Inventário de uma mesa que não esquece.
Aqui tudo aconteceu ao mesmo tempo e por isso nada terminou. Uma partitura tenta voar no canto superior, mas foi mordida. Do lado, pãezinhos desenhados à mão sonham em ser pão de verdade no papel de padaria. No centro, a conta: Gastos - pio - 3.00 almoço - 7.50 café - 7.50 como se a fome também tivesse preço e caligrafia azul. Um saquinho de chá manchado é uma ilha marrom, uma montanha, um pulmão seco que ainda respira açúcar. Dois círculos vermelhos — não são círculos, são bocas de xícaras que beijaram o papel e deixaram batom de vinho. Uma eclipse a partitura em p, piano, baixinho, a outra segura uma frase: _quería cada planta y a mujeres o niños delicados_ ARRIVEDERCI! grita um rasgo em alemão, WIEDERSEHEN em italiano, e no meio alguém murmura em espanhol _sobre Barrio REUS AL SUR, como se vivía en..._ Amy Tan assina o rodapé de um romance que virou rascunho. Horomi ½ 26 risca o tempo como quem diz: foi hoje, mas foi em 26 pedaços. É isso: um mapa de uma tarde em que alguém tomou café, ouviu música, escreveu uma lista, leu sobre a Doctora Chand, e deixou tudo cair no chão — e o chão, generoso, colou tudo de volta na ordem errada, que é a ordem certa dos sonhos.
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