Cleiton Ferreira

@Notielc_Silva · desde 2025

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Metamorfose

Era um sonho Sem medo de perder Com ansiar de alcançar Era uma buscar sem fim Mas tinha propósito Era um encanto nos olhos que nao se apagava Era uma anti frustração Um mergulho no desconhecido Uma confusão nostálgica do ainda nao vivido Era a construção de uma fábula no caminho do conhecimento Um amor desprendido e sem amarras Era a expectativa de viver o novo De desbravar a vida nas suas múltiplas facetas Era um desapego desmedido O não compromisso sistemático Era o linear de um destino nao tracado Uma sede por vitalidade Era uma vida solta Uma jornada simples e despretensiosa Era viver se renovando Recalculando a rota e nunca desistir Se renovar contra o tempo Era sentir a vida

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Fugas

É insuportável a dor do mundo Sinto o pulsar da consciência Sigo exausto diante da multiplicidade das coisas Tento menosprezar meus medos para se possível enganar deus Falo de mistérios para assim abafar minhas vontades Diante do divino finjo ser bom para evitar meus próprios erros As larvas nao sabem porque devoram o corpo Somos devorados pelo tempo e fingimos nao saber Vivemos cheios de vazios para nos completarmos de algum modo E a vida, essa faz a cobrança tirânica Armas postas para a batalha já vencida.

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Despertar

Sublime sao os corações dos anjos que nunca batem de aflição Enquanto nós em carne, amamos a vida horrorizados . Enquanto nós, falhos, nos envergonhamos por não possuirmos o mundo ideal Somos almas clandestinas do nosso próprio umbral Nos vemos fortes para não encaramos o absurdo de frente Nos vemos leves para nao aceitarmos o tédio do mundo Ovindo sem glória o grito da paz E assim nós tornamos elementares do tempo para não profetizarmos a nossa própria guerra.

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Andarilho do tempo

De longe um homem De perto um animal feroz Mas próximo se via a alma do menino ferido No olhar as lágrimas do desejo perdido O coração de gelo com lanças farpadas Da boca nao saia palavras Era uma paz caótica e incompreendida Os farrapos que cobriam o corpo se atenuavam no vento Era um homem de longe em seu deserto interno Com grandes chaminés no fundo da alma Nas veias já nao corriam sangue Pes descalços enfrentavam a vida Fitando o horizonte como quem se ver de frente Olhar de falcão sobre o mundo na ótica do acaso. Homem, menino e fera entrelaçados no mistério.

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Profanamente (parte 2)

-Estou descansando, daqui a pouco saiu pra comer alguma coisa.- Respondeu Corina. Corina recolocou o objeto de volta na caixa antes que a empregada a voltasse a importunar. Buscou um lugar seguro para guarda-lo. Antes de descartar o embrulho brilhoso que o trouxe, ela constatou a presença de um bilhete. Era a loja virtual agradecendo a compra e dando destaque para a discrição feita em favor do cliente. Pois Dona Corina tinha aprendido com a neta a fazer buscar em sites e até efetuar compras. Foi a primeira compra virtual feita por ela. A empregada voltou a chamá-la. Depois de guardar de forma tão meticulosa a sua nova descoberta em silicone, ela resolveu sair do quarto como se tivesse entrado nele apenas pra dormir. Mas na verdade ela só sonhou acordada, o inesquecível sonho do prazer

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Profanamente (parte 1)

