Foto de Claudinei Soares

Claudinei Soares

@CLAUDINEISOARES · desde 2019

O que escrevo acidentalmente vira verso.

176 poemas 39 seguidores 20 seguindo

Seguir

Bicho

Foi no holoceno Certeza. Surgiu aí um bicho estranho Não voava, não cantava Não nadava Ficava aí Com cara de nada Mas atrás dos olhos Meio bovinos do bicho Coisa estranha rolava... Na cabeça do bicho No caroço da cabeça Ele era outra história Voava nadava cantava Fazia Deus Fazia o diabo Casa cidade navio avião Amor guerra verdade mentira P O E S I A Podia ter ficado nisso Mas foi além Entre as orelhas do bicho Um nó nas tripas da cabeça E ele pariu a Bomba Com B grande igual de Deus E assim como pariu a palavra Pariu a Desgraça Pariu Zeus Que pariu Athena Que pariu filosofia Por partenogênese Quem diria Que tudo isso estava Atrás da cara de nada De besta, de zé ruela Daquele bicho deslocado Que pra dizer bem verdade Para nada não servia? O bicho pôs em prática as caraminholadas Bicho finório e ladino São muitos desses agora -e dão muita dor de cabeça? -Ah Dão!

Continuar lendo

NUIT

Noite estreita Estilete rebelde Roça a íris Luzente das ruas Que resistem De tochas em punho E impropérios Ordeiros e silenciosos Noite esquiva Fria e calculista Deixa os filhos Natimortos cabisbaixos São poetas Não são gente, menina Ninguém lhes dá atenção Noite estranha Desperta e esquiva Violenta Sem dar um só tiro Encobre a guerra E afaga infelizes Noite que sorri... Noite que sorri... Eu voei Sobre as cinzas de Gaza Luciférico Minhas asas em brasa Fui o teto De todos os céus E te imploro que pise em mim. Noite que sorri... Flores negras Versos dos homens Sonetos dos anjos Liras dos deuses Noite nossa Em que uivamos calados Rastejando Na alma sonhos alados Noite minha Deixa-me vê-la uma vez Deixa-me chorar Sem pranto Esta mesma insensatez eterna De existir por enquanto

Continuar lendo

***

Se houvesse algo que eu pudesse dizer À todos os ouvidos do mundo Seria "sinto muito", eu acho. Ouvi falar que nascemos com propósito Que temos um propósito Que temos de significar algo Mas o que sinto Tateando neste mundo É aspereza e vazio Quando não Algo esquivo e viscoso Que me causa asco e pavor Se houvesse algo Que eu pudesse fazer Por todos os lábios do mundo Seria implorar por silêncio Ouvi falar que a vida humana é preciosa Mas os fatos não comprovam O que percebo é a indiferença geral. Não posso salvar Não posso ajudar Não posso ensinar Não posso curar Deus não gosta de mim Seus emissários de amor Não cansam de me repetir isso Estou expulso de todos os paraísos Celestes e terrenos Me encostei numa calçada E ouvindo a chuva Eu chorei demais. As luzes beatíficas de uma casa com família dentro Cercada de escuridão e frio Se houvesse algo que eu pudesse dizer a todos os ouvidos do mundo Seria Fracassamos.

Continuar lendo

Atemporal?

Há tempos não via o mundo Sua marcha lenta não vi Não vi suas guerras e pestes Não lamentei nem sorri Não notei danças e modas Os costumes ou as leis As descobertas maçantes E os pedantes Novos reis A busca de liberdade Que é mera vazão do ego Gente tateia no escuro E entrega a guia à algum cego O sexo a ira, as drogas Os modos mais permissivos A fome fazendo mortos Ganharem a inveja dos vivos A indústria devorando Entre fumaça e tremores A vida triste e ignóbil Dos sujos trabalhadores Milhões de pobres aplaudem Seu ídolo perdulario A escravidão chancelada À cada treze salários... Há tempos não via o mundo Não via o seu esplendor Não via as faces vazias Tranquilas frente ao terror Não via a ignorância E seu reinado de prazer O que ódio e intolerância São capazes de fazer E a fé ser como sempre O rifle dos assaltos Tirando o pão de crianças Dilapidando incautos Fé que norteia mil povos Tira-lhes tudo da vida Os transformando em ratos Num duelo fratricida E as mansões suntuosas E nos templos leite e mel E as torres das cidades Dedos cobiçando o céu. Há tempos não via o mundo Vir emergindo da bruma Repleto das novidades Que não mudam coisa alguma.

