Claudinei Soares @CLAUDINEISOARES

Quero.

Sinto que quero morrer Essa morte doce destes rostos coloridos Na expressão cartunesca do ahegao O esgar que talvez me enforcasse Talvez me ferisse Atravessasse como bala Faca pedra machado - que diabo Me queimasse a goela feito o veneno Das palavras dos meus detratores Ex amores ressentidos Credores famintos Morrer Com tantos morrendo É pegar o comboio. Olha Manaus Olha os hospitais Gente boa Gente decente E eu vivo Teimosamente vivo. É uma afronta Uma decepção. Ainda mais sendo eu. Dó? Tenho De mim? Não Meu couro não me causa cio Aceito chuva e fogo Aceito o vazio As mãos da mãe desfiando o Rosário A resa da minha irmã O riso da outra mana O abraço da sobrinha Morrer tem que ser morrer. Acabar e saber de mais nada Porque se morrer for viver sem isso Ah... Nem sei que digo Dou meu fígado aos abutres Mas não dou meu coração para esta dor. Sinto vontade de morrer E esquecer que vi a Muralha E as árvores de manacá E a tucanada As maritacas As capivaras no banhado velho Os Passarim Eu queria outra coisa Mas sinto Que Quero Morrer. Da angústia que me sufoca Acho que o fim dela é esse Sinto Que quero Um último beijo Um último afago Um último desafio De cordas com um amigo novo Ou irmão velho Tudo é um despojamento Não sei dizer se estou convencido Mas sinto E se ignoro o que sinto Já sou nada sem morrer. Se poema ruim se fez o novo mundo Retórica vivendo na política Vergonha danada Fui tanta coisa que não sei Sei tanto do que não fui O açougueiro faz o pão O padeiro leva a culpa E eu pendo à esquerda para cair Cair me partiria a cara Mas impedir a queda Me dá torcicolo Sinto Que quero Relógios de peças mudas Telas vivas cheias de coisas mortas Ah Sinto que quero No lombo da moto? No bojo do carro? No quarto? Nas garras da lei Ou nos braços do crime Que não compensa Para quem não pratica? Estendendo os braços Para os filhos que não tive? Talvez tudo isso Talvez nada. Talvez cair Talvez voar Da angústia que me sufoca Acho que o meu fim É este.

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