Em uma tarde corriqueira a empregada se aproxima com algo em mãos. Em uma embalagem prateada, amarrado com um laço de fita vermelha. Dona Corina, o recebeu com um ar de entusiasmo. Não perguntou quem tinha sido o remetente. Se deslocou em sua cadeira de rodas de forma sucinta e independente. Chegou em seu quarto com um ar de menina, trancou a porta- coisa não recomendável pra uma senhora de 77 anos que já não possuira forças nas pernas. E tomada por uma alegria quase infantil, desenrolou o embrulho com uma ansiedade de menina. Ao tirá-lo de uma caixa discreta, sem nenhum nome inscrito. Ela sorria de olhos arregalados, expressão que certamente a muito tempo não esboçara. Abraçou o brinquedo sobre seu peito, com a sutil arrogância de quem o possui. Ao friccionar nos seios, o objeto ligou como se tivesse ganhado vida própria. Se movimentava de forma giratória em seu colo já flácido, ao mesmo tempo que que se tornava aquecido. A um bom tempo Corina não sentia aqueles calafrios. Seus seios ficaram quentes rapidamente sobre o movimento giratório do objeto negro, e veiúdo que na sua base tinha até o escroto. Mais realístico não poderia ser. O tesão havia se reacendido na vida modorrenta da senhora que a muito tempo não sentia satisfação. Ela o esfregava agora sobre seu rosto, passando em seus lábios bestializados pela maciez de um membro perfeito. A coisa se mexia de forma incessante dando ritmo ao modo que a senhora a passava sobre sua carne já perplexa de prazer. De repente, batem na porta: -Dona Corina, cadê a senhora? Sumiu após receber o presente. -A senhora está bem? – Perguntou a empregada já preocupada. Corina responde: -Estou bem, estou deitada. -Está tudo bem minha filha. Porque trancou a porta? -É melhor a manter aberta- enfatizou a empregada.

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Paralisação

Engarrafaram o mundo Sao protestos por dias melhores Cartazes suspenso por poetas reenvidicam a volta do romantismo Filósofos gritam contra a escassez da razão Jovens tédiados pedem a abolição das redes sociais Mulheres usam camisas escrito: "Não nos matem" Engarrafaram o mundo Velhos entregam panfletos nostálgicos com desenhos de brinquedos hoje extintos Enquanto crianças querem apenas o direito de brincarem nas ruas Engarrafaram o mundo, mas não pararam o tempo E hoje o mundo almeja a civilização.

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Visceral

A alma grita como um animal bruto Aprisionada em um casulo onde ocoa as dores do mundo Derramada de um ventre no ato do parto, deixou de vislumbrar a plenitude O caos posto como realidade dada trouxe consigo o absurdo da vida E a alma chorosa calou o pequeno corpo ao receber os primeiros afagos maternos Mas qual seria o preço a pagar por uma jornada nao comprada nem pedida? A responsabilidade do "eu" em formação ja existia antes mesmo de sofrer as primeiras frustrações. A criança chega com a liberdade de uma ave de rapina e se perde no tempo, com o tempo. A consciência implantada trás facas afiadas e perigosas onde a alma, acrobata da vida, as lançam como destino incerto. Para o corpo adulto e agora portador de uma razão nem sempre pura, resta as cicatrizes da luta pela sobrevivência.

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O mundo no Divã

Na praia a tardinha O sol queimando minha pele e trazendo o cheiro de mar Eu ali pensando no que a vida fez de mim E diante de tantas indagações a constatação que isso nao importa A vida é um espaço de tempo que nao mensuramos E diante disto somos parte do mistério Nunca vamos entender a vida quando nao entendemos a nós mesmo Nossos propósitos sao infundados e calculado de uma forma emocional Nada é capaz de abarcar as motivações que nos faz humanos Oque seria a nossa soberana racionalidade? Estaríamos em um jogo de intretenimento dos deuses? Matematicamente somos um grão ao infinito As energias nos governa e por elas experimentamos o tudo e o nada O mais amante da natureza se ver um dia traído pela ausência de propósito A beleza remete a uma harmonia que nos trás o encantamento e o tédio E no linear das entrelias do tempo somos astros que se apagam Choramingamos pela paz para abafar nossa primeira guerra Ato puro Contingência.

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Ápice

Meu presente é refratário de toda minha nostalgia Oh Deus, quem em tamanha conciencia viveria a penitência do aqui agora? A existência é uma carga sobreposta em mentes iludidas Somos peças de um jogo descomunal e despretensioso do acaso Como se o tempo em sua pujante rebeldia nos selassem em um abismo involuntário. Onde a morte, irmã soberba da vida, nos move na sua infinita indiferença Quem somos além de fragmentos de lembranças esqueciveis? Quem somos perante ao mistério inacessível? O beijo mais frio é dado no corpo que jamais se recompõe E assim fingimos toleramos algo que nem ao menos experimentamos Sobre a pretensão de vencermos nosso espanto.

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