Elza @Lioness
Humanidade

Deleite.

Não há prazer maior do que se sentar ao sol em uma manhã fria e sentir o calor luminescente salpicar as células que compõem sua pele, como se tocasse gentilmente cada sarda, cada pinta, cada mancha, cada tenra cicatriz. Poderia permanecer ali, imóvel, eternamente dormente até que, sutilmente, se esquentasse demasiadamente e a luz solar passasse a queimar em um gesto ardente. Porém, naquele fragmento de momento, em que de olhos fechados e inebriados, se sentava sob um feixe de sol, era como se estivesse sonhando, estando em outro mundo que se alcançava devaneando. Um mundo inatingível por fantasias, ansiedades, medos ou vaidades. Um mundo estranhamente irreal, mas tão pouco platônico. O calor o tornava material, tangível e memorável. Um breve encontro com a sanidade, que lhe parecia escassa naqueles dias. Um enlaço com a humanidade, de maneira gentil, que lhe parecia adormecida em meio a extrema velocidade transmitida pela enorme quantidade, quase persecutória, de telas de led, reluzentemente azuis, toxicamente compostas de plástico, lítio e alumínio. Infinitamente indispensáveis ao mesmo tempo que descartáveis. Mas era um prazer singelo, estar sob o sol em uma manhã de um dia frio. Até que deixasse de ser.

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