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Apuque

@MateusApuk · desde 2020

Minhas neuroses depositadas em balde de lavagem e despejadas aqui.✍️ Escrevo porque me cura.🙌 me deixe partir.💥

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Viver é Já

A pessoa quando te ama muito, Não consegue te deixar ir, Chora ao te ver partir, Desiste de desistir. Mesmo quando você um defunto, Acredita que ainda pode te fazer sorrir, Posa ao teu lado e fica ali, Insiste em te assistir. A morte, o luto, é uma coisa finda, Mas uma coisa linda, Ainda sem que se possa voltar, Acredita-se que vamos pra algum outro lugar. A dor que fica é da partida, E no primeiro dia só acabou de começar, A partir dali vai piorar, A cada dia mais o tempo te distanciar. Da última vista a vista, Da última vez que olharam pro mesmo lugar, Do último sorriso contagiante, Do seu olhar, do seu olhar. É um descida tão gigante, Mas que despenca para o mar, Antes tudo se decompõe, Se fundi ao solo ou vão pro ar. Sozinho somos, E o texto é solo, O teto é sol, Muros não há. A vida é curta, O sonho é Sóbrio, O calor é colo, Viver é já. Mesmo sem Polo, Sem rumo Porto, Norte, sul, ou torto, Pode ancorar. Você é plano, Ainda que morto, Vai resistir, Até morar. Não dê sentido ao destino imposto, Regule a bússola e esconda o rosto, Registre os dogmas pra não praticar, Dos ancestrais restaure o lar. Escolha então onde ir, se vai prosseguir ou se instalar, Pra além dali ou antes de lá, Pra aprender ou pra ensinar.

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Sossego e Flor

Estou louco, Em mania, O peito acelerado, Melhorando a cor do dia. Mas sei que é passageiro, Tudo, tudo, tudo, Não há estado permanente, Em outros períodos me esqueço de quem sou. Espero a volta do "repente", Do dia que acordo e sei quem sou, E quero ser mais eu, Mas quando assusto já passou. Aprendi a apostar no tempo, Não apenas no momento, Sobrevivo sem temor, Atravessando cada vento. Quero mesmo colo, Sustento e amor, Abraço e toque, Sossego e flor

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Mãe de mar

Mãe, o teu corpo é uma mensagem, Como um medra no Rio, a margem, A deriva sem lapidar, De olhos abertos pra dizer "eu estou viva". Mesmo além do desarmar, Das tolices, das velhices, Dos espelhos a te enganar, Teu recado é muito claro, impossível de ignorar Os que feriram sua carne, Foi, pois não puderam interceptar, Um intelecto limitado, Não poderia te ouvir falar Você calou a própria ferida com um beijo, Te chorar, te vi orar, Te vi gritar aos quatro ventos, Te vi no tempo desesperar Te vi o desespero tomar conta, Te vi jurar de ponta a ponta, Te vi ali se levantar, Reconstruir-se pra dilatar Te vi juíza, Te vi coronel, Tive deslizes nas tuas crises, Me vi surgir da cor do céu. Me vesti de azul pra te alegrar, Eu pus a mesa, Fritei as carnes, Mas mesmo assim não te vi lá, Não tive lares, Não tive pares, Não fiz as pazes Não olhei pro mar. Cruzei os dedos, Pra não verem os meus medos, Cruzei estradas, Tentei fugir de lá. Mas nessa gruta onde me hospedo, Não há morcegos, não tem prego, Tem uma fruteira e um pomar, Hoje aqui eu chamo de lar Vim morar com o gato surdo, Peludo e mudo pra não miar, Achei perdido no fim do mundo, Passou aqui, mandei entrar

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E o céu de outono

Hoje eu conheci uma que tinha cara de sol, já com a força da lua, Um peito latejando e a carne ainda crua, A pele contendo o fogo, Vestido todo o corpo e a alma nua Chegou falado tudo, Compondo aquilo que se descrevia, Descria e se recria pra me convencer, Num vai e vem que virava melodia Faltava um ponto, Era a rua de descer, Ela de me encarar já se atrevia, Eu tive medo de me deixar perceber, E só querer descer dali no outro dia

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A minha lua rio pra mim

Eu não sou o poeta, Sou o humano, leigo, Bruto e sem fim, O poeta tá sempre com o corpo sobre as telhas exalando, O poeta sempre fala antes de mim. Eu sou o que lê o que o poeta escreveu, Quando aquela dor derramou no peito, Quando o choro implodiu, pois não teve jeito, O poeta tudo previu, eu sou o que sobreviveu. Quem só sobrevive, não canta, nem ousa brincar com a letra, O poeta é além de mim, do tempo e de qualquer trobeta, Mas contraditoriamente, é o poeta que tem fim, Mas vivo olha o relógio e diz, sim, sim, sim Sim, óh tempo, Se caia sobre mim, Pesado como a chuva, Forte como o vento. Óh tempo, me sacuda, E não me deixe desistir, Não me deixe morgar sem me exprimir, Não queira passar sem que me acuda Óh, silêncio, Me diga porque estou aqui, Porque ainda, estou aqui, Estou revivendo o início. Ao medo dedico minha desobediência, Às minhas coragens, os lírios mais aconchegantes do quintal de minha avó, Ao susto que me distância de minha alma, devolvo a sobremesa, Ao insulto de quem não me apavora, minha retirada gentileza Agora o tempo é mais fechado, Da morte, já estou no corredor, Aos vinte ou produz ou vive as margens, E eu com meu instinto caçador. Não devolvo minhas tatuagens, Minhas rugas, muito menos minha dor, Meus devaneios e minhas viagens, Meus deslizes sem pudor. Minha mais sensata homenagem, Ao velho interno de meu interior, Minha lua em capricórnio é a engrenagem, É minha estática imagem de senhor.

