Era um sonho
Sem medo de perder
Com ansiar de alcançar
Era uma buscar sem fim
Mas tinha propósito
Era um encanto nos olhos que nao se apagava
Era uma anti frustração
Um mergulho no desconhecido
Uma confusão nostálgica do ainda nao vivido
Era a construção de uma fábula no caminho do conhecimento
Um amor desprendido e sem amarras
Era a expectativa de viver o novo
De desbravar a vida nas suas múltiplas facetas
Era um desapego desmedido
O não compromisso sistemático
Era o linear de um destino nao tracado
Uma sede por vitalidade
Era uma vida solta
Uma jornada simples e despretensiosa
Era viver se renovando
Recalculando a rota e nunca desistir
Se renovar contra o tempo
Era sentir a vida
Continuar lendo
É insuportável a dor do mundo
Sinto o pulsar da consciência
Sigo exausto diante da multiplicidade das coisas
Tento menosprezar meus medos para se possível enganar deus
Falo de mistérios para assim abafar minhas vontades
Diante do divino finjo ser bom para evitar meus próprios erros
As larvas nao sabem porque devoram o corpo
Somos devorados pelo tempo e fingimos nao saber
Vivemos cheios de vazios para nos completarmos de algum modo
E a vida, essa faz a cobrança tirânica
Armas postas para a batalha já vencida.
Continuar lendo
Sublime sao os corações dos anjos que nunca batem de aflição
Enquanto nós em carne, amamos a vida horrorizados .
Enquanto nós, falhos, nos envergonhamos por não possuirmos o mundo ideal
Somos almas clandestinas do nosso próprio umbral
Nos vemos fortes para não encaramos o absurdo de frente
Nos vemos leves para nao aceitarmos o tédio do mundo
Ovindo sem glória o grito da paz
E assim nós tornamos elementares do tempo para não profetizarmos a nossa própria guerra.
Continuar lendo
De longe um homem
De perto um animal feroz
Mas próximo se via a alma do menino ferido
No olhar as lágrimas do desejo perdido
O coração de gelo com lanças farpadas
Da boca nao saia palavras
Era uma paz caótica e incompreendida
Os farrapos que cobriam o corpo se atenuavam no vento
Era um homem de longe em seu deserto interno
Com grandes chaminés no fundo da alma
Nas veias já nao corriam sangue
Pes descalços enfrentavam a vida
Fitando o horizonte como quem se ver de frente
Olhar de falcão sobre o mundo na ótica do acaso.
Homem, menino e fera entrelaçados no mistério.
Continuar lendo
-Estou descansando, daqui a pouco saiu pra comer alguma coisa.- Respondeu Corina.
Corina recolocou o objeto de volta na caixa antes que a empregada a voltasse a importunar. Buscou um lugar seguro para guarda-lo.
Antes de descartar o embrulho brilhoso que o trouxe, ela constatou a presença de um bilhete. Era a loja virtual agradecendo a compra e dando destaque para a discrição feita em favor do cliente. Pois Dona Corina tinha aprendido com a neta a fazer buscar em sites e até efetuar compras. Foi a primeira compra virtual feita por ela.
A empregada voltou a chamá-la. Depois de guardar de forma tão meticulosa a sua nova descoberta em silicone, ela resolveu sair do quarto como se tivesse entrado nele apenas pra dormir. Mas na verdade ela só sonhou acordada, o inesquecível sonho do prazer
Continuar lendo
Em uma tarde corriqueira a empregada se aproxima com algo em mãos. Em uma embalagem prateada, amarrado com um laço de fita vermelha. Dona Corina, o recebeu com um ar de entusiasmo. Não perguntou quem tinha sido o remetente. Se deslocou em sua cadeira de rodas de forma sucinta e independente. Chegou em seu quarto com um ar de menina, trancou a porta- coisa não recomendável pra uma senhora de 77 anos que já não possuira forças nas pernas. E tomada por uma alegria quase infantil, desenrolou o embrulho com uma ansiedade de menina. Ao tirá-lo de uma caixa discreta, sem nenhum nome inscrito. Ela sorria de olhos arregalados, expressão que certamente a muito tempo não esboçara. Abraçou o brinquedo sobre seu peito, com a sutil arrogância de quem o possui. Ao friccionar nos seios, o objeto ligou como se tivesse ganhado vida própria. Se movimentava de forma giratória em seu colo já flácido, ao mesmo tempo que que se tornava aquecido. A um bom tempo Corina não sentia aqueles calafrios. Seus seios ficaram quentes rapidamente sobre o movimento giratório do objeto negro, e veiúdo que na sua base tinha até o escroto. Mais realístico não poderia ser. O tesão havia se reacendido na vida modorrenta da senhora que a muito tempo não sentia satisfação. Ela o esfregava agora sobre seu rosto, passando em seus lábios bestializados pela maciez de um membro perfeito. A coisa se mexia de forma incessante dando ritmo ao modo que a senhora a passava sobre sua carne já perplexa de prazer. De repente, batem na porta:
-Dona Corina, cadê a senhora? Sumiu após receber o presente.
