus não há sentido       um usa a hostilidade d’outro  o ópio é inesquecível para o corpo        o deus da guerra é seu editor  ele é contra a imagem da expulsão             e neste absurdo desabitado                               de frida orupabo

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O Olho que me mede.

Me rasgaram um olho na testa, não para ver, mas para ser visto. Um olho maior que o rosto, enferrujado de tanto olhar o mundo e um olho pequeno, amarelo, que ficou de resto, espiando pela fresta. Me puseram réguas na cabeça. Traçaram uma cruz no meu crânio calvo, como quem mira um planeta. Eu queria ser rosto, mas virei mira. Eu queria ser gente, mas virei mapa. Dentro do olho grande mora um poço. Dentro do poço, duas luas brancas. Dentro das luas, nada. E eu, de gola alta, fechado até o pescoço, guardo o silêncio de quem foi desenhado e depois esqueceram de apagar.

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LN 49

Meu barco esqueceu como se nada. Encalhou na areia e agora finge que é casa. Branco por fora, vermelho por baixo, com vergonha do mar. Deixei ele ali, LN 49, com o mastro espetando a nuvem, pra ver se chove peixe. A capa amarela ali no canto sou eu, ou era pra ser. Tô olhando pro barco que tá olhando pro mar que tá olhando pra lugar nenhum. O mar me chamou ontem. Disse: vem. Eu disse: vai sem mim hoje que minha quilha tá com areia no sapato. As ondas lá atrás latem mas não mordem. O céu tá de ressaca. E o barco, coitado, sonha que é navio sonha que é igreja sonha que é baleia branca que cansou de nadar. Se eu entrar nele agora, a gente não sai do lugar. A gente navega pra dentro.

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Inventário de uma mesa que não esquece.

Aqui tudo aconteceu ao mesmo tempo e por isso nada terminou. Uma partitura tenta voar no canto superior, mas foi mordida. Do lado, pãezinhos desenhados à mão sonham em ser pão de verdade no papel de padaria. No centro, a conta: Gastos - pio - 3.00 almoço - 7.50 café - 7.50 como se a fome também tivesse preço e caligrafia azul. Um saquinho de chá manchado é uma ilha marrom, uma montanha, um pulmão seco que ainda respira açúcar. Dois círculos vermelhos — não são círculos, são bocas de xícaras que beijaram o papel e deixaram batom de vinho. Uma eclipse a partitura em p, piano, baixinho, a outra segura uma frase: _quería cada planta y a mujeres o niños delicados_ ARRIVEDERCI! grita um rasgo em alemão, WIEDERSEHEN em italiano, e no meio alguém murmura em espanhol _sobre Barrio REUS AL SUR, como se vivía en..._ Amy Tan assina o rodapé de um romance que virou rascunho. Horomi ½ 26 risca o tempo como quem diz: foi hoje, mas foi em 26 pedaços. É isso: um mapa de uma tarde em que alguém tomou café, ouviu música, escreveu uma lista, leu sobre a Doctora Chand, e deixou tudo cair no chão — e o chão, generoso, colou tudo de volta na ordem errada, que é a ordem certa dos sonhos.

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