Não há prazer maior do que se sentar ao sol em uma manhã fria e sentir o calor luminescente salpicar as células que compõem sua pele, como se tocasse gentilmente cada sarda, cada pinta, cada mancha, cada tenra cicatriz. Poderia permanecer ali, imóvel, eternamente dormente até que, sutilmente, se esquentasse demasiadamente e a luz solar passasse a queimar em um gesto ardente. Porém, naquele fragmento de momento, em que de olhos fechados e inebriados, se sentava sob um feixe de sol, era como se estivesse sonhando, estando em outro mundo que se alcançava devaneando. Um mundo inatingível por fantasias, ansiedades, medos ou vaidades. Um mundo estranhamente irreal, mas tão pouco platônico. O calor o tornava material, tangível e memorável. Um breve encontro com a sanidade, que lhe parecia escassa naqueles dias. Um enlaço com a humanidade, de maneira gentil, que lhe parecia adormecida em meio a extrema velocidade transmitida pela enorme quantidade, quase persecutória, de telas de led, reluzentemente azuis, toxicamente compostas de plástico, lítio e alumínio. Infinitamente indispensáveis ao mesmo tempo que descartáveis. Mas era um prazer singelo, estar sob o sol em uma manhã de um dia frio. Até que deixasse de ser.
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"Já estivemos aqui várias vezes, não é?"
A Morte perguntou, sentada no tamborete de madeira, meio encurvada pela falta de apoio para as costas. E, ainda assim, parecia uma postura exasperada e acolhedora, como a de um terapeuta cansado de um longo dia de trabalho. Seus olhos escuros, a depender do relance, reluziam à luz da casa.
Estavam sentados no quintal desta vez.
Um pouco distante, a luz da cozinha e o céu eram tudo o que havia que os revelasse.
Ao perguntar, a Morte olhou para ele. Sentia-se compaixão no mirar lânguido daqueles olhos escuros. Mas, com o silêncio, lhe restou apenas um lento suspiro que escapou de suas narinas, como se soltasse uma lufada de fumaça de cigarro.
"Já estivemos aqui por muito tempo, não é?"
Perguntou-lhe novamente. Sua voz grave e rouca era distante, como um trovão em uma tempestade que ainda não chegara. Mas era terna e serena, como o aroma que anuncia sua chegada.
Não conseguia responder. Estava sentado, abraçando os joelhos, o queixo repousado sobre eles. Entreolhava, às vezes, para a figura conhecida e envergada ao seu lado. O buscava sorrateiro, de soslaio, mas sem medo. A Morte lhe era conhecida e lhe acompanhava há tempo. Ela aparecia para quem ousava "pensar", dizia. "Pensar demais".
De alguns, ela apenas gostava e fazia companhia. Ou a queria, já que, como o Tempo, odiava estar sozinha.
Mas, para si, ela era uma protagonista, que volta e meia surgia, com sua habitual melancolia. Sua barba mal feita e seu rosto marcado. As sobrancelhas negras, como seu cabelo mal cortado, por vezes eram tudo o que conseguia enxergar na sombra que se formava ao seu redor.
"Você não se cansa de mim?"
Outra indagação.
"Eu sinto seu coração. Não pense em mentir."
Voltou seu olhar para a escada que havia no fundo do quintal. Seus olhos castanhos reluziam o reflexo da luz da cozinha. Pareciam marejados. Queria dizer que sim. Mas então seu coração o trairia. Porque ele doía, na verdade. Lá estavam, ele e a Morte. Ele, sentado no chão; ela, no tamborete. Ele, fitando a escada por entre os joelhos
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São sonhos tão gentis
que preenchem o olhar distante
vagante e
forasteiro
caminhando de longe
levando consigo o peito tão preenchido
de melancolia, como se tivesse escolhido
sentir pela pele o arrepio
do mais leve sentido
do contratempo de existir
para encontrar
um lar passageiro
onde se aquecer em meio ao tácito
desespero
que perambula com medo
da partida se antecipar
antes que se possa
deixar
algo que não possa carregar
flores a se cultivar.
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É verdade
Que eu venho imaginando
Enquanto ando pela calçada
Como vai você
Eu sei que vai feliz
Eu sei que vai bem
Ultimamente eu ando calçando o surrado all star
E sigo segurando o peso do meu coração
Enquanto as pessoas voltam pra casa no fim do dia
E eu volto seguindo
Com todo o amor guardado no bolso da calça
Guardando-o pra mim
O que já não posso mais te dar
E o vazio que esse amor preenchia permanece
Mas eu sei que você está bem
E que está feliz
E que esse novelo de algodão
Tão macio e quente
Já não mais te cabia
E por isso eu guardo-o em algum lugar da batida
Do meu coração.
