Mãe de mar
Mãe, o teu corpo é uma mensagem, Como um medra no Rio, a margem, A deriva sem lapidar, De olhos abertos pra dizer "eu estou viva". Mesmo além do desarmar, Das tolices, das velhices, Dos espelhos a te enganar, Teu recado é muito claro, impossível de ignorar Os que feriram sua carne, Foi, pois não puderam interceptar, Um intelecto limitado, Não poderia te ouvir falar Você calou a própria ferida com um beijo, Te chorar, te vi orar, Te vi gritar aos quatro ventos, Te vi no tempo desesperar Te vi o desespero tomar conta, Te vi jurar de ponta a ponta, Te vi ali se levantar, Reconstruir-se pra dilatar Te vi juíza, Te vi coronel, Tive deslizes nas tuas crises, Me vi surgir da cor do céu. Me vesti de azul pra te alegrar, Eu pus a mesa, Fritei as carnes, Mas mesmo assim não te vi lá, Não tive lares, Não tive pares, Não fiz as pazes Não olhei pro mar. Cruzei os dedos, Pra não verem os meus medos, Cruzei estradas, Tentei fugir de lá. Mas nessa gruta onde me hospedo, Não há morcegos, não tem prego, Tem uma fruteira e um pomar, Hoje aqui eu chamo de lar Vim morar com o gato surdo, Peludo e mudo pra não miar, Achei perdido no fim do mundo, Passou aqui, mandei entrar
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