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Galgado, fim de mim

Eu te ouço, Mas não posso te levar de regra, Sua limitada justificativa, É tão distante do mundo real. Te ouço mas não me caduco, Vejo as marcas mas não me preocupo, Instalo mil placas, Do Rio a Pernambuco Instalo um alarme, Em cada desvio teu, Amarro com arame, Cada tentáculo desumano. Infame, duro, descascado Mole por dentro igual um mingal Casca comprada, paga e refeita, Marca dourada, Capricha o sujeito Não sabe de nada e se acha perfeito. Cabeça inclinada, Sobre o corpo estreito, Muralha ruil Sentimento fluil Não sou sua estrada, Tampouco sou rio, Tampouco morada, Tampouco vazio. Sua cara é forçada, Teu sonhar é hostiu, Não quer construir nada, Mas abocanha o que viu. Eu não sou mente plasma, Eu não sou alma febril, Sou atento, afeto, sou calma, Sou afago no frio Esqueça a cor da geada, Esqueça o amargo gentil, Pense na cor da goiaba, Dos girassois sóis e o fim

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Minha alma louca

Eu não sei por que tanto te digo, Sobre o caminho que deve seguir, Eu nem pretendia voltar aqui, Mas algo em mim que obedece as leis do sol. Não sei como vir parar aqui, Mas sei que é o certo lugar de estar, Aquilo que resta é tudo o que a morte não levou, O tempo é muito curto e surfando ele eu vou. A coragem é verdadeira quando não espera o comando, Quando não espera certeza e parte do próprio sonho, Quando caminha sobre o solo estéril, Quando inventa caminho quebrando no peito. A sede não é destino, nem início nem fim, É o selo da humanidade que há dentro de mim, Os deslizes esfolam minha alma louca, E mostra a realidade de que a alegria é pouca. Mas não esmureco, pois nem posso, Tenho uma corrente grossa que prende o futuro ao meu pescoço, Me faz entrar e me faz sair do poço, Eu alcanço o amanhã sem nenhum esforço.

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É quase que eu sei

Eu estava quase colhendo a rosa, Passou, É o fundo do poço, ele me disse, E cessou Eu pensei que fosse um delírio, Ainda parece que vivo, E que o sonho não acabou, Talvez exista o amor Se eu pegasse a rosa, cheirasse e amasse essa flor, Pensaria que ali era o encontro, Mas seria o fim, por amor Recuso pegar e guardar essa flor, Vou andar o caminho sem rumo e sem remo e sem ninho, Sem barco e sem ser pescador Só com a força dos meus espinhos, Escolhas, pincéis, Telas, motéis, E meus sons Projetos inúteis, Conversas fúteis, Cordéis de rancor, Martelinho do pudor, Placas refutei, Baladas criei, Ancorar de navios, Solar sob ventos frios. Banca de rei, Andar de novela, Borboleta sem lei, Batida de aquarelas. Fui lá, conversei, Sujei ninfas belas, Olhei das janelas, Os males que eu sei

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Cidade Deus

A catedral é branca e tem beleza, Não uma brancura pálida, Mas de delicadeza Seus encantos postais não são escuros, Mas estão espalhados, E não tem muros Seus homens encorajam a resistência, Suas mulheres reproduzem sua descendência, Seus meninos trabalham por obediência Tem professor, Tem pedreiro, Tem produtor, Tem artilheiro, Tem curandeiro, E tem pastor, Tem médico, autor, Tem enfermeiro Tem dentista, Tem pecuarista, Tem o turista, E tem o justiceiro Lugar de berço, Morada e crescimento, Que se chega sem nada, E dela se sai como um instrumento. Terra adotiva de famílias, Chico Dumont e sua maravilhas, Produzem o fruto que consomem, Um lugar de calma e vida. De águas claras, cristalinas, De riquezas incompreendidas, De um broto florescem suas meninas, O estopim da alegria. Da quitanda fez suas padarias, Da igreja um templo antigo, Das praças colo e ombro amigo, Das piscinas um campo índigo Recebe o moço e o seu parca, O coronel e sua esposa, O artilheiro e universitária, E da serra vem dona raposa. Molha quem vem pra banhar, Molha quem vem se divertir, Se abre a quem veio nadar, E a quem voltou pra se despedir.

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Hvgc

Eu esperei toda a vida por aquela noite, E naquele dia eu poderia ter feito aquelas doses de veneno valer a pena, Não presta viver pra andar na linha e nunca infringir, Não presta viver sem nunca poder cair. Não presta nascer se eu não puder estar aqui, Não merece uma vida permanecer e não poder sorrir, Não precisa ficar se não puder desistir, E depois voltar procurando de novo Não presta nascer onde não há desapego, Onde só há precaução, Onde nunca há socego, Mas muita desilusão. Não se adequa existir onde o sol é prisão, E o por do sol só podem assistir quem já matou pelo pão, Quem já atirou por comida, Quem já traiu um irmão. Não existe vida aqui, Pra quem se salvou da embarcação, Mas não desistiu da navegação, Sobreviveu aos tempos de crise.

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