Uma negra nuvem na tarde brotou
Depois friamente foi o sol engolindo
E assim no chão que meu passo avançou
Entre a luz e a treva vai diminuindo
O espaço do caminhar em que vou
É como se eu fosse me descobrindo
Protegido contra os mortos que restou
Que dispersos na noite vão saindo
Para a infâmia onde ali muitos se transviou
De tempo em tempo os luzeiros luzindo
Na viela escura onde meu pé lá passou
Porque da crua espada que pus no cinto
Era a minha fé que nunca a consumou
Pois em derredor os cães ganindo
Sob a lua dos ímpios na raiva ladrou
Mas como a prece que subindo e vindo
Vinha depois dela o que o medo amainou
E os que ladravam ficaram dormindo
Após os cães o homem vociferou
Entre intrigas e rixas se afligindo
Boca da noite o bate-boca ecoou
Falando desenbocado e se rindo
Mas ai agora que essa aura destemperou
E o burburinho já é mar bramindo
Queixos altivos nos ares estacou
Palavras soberbas vai digerindo
Quem por eles falam o que conjurou
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Olha...realmente,
Realmente já estou no limite
A ponto de estourar!
A panela-de-pressão apita
Apita!Apita!Apita!
E na soleira da porta tu ficas a pitar.
Calmo como a um frango oculto entre arbustos aos olhos da Jaguatirica.
Mas o meu pêlo com muito zelo
Se camufla na paisagem.
Onde nem caçador por muito ousado fará de minha pele sua roupagem.
Tampouco tapete e alfombra
Tampouco alfombra e tapete
Tuas botas vão limpar depois que passares pela porta.
Limpe na grama o esterco de bode e se livre dessa marra.
Porque meu doce anjinho...
Sou arroz integral, feijão Tipo A
E quando lavo os pratos, e quando
Limpo a casa, e quando mudo
Pro canal de novela
Não quero que diga um só A!
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Mathias, tu me matas todo o dia!
"Não use talvez como desculpa"
Talvez se culpe ao usá-lo
Talvez muito mais se ressinta
E até duplique o que em ti sinta
Esfrie a cabeça, vai.
Tome um fresco refresco Cintra
Lance seus olhos sujos
Flerte as piranhas do bar
Que se deixam invadir,
Deixam-se adentrar,
Como a um gole faz a goela.
E depois...
De algumas doses desabrocham!
Daí, casto Mathias, poderá despir as pétalas e devorá-las o botão.
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Sobre a ferida aberta
Inclinei o saleiro
E branquejei de sal
O que na minha entranha
Fosse de doce mal
As dobras dos dedos dobram
E ri-se o muro em que batia
Pois na dor a mão contrai
Quatro agressores feridos.
Inútil é dar combate
Ao que não nos revida
E por que não conviver
Com a frustação?
Quando já vivo impotente
E fragilizado de submissão?
Mas me ferindo muito
Não ponho a externo
De mim, minha mágoa.
Esqueça o Boxe
Esqueça o Jiu-jitsu
Esqueça a Cabala...
Sou covarde demais para
Aceitar tal fardo.
A pia se encontra mais próxima
Para lavar o dorso da mão.
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é do coração a perfídia imunda
cujo seu engano o bom siso encobre
de torpeza humana mais fecunda
eis a boca suja e a língua dobre
cuide bem antes que me confunda
como a piedosa velhaca pobre
sou a sombra grosseira meio corcunda
no sonho o espectro que a si descobre
dócil me mostro e pouco iracunda
finjo deixar que os passos manobre
e quando te mostras sábio afunda
na fantasia que ante aqui desdobre
talvez reafirme ou se aprofunda
veemente num parecer nobre
á tua certeza frágil e infunda
que a este olhar tua lucidez recobre
ao abrir dos olhos logo aí secunda
outra vez pra assegurar redobre
o contato com o corpo inunda
de alívio o agora real que o envolve
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Este mundo?! Ah, o cruel mundo!!
Pode as vezes nos magoar
Pode as vezes nos machucar
Como na mão de um açougueiro
O amaciador de carne faz ao bife.
E no vazio do copo o barman deitar meio-copo de melancolia, que certamente para o Sertanejo, sim, seria apreciado.
Frouxas correm as mãos a calçar as meias
Enquanto derretem as solas dos sapatos
E não faz sentido andar por sobre as brasas
O Redentor, talvez ele conseguisse.
No sapatinho de fogo!
"As coisas ruem, se desmoronam, soçobram e desabam" — diz em seu luto Bruce Wayne
Farão dos meus ossos fossilizados os látegos de vossa varanda.
E noutra guerra-fria alguns soldados comerão no crânio feito de cuia, a maldição do Oeste.
Por que o desprezo pesou-me como pesa a pedra?
Antes tendo fendido a terra, sua boca...sua boca me abocanhasse!
Mas jamais me daria ao motivo do doido rapaz. Ao motivo da doida mulher.
Presos que estão entre paredes enegrecidas de horror e ódio, riscam tempos intercalados no calabouço.
E em todo o corte que a navalha talha deixa estar uma solidão, uma punição.
Como se a poucos milímetros pudesse tirar a dor esvaindo da veia.
Quero é curtir meu sofrimento.
Aflição é a forma de prazer não apreciado, de quem o proveito tiram os sádicos.
Atire-se primeiro o lobo negro ao meu pescoço, para então depois sentir sua saliva misturada ao sangue quente esguichar da aorta.
"Vinde a mim vós que estais cansados e oprimidos" — mas mutilar outro corpo já foi comprovado que resolve menos; e portanto nada alivia.
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O que dá forma ao homem, recusa ao homem que deforma
quem dá forma ao homem, recusa ao homem que o deforma
o homem dá a forma recusando o que deforma
na reformulação da reforma que o homem forma.
No meu devaneio noturno,
á luz bruxuleante da vela
verei nas paredes vermelhas
as sombras distorcidas
do teu orgasmo
e no meu peito, meu despeito
dos vergões sulcados pelas unhas
da maníaca devassidão.
já não posso lhe ser franco
e me aprisiono no silêncio
cerro meus lábios inativo
o que de mim for bom arranco
se for do mal guardo em silêncio
eis um raso rancor que ativo
entre as vielas vou divagando
calçado nas meias do silêncio
vão os caminhos sem motivo
nos pés degrais tu vais quebrando
ensurdecidos no silêncio
que sobe a bile no auditivo
á porta os ombros se chocando
contra as artérias do silêncio
incita um terror aflitivo
tremendo os pés vacila o banco
resvala o corpo pro silêncio
se enforca um ser deplorativo
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A Natureza proveu aos homens (e algumas poucas mulheres) a graça de uma visagem paradisíaca.
Porque pondo-se sobre os joelhos duas coxas, torneadas qual roliças torres, e sustentando acima delas os montes unidos numa só montanha deixam a vista o vislumbre de um desvão desabrochando o botão da flor umidecida de tesão.
É este, de todos os ângulos, o mais sublime das beldades. Porque não fala da subjugação dum sexo ao outro; mas ouve-se aí um gargarejo de cascasta que oculta sua gruta. Onde também o talho na carne da fruta torna irresistível o desejo de prová-la, fazendo dela a anfitriã dos sonhos impuros.
Assim como em fios é destilado o mel do favo; o suculento caldo de uma chama subaquática escorre em caldas entre as pernas.
Nessa doçura lambuzam uns dedos profundos, e os lambem línguas lascivas.
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