-A senhora está bem? – Perguntou a empregada já preocupada.
Corina responde:
-Estou bem, estou deitada.
-Está tudo bem minha filha.
Porque trancou a porta?
-É melhor a manter aberta- enfatizou a empregada.
Continuar lendo
Engarrafaram o mundo
Sao protestos por dias melhores
Cartazes suspenso por poetas reenvidicam a volta do romantismo
Filósofos gritam contra a escassez da razão
Jovens tédiados pedem a abolição das redes sociais
Mulheres usam camisas escrito: "Não nos matem"
Engarrafaram o mundo
Velhos entregam panfletos nostálgicos com desenhos de brinquedos hoje extintos
Enquanto crianças querem apenas o direito de brincarem nas ruas
Engarrafaram o mundo, mas não pararam o tempo
E hoje o mundo almeja a civilização.
Continuar lendo
A alma grita como um animal bruto
Aprisionada em um casulo onde ocoa as dores do mundo
Derramada de um ventre no ato do parto, deixou de vislumbrar a plenitude
O caos posto como realidade dada trouxe consigo o absurdo da vida
E a alma chorosa calou o pequeno corpo ao receber os primeiros afagos maternos
Mas qual seria o preço a pagar por uma jornada nao comprada nem pedida?
A responsabilidade do "eu" em formação ja existia antes mesmo de sofrer as primeiras frustrações.
A criança chega com a liberdade de uma ave de rapina e se perde no tempo, com o tempo.
A consciência implantada trás facas afiadas e perigosas onde a alma, acrobata da vida, as lançam como destino incerto.
Para o corpo adulto e agora portador de uma razão nem sempre pura, resta as cicatrizes da luta pela sobrevivência.
Continuar lendo
Na praia a tardinha
O sol queimando minha pele e trazendo o cheiro de mar
Eu ali pensando no que a vida fez de mim
E diante de tantas indagações a constatação que isso nao importa
A vida é um espaço de tempo que nao mensuramos
E diante disto somos parte do mistério
Nunca vamos entender a vida quando nao entendemos a nós mesmo
Nossos propósitos sao infundados e calculado de uma forma emocional
Nada é capaz de abarcar as motivações que nos faz humanos
Oque seria a nossa soberana racionalidade?
Estaríamos em um jogo de intretenimento dos deuses?
Matematicamente somos um grão ao infinito
As energias nos governa e por elas experimentamos o tudo e o nada
O mais amante da natureza se ver um dia traído pela ausência de propósito
A beleza remete a uma harmonia que nos trás o encantamento e o tédio
E no linear das entrelias do tempo somos astros que se apagam
Choramingamos pela paz para abafar nossa primeira guerra
Ato puro
Contingência.
Continuar lendo
Meu presente é refratário de toda minha nostalgia
Oh Deus, quem em tamanha conciencia viveria a penitência do aqui agora?
A existência é uma carga sobreposta em mentes iludidas
Somos peças de um jogo descomunal e despretensioso do acaso
Como se o tempo em sua pujante rebeldia nos selassem em um abismo involuntário.
Onde a morte, irmã soberba da vida, nos move na sua infinita indiferença
Quem somos além de fragmentos de lembranças esqueciveis?
Quem somos perante ao mistério inacessível?
O beijo mais frio é dado no corpo que jamais se recompõe
E assim fingimos toleramos algo que nem ao menos experimentamos
Sobre a pretensão de vencermos nosso espanto.
Continuar lendo