Continuar lendo

12/2014

Um pêssego maduro Na fruteira Um céu de chumbo e ferro Raio e trovão A vela que ilumina A sala inteira Esconjurando em chamas A escuridão Os muros do abismo Já castigados Por águas que anseiam Por subir Fartaram-se nos nossos Antepassados E engendram cataclismas No porvir Madura feito fruta É a menina Que encanta e fascina Para ferir Que ama e desama Desanima E o pranto de um amante A faz sorrir E o verso trespassado De um poeta Numa sala secreta Nada é O ritmo bate os pregos E sua meta Crucificar os restos Da sua fé... Um anjo renegado Salmodia Vai avançando o dia? Talvez não Sob o granizo e vento Que assobia Eterna se anuncia A escuridão? E entre os prédios limpos Tediosos Não nadam majestosos Leviatãs? Não urram sáureos mortos Belicosos Nas nuvens tormentosas Da manhã? A menina se arruma Se envaidece O anjo recrudesce O vão louvor O pêssego aos poucos Apodrece A vela esmorece Vence o terror O coração e a pluma Na balança Mais uma esperança Para ruir O sonho embora grande Embora eterno Só serve para o inferno ... se servir.

Continuar lendo

CRI

Que vontade de correr Que vontade de esquecer Que vontade de aprender Que vontade de ganhar Que vontade de esquecer Que vontade de entreter Que vontade de entender Que vontade de explicar Qual vontade Que vontade Que vontade? De Chorar Livro pra desaprender Arma pra pacificar Crença para desunir Trabalho pra escravisar Lazer para esquecer Festa pra anestesiar cano na testa na quinta Mas deixa Olha a sexta Vai chegar Que vontade Q Ue Von Tad Dede GrITAR PARA NÃO DIZER CHORAR Para não dizer Tombar E não levantar mais Para não dizer morena A alma ficou pequena Tudo é nada: vale a pena? Nem morto descanso em paz Que vontade De chorar O primeiro lugar perdeu O segundo também perdeu A platéia perdeu O telespectador perdeu A flor que nasceu A flor que cresceu E que floresceu Sem ninguém regar Depois morreu. Depois sou eu. Que vontade ter vontade Ter vontade é ter lugar Entre a gente sorridente Que acha feio Fraquejar. A vontade Tempestade Que me invade É de passar.

Continuar lendo

TMorrow

Você não sabe o que será amanhã Tanta desgraça junta Ninguém se faz a pergunta E se você fosse minha amanhã? O que eu faria pra te manter aqui? Tento pensar em coisa menos complexa Tentando imaginar uma vida depois Você deve saber que tive alguém do meu lado E todos são menos que um Quando estragam uma vida à dois. Nem interessa mas eu falo ainda assim Não tema nada se eu disser te amo Não interessa mas eu digo a que vim Você só tem que arriscar E chegar quando eu te chamo Ninguém será a mesma coisa amanhã Tanta alegria junta Resposta à uma pergunta E se você fosse minha amanhã Que desculpa eu inventaria Para não ser feliz? Às vezes acho que fiz tudo errado Desde o começo Às vezes acho que não vai dar pé Queria ver O valor das coisas Mas não o preço Apanhei muito Quase perco a fé Essa tristeza é parte do meu charme Deixa eu ser essa incógnita na sua mão Não tire minha dor, amor Não me desarme Ela me faz ver as coisas com mais compaixão E sabe-se lá o que será do amanhã Tanta mentira junta Talvez nem haja pergunta E nem exista o que se chama amanhã Talvez seja só questão de acreditar Que você estará online Pra eu te incomodar Te chamar para o parque Que a gente nunca vai Chamar seu nome Como se soubesse tudo e você Mandando um beijo quando a linha cai Não, ninguém sabe o que será amanhã E como é bom poder ignorar Ninguém avisa o que será amanhã E isso às vezes nos ajuda à sonhar...

Continuar lendo

VITA

Está acontecendo a vida Aí, nos becos mal-iluminados Nas dobras da pele, das esquinas das notas e das cristas Está acontecendo em nível celular Em nível molecular em nível atômico E o homem atônito Sem o que fazer com o dom da fala Se fez narrador da opereta. Está acontecendo a vida este pacote super combo mega pós moderno Cheio de novidades para os velhos cheio de antiguidades para os novos por falta de opção todos alardeiam seu livre-arbítrio. E julgam com a régua de seu gosto a infinitude que captam com seus olhos empapados de imediatismo. Está acontecendo a vida Para quem não pode notá-la para quem pode apreciar para quem nem sabe o que é vida Está acontecendo agora. Está acontecendo como sempre como um violeiro solitário pelo campo Como um marceneiro obcecado em sua obra Tanto corta, tanto torce e tanto esculpe ali decifra todas as coisas o mundo e se esquece que o que faz é uma cadeira. Então discreta como tudo o mais que importa como a mãe que ajeita o cobertor à noite como o leiteiro que pousa mudo as garrafas A vida está acontecendo. AGORA.

