Foto de  David

David

@Kufun · desde 2018

meus versos; um copo de água bebido no escuro. meu poema; ferido de mortal beleza. ✉✒

20 poemas 370 seguidores 161 seguindo

Seguir
Crença

A envergadura das asas íntegras

Uma negra nuvem na tarde brotou Depois friamente foi o sol engolindo E assim no chão que meu passo avançou Entre a luz e a treva vai diminuindo O espaço do caminhar em que vou É como se eu fosse me descobrindo Protegido contra os mortos que restou Que dispersos na noite vão saindo Para a infâmia onde ali muitos se transviou De tempo em tempo os luzeiros luzindo Na viela escura onde meu pé lá passou Porque da crua espada que pus no cinto Era a minha fé que nunca a consumou Pois em derredor os cães ganindo Sob a lua dos ímpios na raiva ladrou Mas como a prece que subindo e vindo Vinha depois dela o que o medo amainou E os que ladravam ficaram dormindo Após os cães o homem vociferou Entre intrigas e rixas se afligindo Boca da noite o bate-boca ecoou Falando desenbocado e se rindo Mas ai agora que essa aura destemperou E o burburinho já é mar bramindo Queixos altivos nos ares estacou Palavras soberbas vai digerindo Quem por eles falam o que conjurou

Continuar lendo
Amor

A mulher brava

Olha...realmente, Realmente já estou no limite A ponto de estourar! A panela-de-pressão apita Apita!Apita!Apita! E na soleira da porta tu ficas a pitar. Calmo como a um frango oculto entre arbustos aos olhos da Jaguatirica. Mas o meu pêlo com muito zelo Se camufla na paisagem. Onde nem caçador por muito ousado fará de minha pele sua roupagem. Tampouco tapete e alfombra Tampouco alfombra e tapete Tuas botas vão limpar depois que passares pela porta. Limpe na grama o esterco de bode e se livre dessa marra. Porque meu doce anjinho... Sou arroz integral, feijão Tipo A E quando lavo os pratos, e quando Limpo a casa, e quando mudo Pro canal de novela Não quero que diga um só A!

Continuar lendo
Drama

Mathias

Mathias, tu me matas todo o dia! "Não use talvez como desculpa" Talvez se culpe ao usá-lo Talvez muito mais se ressinta E até duplique o que em ti sinta Esfrie a cabeça, vai. Tome um fresco refresco Cintra Lance seus olhos sujos Flerte as piranhas do bar Que se deixam invadir, Deixam-se adentrar, Como a um gole faz a goela. E depois... De algumas doses desabrocham! Daí, casto Mathias, poderá despir as pétalas e devorá-las o botão.

Continuar lendo
Drama

Aceita que dói pouco

Sobre a ferida aberta Inclinei o saleiro E branquejei de sal O que na minha entranha Fosse de doce mal As dobras dos dedos dobram E ri-se o muro em que batia Pois na dor a mão contrai Quatro agressores feridos. Inútil é dar combate Ao que não nos revida E por que não conviver Com a frustação? Quando já vivo impotente E fragilizado de submissão? Mas me ferindo muito Não ponho a externo De mim, minha mágoa. Esqueça o Boxe Esqueça o Jiu-jitsu Esqueça a Cabala... Sou covarde demais para Aceitar tal fardo. A pia se encontra mais próxima Para lavar o dorso da mão.

Continuar lendo
Drama

Me belisque se eu estiver sonhando.

