O Executivo do Lado B.
Ele não tinha rosto. Tinha fita. Na lapela, um terno bege impecável, no pescoço, uma K7. Aperta o play e ele anda, aperta o stop e ele para no meio do deserto. Ninguém sabe onde fica o rec. Atrás dele, um sol laranja de papelão que não esquenta, só repete: um círculo dentro do círculo dentro do círculo como se o dia estivesse arranhado. O céu é zebra. Preto e branco ondulado zumbindo no alto, hipnotizando as nuvens pra elas não fugirem do quadro. Ele caminha numa estrada que não vai. A estrada se enrola sozinha, preta, branca, laranja, bege, como uma fita magnética gigante que alguém puxou da cabeça dele e jogou no chão. À esquerda, duas flores laranjas gritam: — ESCUTA! À direita, as montanhas azuis fingem que são montanhas, mas são só a capa do disco. No arco, sem parede, mora um pedaço de céu com nuvem, guardado para quando acabar o estoque. Ele vai de mão no bolso, elegante, desempregado de si mesmo, com dois olhos vermelhos gravados, dois botões de REC que nunca foram apertados. Se você cruzar com ele, não pergunte o nome. Pergunte: Que música está tocando aí dentro e que estrada é essa que só anda quando você aperta o play?
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