Continuar lendo

A BANDA DO FIM DO MUNDO

O mundo está acabando O lado bom é que é o fim dos delírios Eu queria uma cerveja. O mundo precisou acabar Para eu saber o que importava Sempre Me dou conta Que vou morrer Porra Não entendo viver Entendo a morte muito menos Hoje o passeio de carro parecia em High definition Eu sentia tudo Percebia tudo E lembrei que vou morrer Suicídio Ou velhice Vou morrer de qualquer jeito O drama não muda nada Me formei E vou me dissolver E é isso Essa consciência vai cessar De qualquer modo Senti medo E ao mesmo tempo uma outra coisa Que é uma curiosidade De saber O que vai ser Estou velho demais para o céu E o inferno é perto aqui de casa Então... Incógnita O mundo está acabando Mas a banda está tocando Dream on! Desperdício de tempo Três palavras que resumem A minha pessoa inteira Não consigo ter bebida em casa Vou passar horas imaginando uma cerveja Não estou atado a nada Porque ainda mofo neste pedaço mesquinho do mundo? Porque para um fracassado Qualquer pedaço serve. Eu sou um derelito Faz tempo que sei disso Desde os 15. Não consigo amar Nem odiar Tudo feito com cuspe Tudo na gambiarra O mundo está acabando Estamos aí Vendo o reality show Estamos aí Vendo o Palmeiras no Mundial Estamos aí Caçando um pão com linguiça E uma coca Num posto de beira de estrada Estamos aí. Para o que der e vier Cante comigo Só por hoje Ao som da banda Do fim do mundo Talvez amanhã O bom Deus te leve embora Hoje ele vai te ver se contorcer Chorar no banheiro Ganir feito um cão vadio Se perguntando o porquê. Entretenimento de qualidade. Dream On! Ahhhhh (grite como quem viu uma barata) O passado se foi Quando a poeira baixar Estará vivo em quem se lembra e só Se eu morro Ele morre comigo Os fósseis terão nome Enquanto eu viver Cante comigo Pelo riso e pela lágrima Ao som da banda do fim do mundo Enquanto eu negocio a arma Ou o veneno Ou testo o nó na corda Estou há vinte anos De malas prontas Achando que talvez amanhã O charlatão celeste vai vir buscar seu representante comercial.

Continuar lendo

Quero.

Sinto que quero morrer Essa morte doce destes rostos coloridos Na expressão cartunesca do ahegao O esgar que talvez me enforcasse Talvez me ferisse Atravessasse como bala Faca pedra machado - que diabo Me queimasse a goela feito o veneno Das palavras dos meus detratores Ex amores ressentidos Credores famintos Morrer Com tantos morrendo É pegar o comboio. Olha Manaus Olha os hospitais Gente boa Gente decente E eu vivo Teimosamente vivo. É uma afronta Uma decepção. Ainda mais sendo eu. Dó? Tenho De mim? Não Meu couro não me causa cio Aceito chuva e fogo Aceito o vazio As mãos da mãe desfiando o Rosário A resa da minha irmã O riso da outra mana O abraço da sobrinha Morrer tem que ser morrer. Acabar e saber de mais nada Porque se morrer for viver sem isso Ah... Nem sei que digo Dou meu fígado aos abutres Mas não dou meu coração para esta dor. Sinto vontade de morrer E esquecer que vi a Muralha E as árvores de manacá E a tucanada As maritacas As capivaras no banhado velho Os Passarim Eu queria outra coisa Mas sinto Que Quero Morrer. Da angústia que me sufoca Acho que o fim dela é esse Sinto Que quero Um último beijo Um último afago Um último desafio De cordas com um amigo novo Ou irmão velho Tudo é um despojamento Não sei dizer se estou convencido Mas sinto E se ignoro o que sinto Já sou nada sem morrer. Se poema ruim se fez o novo mundo Retórica vivendo na política Vergonha danada Fui tanta coisa que não sei Sei tanto do que não fui O açougueiro faz o pão O padeiro leva a culpa E eu pendo à esquerda para cair Cair me partiria a cara Mas impedir a queda Me dá torcicolo Sinto Que quero Relógios de peças mudas Telas vivas cheias de coisas mortas Ah Sinto que quero No lombo da moto? No bojo do carro? No quarto? Nas garras da lei Ou nos braços do crime Que não compensa Para quem não pratica? Estendendo os braços Para os filhos que não tive? Talvez tudo isso Talvez nada. Talvez cair Talvez voar Da angústia que me sufoca Acho que o meu fim É este.

Continuar lendo