Apuque @MateusApuk

A minha lua rio pra mim

Eu não sou o poeta, Sou o humano, leigo, Bruto e sem fim, O poeta tá sempre com o corpo sobre as telhas exalando, O poeta sempre fala antes de mim. Eu sou o que lê o que o poeta escreveu, Quando aquela dor derramou no peito, Quando o choro implodiu, pois não teve jeito, O poeta tudo previu, eu sou o que sobreviveu. Quem só sobrevive, não canta, nem ousa brincar com a letra, O poeta é além de mim, do tempo e de qualquer trobeta, Mas contraditoriamente, é o poeta que tem fim, Mas vivo olha o relógio e diz, sim, sim, sim Sim, óh tempo, Se caia sobre mim, Pesado como a chuva, Forte como o vento. Óh tempo, me sacuda, E não me deixe desistir, Não me deixe morgar sem me exprimir, Não queira passar sem que me acuda Óh, silêncio, Me diga porque estou aqui, Porque ainda, estou aqui, Estou revivendo o início. Ao medo dedico minha desobediência, Às minhas coragens, os lírios mais aconchegantes do quintal de minha avó, Ao susto que me distância de minha alma, devolvo a sobremesa, Ao insulto de quem não me apavora, minha retirada gentileza Agora o tempo é mais fechado, Da morte, já estou no corredor, Aos vinte ou produz ou vive as margens, E eu com meu instinto caçador. Não devolvo minhas tatuagens, Minhas rugas, muito menos minha dor, Meus devaneios e minhas viagens, Meus deslizes sem pudor. Minha mais sensata homenagem, Ao velho interno de meu interior, Minha lua em capricórnio é a engrenagem, É minha estática imagem de senhor.

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