é do coração a perfídia imunda cujo seu engano o bom siso encobre de torpeza humana mais fecunda eis a boca suja e a língua dobre cuide bem antes que me confunda como a piedosa velhaca pobre sou a sombra grosseira meio corcunda no sonho o espectro que a si descobre dócil me mostro e pouco iracunda finjo deixar que os passos manobre e quando te mostras sábio afunda na fantasia que ante aqui desdobre talvez reafirme ou se aprofunda veemente num parecer nobre á tua certeza frágil e infunda que a este olhar tua lucidez recobre ao abrir dos olhos logo aí secunda outra vez pra assegurar redobre o contato com o corpo inunda de alívio o agora real que o envolve

Continuar lendo
Drama

O pecado de sofrer

Este mundo?! Ah, o cruel mundo!! Pode as vezes nos magoar Pode as vezes nos machucar Como na mão de um açougueiro O amaciador de carne faz ao bife. E no vazio do copo o barman deitar meio-copo de melancolia, que certamente para o Sertanejo, sim, seria apreciado. Frouxas correm as mãos a calçar as meias Enquanto derretem as solas dos sapatos E não faz sentido andar por sobre as brasas O Redentor, talvez ele conseguisse. No sapatinho de fogo! "As coisas ruem, se desmoronam, soçobram e desabam" — diz em seu luto Bruce Wayne Farão dos meus ossos fossilizados os látegos de vossa varanda. E noutra guerra-fria alguns soldados comerão no crânio feito de cuia, a maldição do Oeste. Por que o desprezo pesou-me como pesa a pedra? Antes tendo fendido a terra, sua boca...sua boca me abocanhasse! Mas jamais me daria ao motivo do doido rapaz. Ao motivo da doida mulher. Presos que estão entre paredes enegrecidas de horror e ódio, riscam tempos intercalados no calabouço. E em todo o corte que a navalha talha deixa estar uma solidão, uma punição. Como se a poucos milímetros pudesse tirar a dor esvaindo da veia. Quero é curtir meu sofrimento. Aflição é a forma de prazer não apreciado, de quem o proveito tiram os sádicos. Atire-se primeiro o lobo negro ao meu pescoço, para então depois sentir sua saliva misturada ao sangue quente esguichar da aorta. "Vinde a mim vós que estais cansados e oprimidos" — mas mutilar outro corpo já foi comprovado que resolve menos; e portanto nada alivia.

Continuar lendo
Humanidade

O molde do molde

O que dá forma ao homem, recusa ao homem que deforma quem dá forma ao homem, recusa ao homem que o deforma o homem dá a forma recusando o que deforma na reformulação da reforma que o homem forma.

Devaneio

No meu devaneio noturno, á luz bruxuleante da vela verei nas paredes vermelhas as sombras distorcidas do teu orgasmo e no meu peito, meu despeito dos vergões sulcados pelas unhas da maníaca devassidão.

Drama

Branco silencio negativo

já não posso lhe ser franco e me aprisiono no silêncio cerro meus lábios inativo o que de mim for bom arranco se for do mal guardo em silêncio eis um raso rancor que ativo entre as vielas vou divagando calçado nas meias do silêncio vão os caminhos sem motivo nos pés degrais tu vais quebrando ensurdecidos no silêncio que sobe a bile no auditivo á porta os ombros se chocando contra as artérias do silêncio incita um terror aflitivo tremendo os pés vacila o banco resvala o corpo pro silêncio se enforca um ser deplorativo

Continuar lendo
Fantasia

Vulva vulgar

A Natureza proveu aos homens (e algumas poucas mulheres) a graça de uma visagem paradisíaca. Porque pondo-se sobre os joelhos duas coxas, torneadas qual roliças torres, e sustentando acima delas os montes unidos numa só montanha deixam a vista o vislumbre de um desvão desabrochando o botão da flor umidecida de tesão. É este, de todos os ângulos, o mais sublime das beldades. Porque não fala da subjugação dum sexo ao outro; mas ouve-se aí um gargarejo de cascasta que oculta sua gruta. Onde também o talho na carne da fruta torna irresistível o desejo de prová-la, fazendo dela a anfitriã dos sonhos impuros. Assim como em fios é destilado o mel do favo; o suculento caldo de uma chama subaquática escorre em caldas entre as pernas. Nessa doçura lambuzam uns dedos profundos, e os lambem línguas lascivas.

Continuar lendo