André Francisco Gil @anfrangil

A SANTA DO CORAÇÃO DESMAPEADO.

No topo, o jardim floresceu antes da cabeça. Rosas de carne, rosas de papel, coroaram a santa que ainda nem nasceu. Ela tem uma testa bordada de ouro, um véu de renda que é também mortalha, e por baixo do véu, fetos dormem em conchas, como pérolas que esqueceram de virar gente. Ela não tem corpo. Tem um território em ruínas. O peito é um mapa rasgado, onde o vermelho não é tinta, é lembrança. Do lado direito do seu silêncio, bate um coração que não é dela. É um coração-mundo, um coração-atlas, com artérias de estrada, com ventrículos de cidade ocupada, pulsando amarelo e musgo. Ela o segura sem tocar. Ela o ama sem caber dentro dele. Embaixo, o vestido derreteu. Virou campo de guerra, virou placenta de vulcão, virou neve suja de sangue primeiro. Ela é duas coisas ao mesmo tempo: a noiva que nunca sangrou e a mãe que só sangrou. E está tudo ali, em paz: a flor e o bisturi, a madona e o órgão exposto, o sagrado que fecha os olhos para não ver que o seu próprio coração aprendeu a viver fora do peito.

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