Foi no holoceno
Certeza.
Surgiu aí um bicho estranho
Não voava, não cantava
Não nadava
Ficava aí
Com cara de nada
Mas atrás dos olhos
Meio bovinos do bicho
Coisa estranha rolava...
Na cabeça do bicho
No caroço da cabeça
Ele era outra história
Voava nadava cantava
Fazia Deus
Fazia o diabo
Casa cidade navio avião
Amor guerra verdade mentira
P
O
E
S
I
A
Podia ter ficado nisso
Mas foi além
Entre as orelhas do bicho
Um nó nas tripas da cabeça
E ele pariu a Bomba
Com B grande igual de Deus
E assim como pariu a palavra
Pariu a Desgraça
Pariu Zeus
Que pariu Athena
Que pariu filosofia
Por partenogênese
Quem diria
Que tudo isso estava
Atrás da cara de nada
De besta, de zé ruela
Daquele bicho deslocado
Que pra dizer bem verdade
Para nada não servia?
O bicho pôs em prática
as caraminholadas
Bicho finório e ladino
São muitos desses agora
-e dão muita dor de cabeça?
-Ah Dão!
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Noite estreita
Estilete rebelde
Roça a íris
Luzente das ruas
Que resistem
De tochas em punho
E impropérios
Ordeiros e silenciosos
Noite esquiva
Fria e calculista
Deixa os filhos
Natimortos cabisbaixos
São poetas
Não são gente, menina
Ninguém lhes dá atenção
Noite estranha
Desperta e esquiva
Violenta
Sem dar um só tiro
Encobre a guerra
E afaga infelizes
Noite que sorri...
Noite que sorri...
Eu voei
Sobre as cinzas de Gaza
Luciférico
Minhas asas em brasa
Fui o teto
De todos os céus
E te imploro que pise em mim.
Noite que sorri...
Flores negras
Versos dos homens
Sonetos dos anjos
Liras dos deuses
Noite nossa
Em que uivamos calados
Rastejando
Na alma sonhos alados
Noite minha
Deixa-me vê-la uma vez
Deixa-me chorar
Sem pranto
Esta mesma insensatez eterna
De existir por enquanto
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Se houvesse algo
que eu pudesse dizer
À todos os ouvidos do mundo
Seria "sinto muito", eu acho.
Ouvi falar que nascemos com propósito
Que temos um propósito
Que temos de significar algo
Mas o que sinto
Tateando neste mundo
É aspereza e vazio
Quando não
Algo esquivo e viscoso
Que me causa asco e pavor
Se houvesse algo
Que eu pudesse fazer
Por todos os lábios do mundo
Seria implorar por silêncio
Ouvi falar que a vida humana é preciosa
Mas os fatos não comprovam
O que percebo é a indiferença geral.
Não posso salvar
Não posso ajudar
Não posso ensinar
Não posso curar
Deus não gosta de mim
Seus emissários de amor
Não cansam de me repetir isso
Estou expulso de todos os paraísos
Celestes e terrenos
Me encostei numa calçada
E ouvindo a chuva
Eu chorei demais.
As luzes beatíficas de uma casa
com família dentro
Cercada de escuridão e frio
Se houvesse algo que eu pudesse dizer a todos os ouvidos do mundo
Seria
Fracassamos.
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Há tempos não via o mundo
Sua marcha lenta não vi
Não vi suas guerras e pestes
Não lamentei nem sorri
Não notei danças e modas
Os costumes ou as leis
As descobertas maçantes
E os pedantes
Novos reis
A busca de liberdade
Que é mera vazão do ego
Gente tateia no escuro
E entrega a guia à algum cego
O sexo a ira, as drogas
Os modos mais permissivos
A fome fazendo mortos
Ganharem a inveja dos vivos
A indústria devorando
Entre fumaça e tremores
A vida triste e ignóbil
Dos sujos trabalhadores
Milhões de pobres aplaudem
Seu ídolo perdulario
A escravidão chancelada
À cada treze salários...
Há tempos não via o mundo
Não via o seu esplendor
Não via as faces vazias
Tranquilas frente ao terror
Não via a ignorância
E seu reinado de prazer
O que ódio e intolerância
São capazes de fazer
E a fé ser como sempre
O rifle dos assaltos
Tirando o pão de crianças
Dilapidando incautos
Fé que norteia mil povos
Tira-lhes tudo da vida
Os transformando em ratos
Num duelo fratricida
E as mansões suntuosas
E nos templos leite e mel
E as torres das cidades
Dedos cobiçando o céu.
Há tempos não via o mundo
Vir emergindo da bruma
Repleto das novidades
Que não mudam coisa alguma.
Continuar lendo
Um pêssego maduro
Na fruteira
Um céu de chumbo e ferro
Raio e trovão
A vela que ilumina
A sala inteira
Esconjurando em chamas
A escuridão
Os muros do abismo
Já castigados
Por águas que anseiam
Por subir
Fartaram-se nos nossos
Antepassados
E engendram cataclismas
No porvir
Madura feito fruta
É a menina
Que encanta e fascina
Para ferir
Que ama e desama
Desanima
E o pranto de um amante
A faz sorrir
E o verso trespassado
De um poeta
Numa sala secreta
Nada é
O ritmo bate os pregos
E sua meta
Crucificar os restos
Da sua fé...