Então eu sigo pra casa, sempre levando-o
Para recomeçar.
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Ao se despir, abraço-me.
O meu florir solta-se aos poucos, de mansinho, ao sorrir, tão singelo. O momento eterno que passa volta. Completa a estação, desabrocha em uma nova canção que ressoa no tempo, tece o acalento que pinto nesse quadro verde de mim, floresce adentro pétalas macias que desprendem-se ao vento... Quando te tocam preenchem seus lábios da doçura de se respirar, resplandecem a candura no olhar e deixam a pureza do sorrir.
Permito-me sentir.
Eleva e leva pela brisa serena da primavera a maneira etérea de pairar sobre o desabrochar de mim. De mansinho, sente-se, aquietam-se as dores, sorri de leve, inebriam-se pelas cores do festival de flores.
É enfim hanami de mim.
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Era simples.
Como dizer bom dia, ao despertar.
Mas era mais.
Inundava como o oceano que preencheu a Terra anos atrás.
Era paz.
E conforto, segurar a xícara de café ao fitar o céu nublado.
O ar estava úmido, o cheiro de terra, famoso petricor, funcionava como aromatizador natural.
Era delicioso, com os olhos preguiçosos e amendoados observando pelo cantinho a chegada com carinho do dia harmonioso.
Era a serenidade, de quem, empoleirada sobre a almofada podia respirar.
Como se não houvesse fim.
Nem começo
Era estar.
Era o brincar do vento com seus fios soltos de cabelo.
Era sentir.
Um gole de café.
Era sorrir de mansinho.
Era abraçar.
O conforto do tempo.
O toque ameno da manhã.
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É a melancolia que me acorda pelas manhãs,
me recobre e então me descobre do manto
que era sonhar com o que já não posso ter
É a ventania que bate á minha janela
transborda e borda folhas secas na parede
sussurra doce em meu ouvido
Tenta cessar minha sede
Leva com carinho e deixa um pouquinho de dor
A cicatriz da impermanência
O luto da ausência
Me leva a outro mundo paralelo
Ao dormir tenta me recobrir
Do que não há nada mais sincero
Se não, te ver partir.
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Era a parte de si que sumia sobre o olhar
Quando plainava, divagava, vertiginava
Tortuoso, lamurioso, torpe, disforme
Recobre e descobre o corpo
Encobre
Ao fechar os olhos
Absorto, aquele conforto mudo
O toque sobre a pele como veludo
Despertava, transformava o mundo
Dilacerava o peito
O peso de tudo
E o vazio do nada
Encontrado num suspiro perdido num qualquer segundo.
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Poderia ser uma eterna distância. Existia em um espaço entre ela, vestida somente com aquele suéter azulado, empoleirada na cadeira de madeira; entre sua xícara fumegante de chá, transpirando o aroma etéreo de um bosque e a janela por onde assistia, tão plácida, aquela doce e tácita chuva de maio. Os dedos descansando na boca rosada e entreaberta. Seus olhos, tão singelos, pareciam um relógio, pareciam o tempo que tem de se apressar e de alguém algo roubar, mas tão impassíveis como o tempo, quem já viu o mundo passar. Neste cenário onde o conforto do lar se mescla com a indiferença poderia existir a distância de uma eterna lembrança. Uma mecha do cabelo castanho como madeira de pinheiro deslizou para perto de seus olhos. Respirou e expirou entre os lábios um sopro áspero e quente. Tão constante em sua mente a saudade se fazia uma paralela entre o que vivia tão nitidamente atrás das orbes verdes e o que a realidade insistia em lhe lembrar: que sempre estaria ausente. Aquela saudade que apagava o caminho por onde se chegar.
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A ausência retorna, tão lentamente
Que a gente sente seus pézinhos pelo assoalho de carvalho
Ela se aproxima com cuidado para não te acordar se senta junto a mesa
Se deleita de uma xícara de café.
Ela te afaga o rosto, tão inerte, e te conforta com a partida preenchida pelo vazio.
Ela te olha com os olhos adocicados, marejados pelo frio da manhã antes de partir.
Na mesa da manhã, subitamente, você sente a sua presença apenas quando ela se vai.
Apenas quando seu coração punge em meio a solidão que evapora junto com a fumegante xícara de café.
E de repente está você.
Pela manhã.
Com os olhos lentos, lânguidos, serenos.
E de repente está você.
Percebendo a sua própria existência.
Como um retrato de cores gentis.
Como um tempo que nunca se passou.
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