Um anjo renegado
Salmodia
Vai avançando o dia?
Talvez não
Sob o granizo e vento
Que assobia
Eterna se anuncia
A escuridão?
E entre os prédios limpos
Tediosos
Não nadam majestosos
Leviatãs?
Não urram sáureos mortos
Belicosos
Nas nuvens tormentosas
Da manhã?
A menina se arruma
Se envaidece
O anjo recrudesce
O vão louvor
O pêssego aos poucos
Apodrece
A vela esmorece
Vence o terror
O coração e a pluma
Na balança
Mais uma esperança
Para ruir
O sonho embora grande
Embora eterno
Só serve para o inferno
... se servir.
Continuar lendo
Que vontade de correr
Que vontade de esquecer
Que vontade de aprender
Que vontade de ganhar
Que vontade de esquecer
Que vontade de entreter
Que vontade de entender
Que vontade de explicar
Qual vontade
Que vontade
Que vontade?
De
Chorar
Livro pra desaprender
Arma pra pacificar
Crença para desunir
Trabalho pra escravisar
Lazer para esquecer
Festa pra anestesiar
cano na testa na quinta
Mas deixa
Olha a sexta
Vai chegar
Que vontade
Q
Ue
Von
Tad
Dede
GrITAR
PARA NÃO DIZER
CHORAR
Para não dizer
Tombar
E não levantar mais
Para não dizer morena
A alma ficou pequena
Tudo é nada: vale a pena?
Nem morto descanso em paz
Que vontade
De chorar
O primeiro lugar perdeu
O segundo também perdeu
A platéia perdeu
O telespectador perdeu
A flor que nasceu
A flor que cresceu
E que floresceu
Sem ninguém regar
Depois morreu.
Depois sou eu.
Que vontade ter vontade
Ter vontade é ter lugar
Entre a gente sorridente
Que acha feio
Fraquejar.
A vontade
Tempestade
Que me invade
É de passar.
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Você não sabe o que será amanhã
Tanta desgraça junta
Ninguém se faz a pergunta
E se você fosse minha amanhã?
O que eu faria pra te manter aqui?
Tento pensar em coisa menos complexa
Tentando imaginar uma vida depois
Você deve saber que tive alguém do meu lado
E todos são menos que um
Quando estragam uma vida à dois.
Nem interessa mas eu falo ainda assim
Não tema nada se eu disser te amo
Não interessa mas eu digo a que vim
Você só tem que arriscar
E chegar quando eu te chamo
Ninguém será a mesma coisa amanhã
Tanta alegria junta
Resposta à uma pergunta
E se você fosse minha amanhã
Que desculpa eu inventaria
Para não ser feliz?
Às vezes acho que fiz tudo errado
Desde o começo
Às vezes acho que não vai dar pé
Queria ver
O valor das coisas
Mas não o preço
Apanhei muito
Quase perco a fé
Essa tristeza é parte do meu charme
Deixa eu ser essa incógnita na sua mão
Não tire minha dor, amor
Não me desarme
Ela me faz ver as coisas com mais compaixão
E sabe-se lá o que será do amanhã
Tanta mentira junta
Talvez nem haja pergunta
E nem exista o que se chama amanhã
Talvez seja só questão de acreditar
Que você estará online
Pra eu te incomodar
Te chamar para o parque
Que a gente nunca vai
Chamar seu nome
Como se soubesse tudo e você
Mandando um beijo quando a linha cai
Não, ninguém sabe o que será amanhã
E como é bom poder ignorar
Ninguém avisa o que será amanhã
E isso às vezes nos ajuda à sonhar...
Continuar lendo
Está acontecendo a vida
Aí, nos becos mal-iluminados
Nas dobras da pele, das esquinas
das notas e das cristas
Está acontecendo em nível celular
Em nível molecular
em nível atômico
E o homem atônito
Sem o que fazer com o dom da fala
Se fez narrador da opereta.
Está acontecendo a vida
este pacote super combo mega pós moderno
Cheio de novidades para os velhos
cheio de antiguidades para os novos
por falta de opção
todos alardeiam seu livre-arbítrio.
E julgam com a régua de seu gosto
a infinitude que captam com seus olhos
empapados de imediatismo.
Está acontecendo a vida
Para quem não pode notá-la
para quem pode apreciar
para quem nem sabe o que é vida
Está acontecendo agora.
Está acontecendo como sempre
como um violeiro solitário pelo campo
Como um marceneiro obcecado em sua obra
Tanto corta, tanto torce e tanto esculpe
ali decifra todas as coisas o mundo
e se esquece que o que faz é uma cadeira.
Então discreta como tudo o mais que importa
como a mãe que ajeita o cobertor à noite
como o leiteiro que pousa mudo as garrafas
A vida está acontecendo.
AGORA.
Continuar lendo
O mundo está acabando
O lado bom é que é o fim dos delírios
Eu queria uma cerveja.
O mundo precisou acabar
Para eu saber o que importava
Sempre
Me dou conta
Que vou morrer
Porra
Não entendo viver
Entendo a morte muito menos
Hoje o passeio de carro parecia em
High definition
Eu sentia tudo
Percebia tudo
E lembrei que vou morrer
Suicídio
Ou velhice
Vou morrer de qualquer jeito
O drama não muda nada
Me formei
E vou me dissolver
E é isso
Essa consciência vai cessar
De qualquer modo
Senti medo
E ao mesmo tempo uma outra coisa
Que é uma curiosidade
De saber
O que vai ser
Estou velho demais para o céu
E o inferno é perto aqui de casa
Então...
Incógnita
O mundo está acabando
Mas a banda está tocando
Dream on!
Desperdício de tempo
Três palavras que resumem
A minha pessoa inteira
Não consigo ter bebida em casa
Vou passar horas imaginando uma cerveja
Não estou atado a nada
Porque ainda mofo neste pedaço mesquinho do mundo?
Porque para um fracassado
Qualquer pedaço serve.
Eu sou um derelito
Faz tempo que sei disso
Desde os 15.
Não consigo amar
Nem odiar
Tudo feito com cuspe
Tudo na gambiarra
O mundo está acabando
Estamos aí
Vendo o reality show
Estamos aí
Vendo o Palmeiras no Mundial
Estamos aí
Caçando um pão com linguiça
E uma coca
Num posto de beira de estrada
Estamos aí.
Para o que der e vier
Cante comigo
Só por hoje
Ao som da banda
Do fim do mundo
Talvez amanhã
O bom Deus te leve embora
Hoje ele vai te ver se contorcer
Chorar no banheiro
Ganir feito um cão vadio
Se perguntando o porquê.
Entretenimento de qualidade.
Dream On! Ahhhhh (grite como quem viu uma barata)
O passado se foi
Quando a poeira baixar
Estará vivo em quem se lembra e só
Se eu morro
Ele morre comigo
Os fósseis terão nome
Enquanto eu viver
Cante comigo
Pelo riso e pela lágrima
Ao som da banda do fim do mundo
Enquanto eu negocio a arma
Ou o veneno
Ou testo o nó na corda
Estou há vinte anos
De malas prontas
Achando que talvez amanhã
O charlatão celeste
vai vir buscar seu representante comercial.
Continuar lendo
Sinto que quero morrer
Essa morte doce destes rostos coloridos
Na expressão cartunesca do ahegao
O esgar que talvez me enforcasse
Talvez me ferisse
Atravessasse como bala
Faca pedra machado - que diabo
Me queimasse a goela feito o veneno
Das palavras dos meus detratores
Ex amores ressentidos
Credores famintos
Morrer
Com tantos morrendo
É pegar o comboio.
Olha Manaus
Olha os hospitais
Gente boa
Gente decente
E eu vivo
Teimosamente vivo.
É uma afronta
Uma decepção.
Ainda mais sendo eu.
Dó?
Tenho
De mim? Não
Meu couro não me causa cio
Aceito chuva e fogo
Aceito o vazio
As mãos da mãe desfiando o Rosário
A resa da minha irmã
O riso da outra mana
O abraço da sobrinha
Morrer tem que ser morrer.
Acabar e saber de mais nada
Porque se morrer for viver sem isso
Ah...
Nem sei que digo
Dou meu fígado aos abutres
Mas não dou meu coração para esta dor.
Sinto vontade de morrer
E esquecer que vi a Muralha
E as árvores de manacá
E a tucanada
As maritacas
As capivaras no banhado velho
Os Passarim
Eu queria outra coisa
Mas sinto
Que
Quero
Morrer.
Da angústia que me sufoca
Acho que o fim dela é esse
Sinto
Que quero
Um último beijo
Um último afago
Um último desafio
De cordas com um amigo novo
Ou irmão velho
Tudo é um despojamento
Não sei dizer se estou convencido
Mas sinto
E se ignoro o que sinto
Já sou nada sem morrer.
Se poema ruim se fez o novo mundo
Retórica vivendo na política
Vergonha danada
Fui tanta coisa que não sei
Sei tanto do que não fui
O açougueiro faz o pão
O padeiro leva a culpa
E eu pendo à esquerda para cair
Cair me partiria a cara
Mas impedir a queda
Me dá torcicolo
Sinto
Que quero
Relógios de peças mudas
Telas vivas cheias de coisas mortas
Ah
Sinto que quero
No lombo da moto?
No bojo do carro?
No quarto?
Nas garras da lei
Ou nos braços do crime
Que não compensa
Para quem não pratica?
Estendendo os braços
Para os filhos que não tive?
Talvez tudo isso
Talvez nada.
Talvez cair
Talvez voar
Da angústia que me sufoca
Acho que o meu fim
É este.
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